{"id":10609,"date":"2021-06-18T23:28:11","date_gmt":"2021-06-19T02:28:11","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=10609"},"modified":"2021-06-23T10:16:24","modified_gmt":"2021-06-23T13:16:24","slug":"lacos-que-unem-e-aprisionam","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=10609","title":{"rendered":"La\u00e7os que unem e aprisionam"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Jose-Carlos.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-10610\" width=\"459\" height=\"338\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Jose-Carlos.jpg 700w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Jose-Carlos-300x221.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Jose-Carlos-80x60.jpg 80w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Jose-Carlos-696x512.jpg 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Jose-Carlos-571x420.jpg 571w\" sizes=\"(max-width: 459px) 100vw, 459px\" \/><figcaption><strong><em>Jos\u00e9 Carlos Freire<\/em> &#8211; Professor da UFVJM, Campus<\/strong> <strong>de<\/strong><br><strong>Te\u00f3filo Otoni\/MG<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>La\u00e7os de Fam\u00edlia \u00e9 um livro de contos de Clarice Lispector, publicado em 1960 pela editora Francisco Alves. A autora trabalha com elementos caracter\u00edsticos da sua obra como o estranhamento e a epifania, adolescentes e suas crises, al\u00e9m da costumeira presen\u00e7a de animais.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Imagem-Lacos-que-unem-e-aprisionam.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-10611\" width=\"550\" height=\"399\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Imagem-Lacos-que-unem-e-aprisionam.jpg 700w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Imagem-Lacos-que-unem-e-aprisionam-300x218.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Imagem-Lacos-que-unem-e-aprisionam-324x235.jpg 324w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Imagem-Lacos-que-unem-e-aprisionam-696x505.jpg 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Imagem-Lacos-que-unem-e-aprisionam-579x420.jpg 579w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Engana-se, no entanto, quem considera que Clarice queira falar apenas de galinhas, b\u00fafalos e cachorros. Os encontros com animais em seus escritos s\u00e3o, via de regra, condi\u00e7\u00f5es para estudos sobre pessoas. Assim, a protagonista de \u201cUma galinha\u201d, que de virtual prato de domingo torna-se a rainha do lar, \u00e9 analisada com tra\u00e7os humanos. Por isso, quando Clarice fala sobre uma simples ave, \u00e9 bom que desconfiemos se ela n\u00e3o quer dizer algo mais sobre os outros personagens.<\/p>\n\n\n\n<p>Do mesmo modo, em \u201cO b\u00fafalo\u201d, o ins\u00f3lito encontro de uma visitante de zool\u00f3gico com o animal funciona como espa\u00e7o de revela\u00e7\u00e3o: \u201cos olhos do b\u00fafalo olharam os seus olhos\u201d. Desde quando ela n\u00e3o se via nos olhos de outro ser? De modo semelhante, a rela\u00e7\u00e3o do protagonista com o cachorro no conto \u201cO crime do professor de matem\u00e1tica\u201d. Por que, afinal, abandonamos quem queremos bem? Medo da companhia? Receio de nos mostrar ao outro?<\/p>\n\n\n\n<p>A transi\u00e7\u00e3o para a juventude, esse t\u00fanel assustador que nos leva ao desconhecido, n\u00e3o deixa de comparecer como tema importante no livro, seja no drama da adolescente que busca se afirmar, sentindo-se rejeitada pela fam\u00edlia no conto \u201cPreciosidade\u201d, seja na hist\u00f3ria de Arthur, em \u201cCome\u00e7os de uma fortuna\u201d, aficionado \u00e0 ideia de que o dinheiro lhe far\u00e1 um homem respeit\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1, por\u00e9m, dois aspectos que se destacam na colet\u00e2nea de contos: o ambiente familiar como espa\u00e7o de refer\u00eancia e o protagonismo de mulheres na maioria deles. A fam\u00edlia \u00e9, marcadamente, da classe m\u00e9dia carioca dos anos 1950 e 1960. As mulheres, em geral donas de casa, transitam no seu duplo papel de cuidadora do lar e esposa exemplar. H\u00e1, pois, um recorte de g\u00eanero e de classe \u2013 no caso do conto \u201cA menor mulher do mundo\u201d tamb\u00e9m \u00e9tnico-racial. No entanto, podem perfeitamente ser lidos como reflex\u00f5es sobre a fam\u00edlia em geral.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, os momentos de estranhamento importam n\u00e3o tanto pelo que representam em si, mas pelo que detonam nas protagonistas. H\u00e1 um desarranjo moment\u00e2neo, um descompasso entre o cotidiano e o que se mostra em determinadas situa\u00e7\u00f5es de intensa percep\u00e7\u00e3o. Lan\u00e7ando m\u00e3o desse dispositivo recorrente nos seus textos, Clarice direciona o foco para o ambiente dom\u00e9stico e mostra, impiedosamente, o vazio, a solid\u00e3o e a infelicidade por traz da casca social que toda fam\u00edlia projeta.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 assim que em \u201cMist\u00e9rio em S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o\u201d, uma cena trivial de roubo de flores no jardim funciona como espelho para que visualizemos o interior da casa, aquela fam\u00edlia de \u201cmuitos cuidados e de algumas mentiras\u201d. A casa, sacudida pela invas\u00e3o da propriedade, anseia agora pelo retorno \u00e0 regularidade. Os pais continuar\u00e3o fatigados; a av\u00f3, temperamental; as crian\u00e7as, insuport\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>O arranjo familiar \u00e9 desnudado de forma ainda mais crua no inc\u00f4modo \u201cFeliz anivers\u00e1rio\u201d. A velha senhora de 89 anos, abrigada na casa da \u00fanica filha promovida a cuidadora, recebe a prole sem entusiasmo. Os visitantes, cada qual a aguentar aquele for\u00e7ado encontro anual, torcem para que a velha n\u00e3o esbraveje sua insatisfa\u00e7\u00e3o \u2013 o que inevitavelmente acontecer\u00e1. Filhos, filha, netos, bisnetos, concunhadas a se engalfinharem, todos insatisfeitos daquela conviv\u00eancia obrigat\u00f3ria, \u00e0 espera do final, quando, aliviados, descer\u00e3o a escadaria do velho pr\u00e9dio e, na rua, poder\u00e3o novamente ser livres. Mas livres de qu\u00ea? A festa de fam\u00edlia: &#8220;um instante que pedia para ser vivo. Mas que era morto&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>De maneira menos \u00e1cida, mas nem por isso superficial, Clarice explora o conv\u00edvio familiar no conto que d\u00e1 t\u00edtulo ao livro. Tal como na festa da matriarca, os la\u00e7os familiares s\u00e3o questionados. Severina visita a filha Catarina, o genro Ant\u00f4nio e o neto. Entre elas, o abismo de d\u00e9cadas de palavras n\u00e3o ditas; entre Severina e Ant\u00f4nio a artificialidade da rela\u00e7\u00e3o; com o neto \u201cmagro e nervoso\u201d, carinhos excessivos que n\u00e3o o agradam. A despedida, a esta\u00e7\u00e3o de trem, o adeus \u00e0 velha m\u00e3e. E agora? Restar\u00e1 a Catarina ser apenas isso: outra Severina? Ela ser\u00e1 com o filho como a m\u00e3e fora com ela? Cavar\u00e1 um novo abismo de sil\u00eancio ou ter\u00e1 coragem de romper o ciclo? Os la\u00e7os de fam\u00edlia servem para unir ou para aprisionar?<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o s\u00e3o apenas consequ\u00eancias desagrad\u00e1veis que os encontros e desencontros provocam. H\u00e1 tamb\u00e9m a beleza. No sens\u00edvel conto \u201cAmor\u201d, vemos Ana atordoada ap\u00f3s se deparar com um homem cego mascando chicletes. A cena banal a faz passar do ponto em que saltaria do bonde. Voltando a p\u00e9, atravessa o jardim bot\u00e2nico. \u00c9 ali que Ana, ap\u00f3s anos devotados \u00e0 fam\u00edlia, consegue perceber novamente as \u00e1rvores, os p\u00e1ssaros e os riachos.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim tamb\u00e9m ocorre com Laura, em \u201cA imita\u00e7\u00e3o da rosa\u201d, que est\u00e1 prestes a presentear Carlota com flores. Por\u00e9m, sentada diante da mesa, Laura percebe que as flores que ela mesma havia comprado s\u00e3o belas, s\u00e3o suas e \u00e9 ela quem as merece. Al\u00e9m disso, Carlota nem \u00e9 sua amiga propriamente. Laura se encontra diante de uma quest\u00e3o crucial para a mulher de seu tempo: entre afazeres, cuidados da fam\u00edlia, eventos sociais com o marido e tantas outras coisas, quando chegar\u00e1, finalmente, a sua vez?<\/p>\n\n\n\n<p>Os contos de \u201cLa\u00e7os de Fam\u00edlia\u201d, nos oferecem muita coisa para pensar ainda hoje, como h\u00e1 sessenta anos ofereciam aos leitores de ent\u00e3o. A fam\u00edlia como espa\u00e7o sem idealiza\u00e7\u00f5es, lugar tamb\u00e9m de infelicidade. Mulheres sob o jugo do casamento, dos costumes e das normas sociais. Por\u00e9m, sempre a um passo de experimentar a transgress\u00e3o e, ainda que por um instante, sentir a vida lhes correr pelas veias de um modo intenso, real e assustador.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ilustra\u00e7\u00e3o:<\/strong> Vin\u00edcius Figueiredo. <strong>Sugest\u00e3o de leitura:<\/strong> \u201cLa\u00e7os de Fam\u00edlia\u201d (1960), de Clarice Lispector. Publicado pela Ed. Francisco Alves. Dispon\u00edvel em PDF na internet. <strong>Contato:<\/strong> freire. <a href=\"mailto:jose@hotmail.com\">jose@hotmail.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>La\u00e7os de Fam\u00edlia \u00e9 um livro de contos de Clarice Lispector, publicado em 1960 pela editora Francisco Alves. 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