{"id":10039,"date":"2021-05-18T11:07:01","date_gmt":"2021-05-18T14:07:01","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=10039"},"modified":"2021-05-19T23:53:52","modified_gmt":"2021-05-20T02:53:52","slug":"os-outros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=10039","title":{"rendered":"Os outros"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Jose-Carlos.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-10040\" width=\"395\" height=\"290\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Jose-Carlos.jpg 700w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Jose-Carlos-300x221.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Jose-Carlos-80x60.jpg 80w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Jose-Carlos-696x512.jpg 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Jose-Carlos-571x420.jpg 571w\" sizes=\"(max-width: 395px) 100vw, 395px\" \/><figcaption><strong>Jos\u00e9 Carlos Freire, Professor da UFVJM,<\/strong><br><strong>Campus de Te\u00f3filo Otoni\/MG<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Em 1964 era publicada \u201cA Legi\u00e3o Estrangeira\u201d. Longe de se referir a qualquer aspecto militar ou de guerra, o livro de Clarice Lispector apresenta uma colet\u00e2nea de contos retratando personagens diversos em momentos corriqueiros. Trata-se de uma legi\u00e3o, mas de pessoas comuns. E \u00e9 exatamente a\u00ed que se encontra a for\u00e7a da narrativa. Em que medida as situa\u00e7\u00f5es do cotidiano podem nos servir como elementos de reflex\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>Os cr\u00edticos invariavelmente associam \u201cA Legi\u00e3o Estrangeira\u201d a duas ideias que, por sinal, est\u00e3o presentes em quase toda a obra de Clarice: a epifania e o estranhamento. Sobre a primeira, tratei um pouco no texto acerca de \u201cA paix\u00e3o segundo G.H.\u201d. S\u00e3o as situa\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas, ou seja, momentos de aten\u00e7\u00e3o aguda nos quais tomamos consci\u00eancia do que somos, do que estamos fazendo ou vivendo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/58bcb12f-9c56-43eb-bb95-d42ed177a29d.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-10041\" width=\"534\" height=\"407\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/58bcb12f-9c56-43eb-bb95-d42ed177a29d.jpg 700w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/58bcb12f-9c56-43eb-bb95-d42ed177a29d-300x229.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/58bcb12f-9c56-43eb-bb95-d42ed177a29d-80x60.jpg 80w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/58bcb12f-9c56-43eb-bb95-d42ed177a29d-696x531.jpg 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/58bcb12f-9c56-43eb-bb95-d42ed177a29d-551x420.jpg 551w\" sizes=\"(max-width: 534px) 100vw, 534px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>O estranhamento forma um par insepar\u00e1vel com a epifania. Podemos dizer que esta resulta quase sempre daquele. Como bem apontou Noemi Jaffe nas suas an\u00e1lises, \u201cA Legi\u00e3o Estrangeira\u201d nos apresenta diversas situa\u00e7\u00f5es de estranhamento, assim como pessoas que se estranham. Vamos a alguns exemplos r\u00e1pidos.<\/p>\n\n\n\n<p>No primeiro conto, \u201cDesastres de Sofia\u201d, vemos a rela\u00e7\u00e3o entre a aluna e o professor. Durante uma atividade did\u00e1tica simples ela se v\u00ea incapaz de responder \u00e0s perguntas do professor; quer ficar e quer fugir; a admira\u00e7\u00e3o e o encantamento se misturam com o sentimento de raiva. \u00c9 um breve momento, mas significa muito na vida daquela crian\u00e7a que, anos depois, lembrar\u00e1 do ocorrido como fato significativo no seu amadurecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Em dois contos temos a ideia do esgotamento de rela\u00e7\u00f5es, quando se chega a um ponto em que os pap\u00e9is at\u00e9 ent\u00e3o assumidos j\u00e1 n\u00e3o se sustentam. \u00c9 o caso de \u201cA mensagem\u201d, que trata da amizade de dois adolescentes, e \u201cOs obedientes\u201d, sobre um casamento que acaba em raz\u00e3o de um m\u00edsero dente quebrado. De maneira tr\u00e1gica tamb\u00e9m termina a amizade (ou fantasia dela) em \u201cA solu\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m os extremos et\u00e1rios: no conto que d\u00e1 nome ao livro, \u201cA legi\u00e3o estrangeira\u201d, temos a emblem\u00e1tica figura da menina Of\u00e9lia; no comovente \u201cViagem a Petr\u00f3polis\u201d, a luz se volta para a velha senhora, Dona Mocinha, jogada de um canto para o outro.<\/p>\n\n\n\n<p>Crian\u00e7as, velhos, adolescentes. Em todos os casos estamos diante de circunst\u00e2ncias que suscitam o estranhamento, a interrup\u00e7\u00e3o de um roteiro, um deslocamento dos protagonistas que provoca, tamb\u00e9m em n\u00f3s, a necessidade de observa\u00e7\u00e3o atenta. Assim \u00e9 a mulher que enfrenta baratas em \u201cA quinta hist\u00f3ria\u201d; a m\u00e3e que administra sentimentos t\u00e3o d\u00edspares dos filhos como a ternura e o luto pela perda de animais dom\u00e9sticos em \u201cMacacos\u201d. H\u00e1, ainda, a inquietante cena da senhora que prepara o caf\u00e9 da manh\u00e3 em \u201cO ovo e a galinha\u201d. Momentos triviais, mas carregados de sentido reflexivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas palavras de Clarice, o estranhamento seria isso: \u201cComo se meu olho curioso se tivesse colado ao buraco da fechadura e em choque se deparasse do outro lado com outro olho colado me olhando\u201d. Magn\u00edfico! Eis que, distra\u00eddo, deparo-me com a vida mesma me olhando, sem que eu possa fugir.<\/p>\n\n\n\n<p>Os gregos tinham pelo menos duas maneiras de falar sobre o tempo, com base na mitologia. Uma forma do tempo \u00e9 o \u201cChronos\u201d, associado ao correr das horas, dias e anos. \u00c9 o mais conhecido: o implac\u00e1vel tempo do rel\u00f3gio. Outra \u00e9 o \u201cKair\u00f3s\u201d, associado \u00e0 ideia de momento oportuno, ocasi\u00e3o espec\u00edfica em que algo se torna intenso ou grandioso. O primeiro \u00e9 continuidade; o segundo \u00e9 interrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 poss\u00edvel que tudo em nossa vida individual e social seja vivido apenas cronologicamente, como sucess\u00e3o de eventos. Por\u00e9m, se estivermos atentos, pode haver a suspens\u00e3o desse tempo que a tudo vai consumindo e deixando para tr\u00e1s. \u00c9 esse o papel do estranhamento e da epifania: um corte no tempo, uma intensifica\u00e7\u00e3o que barra a l\u00f3gica das horas, a crono-l\u00f3gica. \u00c9 quando de dentro do Chronos, o olho do Kair\u00f3s nos enxerga.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, o livro de Clarice \u00e9 um convite bel\u00edssimo a pensarmos nos muitos momentos de \u201cKair\u00f3s\u201d que podem surgir na vida de cada um de n\u00f3s, assim como em nossa vida coletiva. Walter Benjamin, por exemplo, foi um autor que, ao seu modo, tratou de tal interrup\u00e7\u00e3o como mudan\u00e7a na ordem das coisas, que revolucione tudo o que est\u00e1 posto e que, antes, parecia indestrut\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>O leitor certamente ter\u00e1 sua predile\u00e7\u00e3o entre a s\u00e9rie de contos. Eu tenho a minha: \u201cA reparti\u00e7\u00e3o dos p\u00e3es\u201d. \u00c9 uma cena carregada de simbolismos. Um almo\u00e7o de s\u00e1bado, pessoas que se re\u00fanem sem a vontade de estar juntos. Todos ali presos, \u201ccomo se nosso trem tivesse descarrilado e f\u00f4ssemos obrigados a pousar entre estranhos\u201d. Ocorre que a dona da casa os surpreende com uma farta refei\u00e7\u00e3o, \u201cuma mesa para homens de boa vontade\u201d. A mulher, que \u201cdava o melhor n\u00e3o importava a quem\u201d, quebrou o ciclo do marasmo no qual estavam os convidados, sem prazer e sem fome. A abund\u00e2ncia e a beleza foram fatais: \u201caceitamos a mesa\u201d. N\u00e3o havia mais tempo, nem urg\u00eancia alguma, nem cobran\u00e7a: \u201cEra reuni\u00e3o de colheita, e fez-se tr\u00e9gua. Com\u00edamos\u201d. O p\u00e3o partilhado entre estranhos. N\u00e3o por acaso, as religi\u00f5es em sua quase totalidade t\u00eam no ritual da partilha a express\u00e3o do divino, a manifesta\u00e7\u00e3o do sagrado que irrompe.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso penso que no livro A Legi\u00e3o Estrangeira \u00e9 sobretudo a figura do outro que provoca os protagonistas, que os retira de sua c\u00e1psula protetora. Estar com outro \u00e9 um sair de si. H\u00e1 quem prefira negar o outro e, com isso, fechar- -se; h\u00e1 quem escolha receber o outro e, vendo-se nos seus olhos, com ele partir o p\u00e3o. No primeiro caso, todos perdemos. No segundo, o encontro \u00e9 como \u201cum ch\u00e3o onde n\u00f3s todos avan\u00e7amos\u201d. A sociedade justa e livre ser\u00e1 semelhante a esse almo\u00e7o de s\u00e1bado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sugest\u00e3o de leitura:<\/strong> \u201cA Legi\u00e3o Estrangeira\u201d (1964), de Clarice Lispector. Publicado pela Editora do Autor. Dispon\u00edvel em PDF na internet. Contato: <a href=\"mailto:freire.jose@hotmail.com\">freire.jose@hotmail.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1964 era publicada \u201cA Legi\u00e3o Estrangeira\u201d. Longe de se referir a qualquer aspecto militar ou de guerra, o livro de Clarice Lispector apresenta uma colet\u00e2nea de contos retratando personagens diversos em momentos corriqueiros. Trata-se de uma legi\u00e3o, mas de pessoas comuns. E \u00e9 exatamente a\u00ed que se encontra a for\u00e7a da narrativa. 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