Jovem, independente e instruída: a história real de Natasha, psicóloga forense, que deu um basta no relacionamento abusivo

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América


Juliana Lemes da Cruz.
Doutoranda em Política Social – UFF.
Pesquisadora GEPAF/UFVJM.
Coordenadora do Projeto MLV.
Contato: julianalemes@id.uff.br

A narrativa desta edição refere-se a uma situação ocorrida em uma das comarcas do Vale do Mucuri. Os nomes dos envolvidos são fictícios, embora a história seja real. Adianto que o interesse em tornar público o fato foi da envolvida, por compreender ser de extrema importância alertar outras mulheres sobre a violência doméstica. Assim como ela, inúmeras outras também independentes, bem relacionadas socialmente, instruídas e com padrão de vida acima da condição média da população, podem estar presas a relacionamentos abusivos. Engana quem acredita que essa modalidade violenta ocorre apenas em classes socioeconomicamente desfavorecidas. Natasha é um exemplo claro de que mulheres estão vulneráveis aos abusos e podem permanecer por anos em relacionamentos carregados de sofrimento.

Natasha é jovem, psicóloga no Tribunal de Justiça de Minas, casada há uma década com Juca, um homem aparentemente tranquilo, simpático e bom profissional, além de ostentar status social notável. Da união, tiveram dois filhos, que são ainda crianças. No início do namoro, Natasha percebeu certa possessividade e ciúmes de Juca com relação a ela, mas, preferiu investir na relação acreditando se tratar de uma forma de cuidado. Em pouco tempo, Juca já interferia em suas amizades, atribuindo- -lhes defeitos e influenciava na frequência do contato com sua família. Natasha acreditava que o que ele dizia estava correto e aceitava suas imposições. Sentia que havia perdido sua identidade, mas insistiu, uma vez que tinha a intenção de preservar seu lar.

Palavras de baixo calão faziam parte dos anos de relacionamento entre o casal. Natasha buscou ajuda psicológica e conseguiu perceber a situação que vivia. Apesar de, no âmbito profissional, ter plena consciência dos sinais de abuso, não era tão simples se perceber no olho do furacão. Natasha viu a escalada da violência com o passar do tempo. Foram episódios de violência psicológica, moral e física. Constrangida aos gritos por Juca, ela se apequenou, sentiu-se culpada pela agressividade do parceiro, além de incapaz e impotente. Preferiu guardar para si o seu tormento.

Em certo momento, as agressões físicas eram quase que diárias. Elas viam associadas às ameaças e o incentivo para que saltasse do prédio, dando fim à sua vida. O ápice das agressões ocorreu durante uma madrugada no final de 2020, quando Natasha se percebeu em grave risco de morte. Juca a tentou enforcar com as mãos, bateu sua cabeça na parede, na quina da pia do banheiro e no vaso sanitário. Deu chutes e murros no rosto de Natasha, enquanto a xingava.

No dia seguinte, cheia de hematomas, Natasha foi levada por Juca à uma unidade de saúde. Lá, Natasha não teve coragem de dizer o ocorrido. Juca estava bem ao seu lado durante o atendimento. O médico percebeu que não se tratava de uma queda de escada, como relatado pela paciente, mas, não poderia fazer muito além, se a confirmação não partisse dela.

Momentos depois, Bento, irmão de Natasha, chegou acompanhado de policiais, pois tinha tomado conhecimento do ocorrido.

Mesmo diante do apoio, a versão de que as lesões seriam decorrentes de uma queda foi mantida. Juca já não estava no local com Natasha no instante da chegada das autoridades, tendo ficado impune, mais uma vez. A sequência de violências só foi interrompida há cerca de um mês, quando, após mais um episódio violento, Natasha decidiu olhar para si. Até aquele momento, muitos prejuízos de ordem psicológica e até profissional ele havia se submetido. Natasha precisou se licenciar das atividades do Fórum para se recuperar psicologicamente e curar as lesões.

Buscando manter sua família unida e aparentemente feliz, Natasha deixou de noticiar aos seus pais o que ocorria com ela, chegou a sair de casa e retornar, em razão das promessas de mudança por parte de Juca. Por outro lado, os familiares do autor sabiam o que acontecia entre eles, e assumiram a postura de apoio ao comportamento de Juca, buscando justificativa para seus acessos de raiva e erros. A difamação à Natasha foi a escolha desses familiares durante os anos de relacionamento.

Em meados de 2021, buscou ajuda, registrou um boletim de ocorrência detalhado, com tudo que lembrou desde o início do relacionamento abusivo, inclusive, acrescentando a violência moral que sofria dos familiares de Juca. No primeiro momento, optou por não o processar. Natasha temeu as ameaças do autor de tirar a guarda dos seus filhos e de fazer algo incerto se ela saísse da relação com, ao menos, um real dele. Natasha se fortaleceu na terapia, montou um plano de ruptura do ciclo violento, esperou o momento oportuno e agiu.

Atualmente, com medida protetiva em desfavor de Juca, sente-se melhor, apesar do período de adaptação com a nova realidade. Apesar de tudo, tem o apoio da família e situação financeira estável. Condições que a ajudarão a se reerguer diante de mais de uma década de turbulência, entre namoro e casamento. O relato foi revisado pela envolvida e reproduzido nesta coluna porque reflete a realidade de inúmeras mulheres de classes média e alta que nunca tiveram a coragem de romper ciclos de sofrimento ou mesmo, identificar que estão imersas em um.

1 COMENTÁRIO

  1. Infelizmente existe homens covardes, ao qual vivem de aparencia e quem nao os conhece acham que sao pessoas boas. Deveriam ter vergonha de si mesmo.

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