Repercussões da guerra na Ucrânia

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Juliana Lemes da Cruz.
Doutoranda em Política Social – UFF.
Pesquisadora GEPAF/UFVJM.
Coordenadora do Projeto MLV.
Contato: julianalemes@id.uff.br

Por mais que possa parecer improvável que as consequências da guerra deflagrada na Ucrânia desde o dia 24 de fevereiro do ano de 2022 afetem mortalmente os brasileiros, isso tem grandes chances de acontecer. A previsão é de especialistas de áreas interconectadas que estão em alerta à repercussão da guerra sobre a dinâmica mundial de co-dependência entre os países.

Uma das principais razões para o conflito – Sob o argumento de que a Ucrânia ainda seria um país nazista, a Rússia, presidida por Vladimir Putin, lançou uma “operação militar especial que teria como objetivo a desmilitarização e a desnazificação” do país. O arsenal de guerra russo voltou-se contra a capital do país, Kiev, e abriu fogo. O conflito no Leste Europeu acabou por desencadear o cerco por terra e mar da Ucrânia pelas forças russas, que têm avançado rumo à tomada de poder do país vizinho, violando claramente a soberania nacional ucraniana, e tratados internacionais de direitos humanos.

A questão central que motivou a invasão da Rússia teria sido a possível integração da Ucrânia à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), criada em 1949, durante a Guerra Fria (1947 – 1991), momento que marcou duradoura tensão geopolítica protagonizada por dois grandes blocos. De um lado, a União Soviética (US), no lado oriental, e de outro, os Estados Unidos (EUA), no lado ocidental. A OTAN objetivava, principalmente, fazer frente às possíveis investidas da US, sediada em Moscou/ Rússia, que tinha sob controle repúblicas do Leste Europeu, como é o caso da Ucrânia, que se tornou independente com a dissolução da US em 1991.

A OTAN tem na sua liderança os Estados Unidos, histórico opositor da Rússia. Trata-se de uma organização militar intergovernamental de relevância, que estreitaria os laços da Ucrânia com países do ocidente. Isso significa que, sendo admitida na OTAN, juntamente com mais 30 membros, a Ucrânia passaria a ser protegida pela aliança militar e seus componentes teriam a obrigação de defendê-la em caso de agressão. Putin, tendo planejado por pelo menos oito anos a atual ação sobre os ucranianos, se antecipou e avançou para a tomada daquele território, assim como fez com a Crimeia em 2014, localizada ao sul da Ucrânia.

Repercussões da investida russa - A Organização das Nações Unidas (ONU), durante reunião extraordinária, aprovou em 02 de março, uma resolução que condena a ação da Rússia sobre a Ucrânia. Amplamente difundida na grande mídia, a situação tem vitimado civis, e não apenas alvos militares, como é próprio de uma guerra militar. Na primeira semana de conflito contabilizou-se mais de trezentas mortes, dentre as quais, crianças e idosos. Dentre os mais recentes acontecimentos, destaco:

• Os ucranianos, militares e civis, têm resistido à ofensiva russa lutando bravamente;

• Torres de televisão e prédios públicos ucranianos foram bombardeadas;

• O presidente ucraniano, Zelensky Volodymyr foi aplaudido de pé pelo parlamento europeu durante reunião onde ele participou por videoconferência. Pediu ajuda e cobrou postura das nações;

• Os Estados Unidos ofereceram a Zelensky, ajuda para deixar a Ucrânia. O líder respondeu que precisava de munição, não de carona;

• Os russos trataram de inviabilizar a chegada da informação à Ucrânia e houve colapso de sistemas informatizados por meio de ataques Hackers – configurando também uma guerra pela internet;

• Grandes empresas dos setores de petróleo e gás, automotivas, marítimas e de aviação civil e transporte de cargas deixaram a Rússia;

• Já passam de 800 mil o número de pessoas refugiadas – que fugiram da Ucrânia para outros países do entorno;

• A Rússia fornece petróleo e gás para países da Europa que se voltaram contra o governo Putin, o que deixa o setor em alerta;

• Para segurar o preço do petróleo, o governo Joe Biden (EUA), liberou 600 milhões de barris;

• A Alemanha, que era ponte entre Rússia e União Européia, rompe acordos;

• Ficam ao lado da Rússia, países como Belarus, Venezuela e Síria;

• A China, importante potência econômica mundial, mantêm-se sob o tom de neutralidade diante do conflito;

• Biden, no tradicional discurso do “Estado da União”, onde o líder da nação expõe ao Congresso americano suas projeções para o governo, fez duras críticas a Putin e demonstrou apoio à Ucrânia;

• Jair Bolsonaro, presidente brasileiro, que visitou a Rússia poucas semanas antes da invasão, optou-se por não se posicionar a favor ou contra à investida russa;

• A não formalização do posicionamento do Brasil diante da guerra gera insatisfação de distintas camadas sociais;

• O sofrimento perpetrado ao povo ucraniano devido à guerra, que é possível de ser acompanhada em virtude da liberação de empresas que possibilitam internet via satélite, tem provocado indignação e protestos em todo o mundo, inclusive pelo povo russo;

• Há temor de uma guerra nuclear – Rússia e Estados Unidos têm armas dessa envergadura;

• Houve bloqueio das contas bancárias administradas por outros países, dentre os quais, de oligarcas russos que apoiaram a invasão;

• Sanções são perpetradas por países de todo o mundo contra a Rússia, com o objetivo de deixá-la isolada;

• A Rússia e a Ucrânia juntas produzem 30% do trigo consumido no mundo, o que acarretará pressão sobre esta oferta nos próximos meses;

• As sanções impostas ao governo Putin afetarão tanto a Rússia quanto os países sancionadores;

• O Brasil será afetado, principalmente, no setor da agricultura que depende da importação de fertilizantes, o que envolve negócios com a Rússia;

• A baixa ou não oferta do trigo produzido no Leste Europeu acarretará tensão econômica em cadeia – subirão preços dos alimentos, dentre os quais, da carne. Os animais dependem de ração, que tem como componente, o trigo;

• Voos russos foram bloqueados em vários países, que também fecharam seus espaços aéreos para a Rússia.

Aprofundamento da crise econômica em escala global – Como resultado da deflagração da guerra, uma reação com efeito dominó em diversos setores que compõem a dimensão geopolítica. A co-dependência entre as nações de todos os continentes tende a produzir o acirramento dos conflitos de proporções nunca antes visto. A crise afeta a produção e distribuição de alimentos, tensões nas relações internacionais, inflação e aumento de juros. Como disse Joe Biden em seu discurso, Putin deve ficar “isolado como nunca esteve”. No entanto, com o isolamento da Rússia, países com baixa capacidade de resistência à crise, aprofundam seus problemas sociais e econômicos desde a dimensão local. É o caso brasileiro.

Referências: CNN Brasil; Globo News – cobertura especial; Valor Econômico.

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