Janaína, a mãe atípica em sentido duplo: fé e amor, adoção e autismo

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Juliana Lemes da Cruz.
Doutora em Política Social (UFF).
Conselheira do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Contato: lemes.jlc@gmail.com | @julianalemesoficial

Desenho aqui, em palavras, a emoção que senti ao organizar este texto sobre a 2ª parte da jornada de Janaína Mendonça. Trata-se de um relato sobre a maternidade via adoção e da adaptação da vida com a presença do autismo. Diz sobre as vivências dessa mãe atípica em sentido duplo que nasceu em 2018, em meio a um marcante processo de angústia.

Jean e seus pais, Janaína e Cadu

Há histórias comuns de vida e há histórias capazes de projetar quem a acessa ao transbordamento espiritual e humano, tamanha a dimensão do cuidado ao próximo manifestado por personagens conhecidos ou anônimos que protagonizam, mesmo na mais genuína das intenções, exemplos de vida baseados no amor.

O desejo de Janaína pela maternidade aflorou em meio ao sucesso profissional relatado no texto anterior desta Coluna[1], onde ilustrei a primeira parte dessa história. Sua inquietação tornou-se ainda mais latente em virtude da sua dificuldade de engravidar, mesmo o médico afirmando que a apendicite tratada em momento anterior não tenha interferido no seu aparelho reprodutor.

[1] https://diariotribuna.com.br/?p=23484

A maternidade pela adoção – Fato é que o obstáculo fez despertar em seu coração um desejo de criança, o de adotar. Após um bom papo com uma profissional da área, viu-se “grávida do coração”. Janaína estava decidida e espiritualmente mobilizada a sensibilizar seu companheiro, o Cadu. Motivo pelo qual, com fé, pediu à Deus que a ajudasse nessa empreitada. Recebida com resistência, a novidade foi absorvida por Cadu após uma pergunta chave da esposa. “J.- Você tem vontade de ter filho não tem? C.- Sim, tenho! J.- E pra quê? C.- Pra passar as coisas boas que a gente tem, pra ensinar, pra deixar uma pessoa melhor pra sociedade, pra poder compartilhar a vida com essa criança. J.- Mas, isso tudo a adoção te permite!”. Foi esse o gatilho para que Cadu se abrisse para a adoção. O que se concretizou, meses depois, para aquele pai, com um abraço do pequeno Jean e a pergunta seguinte de Janaína: “E aí, nós vamos continuar? C.- Esse foi o abraço mais perto de um pai que eu recebi”. Começou aí o processo de aproximação dos recém pais com o bebê.

Uma criança das ruas – Jean foi uma criança gerada por uma mulher em situação de rua, portadora de doença mental, usuária de drogas ilícitas e que sofria abusos e violências nos ambientes por onde passava – desde a região rural de Pavão/MG até Teófilo Otoni/MG. Ao nascer, Jean foi direcionado a um abrigo para a adoção, assim como outros filhos daquela mesma mulher. Ele nasceu com sífilis congênita e tinha possibilidade de ter problemas de audição. O casal assinalou na ficha de cadastro que aceitaria adotar uma criança com doenças tratáveis, o que fez com que subissem para o 1º lugar da fila. O processo todo demorou apenas 10 meses. Jean foi acolhido, e na semana seguinte da adoção, descobriu-se que ele não tinha problemas de audição. A mãe relata que se detectado na semana anterior, Jean não estaria com eles, porque a ordem da fila de espera se alteraria. Também por isso, entendeu que aquela era a criança destinada para eles.

Para Janaína, “a adoção é um jeito de ser família, um meio de responsabilidade social também para com aqueles que foram violentados por várias condições, mas, não só isso. É uma história de amor mútuo, porque não só ele (Jean) recebeu uma oportunidade, mas, nós também recebemos a oportunidade de sermos pais e de receber o amor dele”.

O diagnóstico de autismo – Em 2022, quando Jean tinha de 3 para 4 anos, começaram a observar a forma como ele brincava: empilhando e enfileirando os brinquedos, andando na ponta dos pés, com seletividade alimentar, intolerância à frustração, hiperfoco em planetas, dentre outras características observadas tanto por pessoas da rede de apoio (Mayara), quanto da sua pediatra. Buscou-se informações junto à APAE e em janeiro de 2023, já residindo em Belo Horizonte, o casal teve o diagnóstico conclusivo de que Jean era autista.

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) afeta pacientes no campo da comunicação. É identificado nos primeiros anos de vida, com o retardamento da fala, por exemplo. Mas, pode ser descoberto já na fase adulta. A dificuldade de interação social, comportamentos incomuns, foco em detalhes, rituais/rotina fixa, dificuldade para interpretar a linguagem, a exemplo de uma ironia ou brincadeira, são características desses cérebros que têm funcionamento ainda misterioso para a ciência. Ocorre por causas diversas, desde genética a fatores ambientais.

Assim, autistas apresentam formas de interação diferentes, a depender se o transtorno é de nível leve (1), moderado (2) ou severo (3), o que sinaliza graus de dependência do indivíduo ou sua necessidade de suporte. Vale esclarecer que o autismo não é uma doença, mas, uma condição genética ou deficiência neurológica, reconhecida pela Lei nº 12.764/2012.

Janaína lembrou que sofreram muito preconceito das pessoas ao seu redor, sendo a escola ainda muito despreparada para lidar com o autismo e por isso, foi muito desafiador. No entanto, dispõe de uma rede de apoio forte, composta por familiares, tanto de sua parte, quanto da parte do Cadu. Relata que para conseguir ser mãe é essa rede que te dá suporte. Desde 2022, Janaína tem viajado o estado inteiro a trabalho e isso faz com que ela tenha que lidar com a culpa de não estar presente. Desabafa que consegue porque tem ao seu lado o Cadu: “[…] muito parceiro, companheiro, me potencializa, me valoriza, me impulsiona a ser a profissional que eu sou e a mulher que eu sou, ficando na retaguarda nos cuidados do Jean”. O casal precisou estudar muito e se adaptar às sessões terapêuticas que, em certas ocasiões, são realizadas no ambiente familiar.

Com um sorriso no rosto e muita fé, Janaína tem abraçado seus desafios porque compreende que são propósitos de Deus em sua vida. Ela acredita que Jean foi enviado por Ele para ser cuidado pelo casal, devolvendo-os o amor que recebe. O menino é a maior alegria de suas vidas, por onde passa, cativa as pessoas. Essa maternidade atípica significa para Janaína um misto de alegria, paixão e cumplicidade. Um privilégio que ela atribui ao Divino, porque crê no melhor que Ele sempre faz aos seus filhos.

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