COVID(ando) a Refletir

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Bruno Oliveira
Farmacêutico Analista Clínico

Pós Graduado em Química (UFLA) / Pós Graduado em Docência do Ensino Superior (DOCTUM) / Pós Graduado em Vigilância em Saúde Ambiental (UFRJ) / Pós Graduado em Vigilância em Saúde (Instituto Sírio-Libanês de Ensino e Pesquisa)

Olá, a partir de hoje passarei por aqui semanalmente para falar um pouco sobre as pesquisas, curiosidades, dúvidas, notícias falsas, polêmicas, etc., sobre o assunto do momento, a Pandemia Mundial de Coronavírus. Em tempos onde as notícias, muitas vezes falsas, de WhatsApp e Facebook são repassadas como verdades absolutas e atingem um contingente populacional enorme em fração de segundos e a imprensa sensacionalista descumpre seu papel social/informativo, confundindo mais que esclarecendo sobre o tema, achei oportuno compartilhar um pouco de informações, com responsabilidade, sobre este momento inusitado que estamos vivendo. Irei expor as novidades e buscar esclarecer as dúvidas dos leitores, tentando o tempo todo não envolver política nos meus textos, mesmo que seja quase impossível na atualidade. Além disso, sempre colocarei as referências para que vocês possam confirmar as informações repassadas e para que também possam tirar suas conclusões.

O primeiro assunto que falaremos será sobre os primeiros resultados da pesquisa EPICOVID19-BR que o Centro de Pesquisas Epidemiológicas da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) está aplicando em várias cidades do Brasil, dentre elas, Teófilo Otoni, em parceria com pesquisadores do IBOPE. De acordo com as informações no site da UFPel, o estudo “irá estimar a prevalência do Coronavírus e avaliar a velocidade de expansão da doença no país, com financiamento do Ministério da Saúde do Brasil. A pesquisa irá levantar a proporção de pessoas com anticorpos para a Covid-19 e analisar a evolução de casos na população brasileira, por meio de uma amostragem de participantes em 133 “cidades sentinelas”, que são os maiores municípios das divisões demográficas do país, de acordo com critério do IBGE”. O coordenador do estudo, Pedro Hallal, afirma que “Todas as estatísticas oficiais são baseadas em casos confirmados, os quais representam apenas uma parcela, provavelmente ínfima, em comparação com a realidade do número de casos na população. Por isso, fazemos a analogia com o iceberg. Queremos enxergar para além dessa pequena parte aparente, que são os casos notificados, e conhecer a real proporção de pessoas atingidas pela infecção”.

Simplificando, o principal objetivo deste estudo é estimar o número real (aproximado) de pessoas infectadas ou que tiveram contato com vírus, visto que muitos casos são subnotificados devido a vários motivos, dentre eles e principalmente, à baixa testagem no Brasil. Este estudo contará com três fases, onde em cada uma delas pesquisadores do IBOPE irão aplicar entrevistas e serão realizados Testes Rápidos para Coronavírus em 250 participantes em cada uma das 133 cidades participantes. São estes mesmos Testes Rápidos que o Ministério da Saúde e as Secretarias Estaduais de Saúde distribuíram aos municípios. As pessoas que participarão do estudo (Teste Rápido e entrevista) serão escolhidas através de sorteios aleatórios, com critérios estatísticos e rigor científico, utilizando como base os setores censitários do IBGE.

Já ocorreram duas fases desta pesquisa, uma entre os dias 14 e 21 de maio (1ª fase) e outra entre os dias 04 e 07 de junho (2ª fase). Para que os resultados fossem validados, os pesquisadores precisavam entrevistar e fazer o Teste Rápido em pelo menos 200 moradores. Em Teófilo Otoni eles tiveram êxito nas duas fases. A título de curiosidade, a primeira fase, talvez por uma falta de divulgação prévia da pesquisa aos moradores, houve muitos contratempos em todo Brasil. Teve pesquisador preso pela polícia, proibição de governos municipais e até agressão nas ruas. Dos 133 municípios previstos, apenas 90 foi possível testar pelo menos 200 pessoas selecionadas por sorteio, inviabilizando 43 cidades. Para quem quiser saber detalhes sobre a metodologia, cidades participantes, quantitativo de testes e entrevistas aplicadas, etc., deixarei os links no final do texto. Sem mais delongas, vamos aos resultados de Teófilo Otoni.

Como já foram publicados os resultados da segunda fase desta pesquisa, não teria muito sentido falarmos dos resultados da primeira, porém alguns pontos gerais valem a pena comentar para que os resultados de Teófilo Otoni sejam melhor compreendidos:

>Em duas semanas, da primeira para a segunda fase, houve aumento em 50% a proporção da população com anticorpos para Coronavírus no Brasil, ou seja, tiveram ou têm o Coronavírus.

>Em 120 cidades (das 133 possíveis) foi possível testar pelo menos 200 pessoas na segunda fase, todas selecionadas por sorteio, e tiveram seus dados validados. A comparação do número de pessoas com anticorpos estimada pela pesquisa com os números oficiais de casos confirmados aponta para uma grande disparidade. No dia 03 de junho, véspera do início da pesquisa, essas 120 cidades somadas contabilizavam 296.305 casos confirmados e 19.124 mortes. Os dados da pesquisa estimam que, para cada caso confirmado de Coronavírus nessas cidades, existem 6 pessoas com anticorpos na população, ou seja, apenas 1 em cada 6 pessoas infectadas fazem parte dos dados oficiais.

>A diferença por regiões do Brasil é marcante. Entre as capitais, por exemplo, Boa Vista (RR) é a capital com maior prevalência, a proporção da população que tem ou já teve Coronavírus foi estimada em 25%, ou seja, um de cada quatro habitantes da cidade está ou já esteve infectado. Já em Belo Horizonte (MG) essa proporção não chega a 1% da população.

Mas vamos agora, finalmente, aos números de Teófilo Otoni. De acordo com a pesquisa e de forma espantosa, apenas 0,8% da população de nossa cidade tiveram ou estavam infectadas pelo Coronavírus na época da segunda fase da pesquisa (entre os dias 04 e 07 de junho). Imagino que muitos, inclusive eu, estimava que fosse uma proporção muito maior. Fazendo a conta, se a população daqui é de aproximadamente 140.000 pessoas, então nós teríamos aproximadamente 1.120 pessoas que tiveram ou estavam infectadas pelo Coronavírus. Fui até uma das redes sociais da Prefeitura Municipal e peguei o boletim epidemiológico do dia 03/06/20, véspera do início da segunda fase da pesquisa. Neste boletim o número de casos confirmados era de 323, sendo destes, 11 óbitos.

Com esses resultados podemos concluir duas coisas. A primeira e má notícia é que, como já dito, uma parcela muito pequena da população teve contato com o vírus, isto é, mais de 99% da população ainda estavam susceptíveis ao Coronavírus. E a outra notícia e um pouco melhor, é que nossa testagem está melhor que a média nacional, que como já mencionado, apenas 1 em cada 6 pessoas infectadas faz parte dos dados oficiais. Tinham-se 323 casos confirmados e os números da pesquisa estimava que tivessem 1120, nossa proporção é que para cada caso confirmado temos mais 3,47 pessoas infectadas, contra os seis (06) da média nacional.

Pensamos em fazer uma comparação dos dados com nossa vizinha Governador Valadares, uma vez que políticos, empresários, imprensa e as redes sociais têm feito bastante, mas mesmo que inicialmente GV estava elencada entre as 133 cidades participantes, em nenhum dos relatórios aparece os dados de lá. Muito provavelmente porque não se conseguiu fazer pelo menos 200 Testes Rápidos e entrevistas para validarem os dados da pesquisa. Na primeira fase saiu na imprensa (Jornal O Tempo) que os pesquisadores tiveram problemas em G. Valadares e chegaram a ser detidos por engano pela polícia, mas não achei nada sobre o que aconteceu na segunda fase.

Aguardemos a terceira fase da pesquisa, que deve estar próxima de acontecer. Se você for um dos sorteados, seja cordial com a equipe de pesquisadores. Aguardemos os resultados para que possamos discuti-los aqui.

Sugira novos assuntos ou faça perguntas para que tentemos, com responsabilidade, discuti-las neste espaço. Se cuidem e fiquem em casa.

Relatório da Primeira fase: http: //epidemio-ufpel.org.br/uploads/downloads/276e0cffc2783c68f57b70920fd2acfb.pdf

Relatório da Segunda fase: http: //epidemio-ufpel.org.br/uploads/downloads/19c528cc30e4e5a90d9f71e56f8808ec.pdf

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