{"id":10711,"date":"2021-06-25T11:20:48","date_gmt":"2021-06-25T14:20:48","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=10711"},"modified":"2021-06-25T11:20:49","modified_gmt":"2021-06-25T14:20:49","slug":"pobreza-menstrual-falta-dinheiro-agua-e-saneamento-sobra-constrangimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=10711","title":{"rendered":"Pobreza menstrual: falta dinheiro, \u00e1gua e saneamento, sobra constrangimento"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/unnamed-4.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-10713\" width=\"371\" height=\"389\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/unnamed-4.jpg 650w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/unnamed-4-286x300.jpg 286w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/unnamed-4-401x420.jpg 401w\" sizes=\"(max-width: 371px) 100vw, 371px\" \/><figcaption><strong><strong>Juliana Lemes da Cruz<\/strong>.<\/strong><br><strong>Doutoranda em Pol\u00edtica Social \u2013 UFF.<\/strong><br><strong>Pesquisadora GEPAF\/UFVJM.<\/strong><br><strong>Coordenadora do Projeto MLV.<\/strong><br><strong>Contato: <a href=\"mailto:julianalemes@id.uff.br\">julianalemes@id.uff.br<\/a><\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Uma s\u00e9rie de quest\u00f5es importantes envolvem o tema da menstrua\u00e7\u00e3o, que, antes de mais nada, ainda \u00e9 um tabu. Chega a ser estranho reconhecer que menstruar faz parte do funcionamento do corpo humano, j\u00e1 que est\u00e1 t\u00e3o associado \u00e0 vergonha, ao nojo e ao constrangimento. A Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) reconheceu no ano de 2014, o direito \u00e0 higiene menstrual como quest\u00e3o de sa\u00fade p\u00fablica e de direitos humanos. Embora seja uma condi\u00e7\u00e3o conferida aos corpos que disp\u00f5em de \u00fatero, n\u00e3o \u00e9 um processo de responsabilidade exclusiva dos corpos menstruantes, mas sim, da sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>Para o desenvolvimento desse novo olhar e a quebra do tabu que envolve a menstrua\u00e7\u00e3o, necess\u00e1rio reconhecer que h\u00e1 pessoas que n\u00e3o t\u00eam acesso aos produtos b\u00e1sicos de higiene menstrual. Muitas, inclusive, se utilizam de peda\u00e7os de pano, papel\u00e3o, papel higi\u00eanico, jornal e at\u00e9 miolo de p\u00e3o para conten\u00e7\u00e3o do fluxo durante o per\u00edodo menstrual. Segundo a ONU, uma a cada dez meninas falta \u00e0 aula por conta da falta de privacidade nos banheiros da escola e\/ou por falta de dinheiro para custear absorventes higi\u00eanicos.<\/p>\n\n\n\n<p>O conceito de pobreza menstrual est\u00e1 diretamente relacionado \u00e0 falta de tr\u00eas elementos: 1) dinheiro; 2) \u00e1gua; e 3) saneamento b\u00e1sico. Por isso, a correla\u00e7\u00e3o das distintas perspectivas de pol\u00edticas p\u00fablicas faz tanto sentido para a qualidade de vida dos corpos que menstruam. O n\u00e3o acesso aos produtos b\u00e1sicos de higiene menstrual, como absorventes descart\u00e1veis \u00e9 um relevante problema para pessoas em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade socioecon\u00f4mica. Em m\u00e9dia, h\u00e1 gasto de R$12 (doze reais) por m\u00eas para a compra de absorventes higi\u00eanicos tradicionais e\/ou absorventes internos. Isso ainda afeta a quest\u00e3o do descarte dos res\u00edduos, que, por vezes, se faz de maneira impr\u00f3pria.<\/p>\n\n\n\n<p>A falta da \u00e1gua, por exemplo, inviabiliza a utiliza\u00e7\u00e3o de op\u00e7\u00f5es sustent\u00e1veis para uso durante o ciclo menstrual, como exemplos: absorventes de pano (com base nas vers\u00f5es utilizadas por mulheres em d\u00e9cadas passadas); os copos coletores de silicone (com durabilidade de at\u00e9 10 anos); e as calcinhas absorventes, que s\u00e3o lav\u00e1veis. Al\u00e9m disso, no per\u00edodo menstrual exige-se mais a higieniza\u00e7\u00e3o do corpo, em raz\u00e3o do fluxo, que pode variar de um m\u00eas para o outro. A falta de saneamento b\u00e1sico impacta diretamente pessoas que menstruam, pois, o per\u00edodo exige controle do fluxo, privacidade para os cuidados b\u00e1sicos e descarte dos res\u00edduos.<\/p>\n\n\n\n<p>O(a) leitor(a) pode estar se perguntando: por que n\u00e3o falar diretamente sobre meninas e mulheres, ao inv\u00e9s de corpos menstruantes? Explico. Quando falamos em menstrua\u00e7\u00e3o nos referimos aos corpos que t\u00eam \u00fatero, e nem sempre, a identidade desses corpos \u00e9 feminina. H\u00e1 pessoas que nascem com um \u00fatero, mas, n\u00e3o necessariamente se identificar\u00e3o, ao longo da vida, como uma menina ou uma mulher. \u00c9 o caso dos homens transexuais que, mesmo modificando alguns aspectos f\u00edsicos, podem permanecer menstruantes.<\/p>\n\n\n\n<p>E o que dizer dos corpos menstruantes em situa\u00e7\u00e3o de rua, c\u00e1rcere, albergados, moradores de \u00e1reas rurais\/remotas e refugiados? J\u00e1 parou para pensar como essas pessoas est\u00e3o lidando com o ciclo menstrual? Pois bem. A pobreza menstrual \u00e9 uma realidade e merece um tratamento diferenciado e espa\u00e7o na agenda pol\u00edtica do pa\u00eds. Em alguns estados do Brasil, a exemplo de Minas Gerais, a oferta de absorventes higi\u00eanicos nas escolas p\u00fablicas, nas unidades b\u00e1sicas de sa\u00fade, nas unidades e abrigos e nas unidades prisionais j\u00e1 faz parte da pauta pol\u00edtica. Por unanimidade (52 votos a 0), o Projeto de Lei n\u00ba 1428\/2020, apresentado pela deputada estadual Leninha, foi aprovado pelo plen\u00e1rio da C\u00e2mara em primeiro turno em 01\/06\/2021.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos distintos ciclos de vida, o per\u00edodo menstrual afeta de maneiras espec\u00edficas quem menstrua. Na adolesc\u00eancia, por exemplo, os corpos menstruantes absorvem e reproduzem ensinamentos do n\u00facleo familiar, comumente, associando a menstrua\u00e7\u00e3o \u00e0 sujeira e \u00e0 vergonha. As meninas t\u00eam a inf\u00e2ncia interrompida se menstruam (tornam-se \u201cmocinhas\u201d), s\u00e3o orientadas a fazerem uso dos absorventes com reservas, para que ningu\u00e9m desconfie que ela est\u00e1 no per\u00edodo menstrual; e a conterem as c\u00f3licas menstruais com uso de medicamentos para as dores abdominais. Sem terem no\u00e7\u00e3o do que replicam, as fam\u00edlias acabam por fomentar uma viol\u00eancia de g\u00eanero normalizada. \u00c9 violento porque atribui a uma condi\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica das pessoas menstruantes, o constrangimento e a culpa por sangrar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 violento porque, no mercado de trabalho, o ciclo menstrual e todas as altera\u00e7\u00f5es hormonais a ele relacionadas n\u00e3o s\u00e3o consideradas. \u00c9 violento porque as mulheres s\u00e3o ensinadas a esconder que est\u00e3o menstruadas; a acreditar que s\u00e3o\/est\u00e3o sujas; e por, nem sempre, encontrarem sanit\u00e1rios adequados para a troca do absorvente\/coletor\/ calcinha. Por vezes, corpos que menstruam, mesmo na emerg\u00eancia, s\u00e3o constrangidos a n\u00e3o acessarem certos espa\u00e7os. O que reafirma o qu\u00e3o violento \u00e9, ser pessoa menstruante em uma sociedade em que a tem\u00e1tica da menstrua\u00e7\u00e3o ainda \u00e9 tabu. (Sugest\u00e3o: Pobreza menstrual \u2013 o filme. Dispon\u00edvel no Youtube).<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/unnamed-3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-10712\" width=\"521\" height=\"652\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/unnamed-3.jpg 700w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/unnamed-3-240x300.jpg 240w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/unnamed-3-696x871.jpg 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/unnamed-3-336x420.jpg 336w\" sizes=\"(max-width: 521px) 100vw, 521px\" \/><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma s\u00e9rie de quest\u00f5es importantes envolvem o tema da menstrua\u00e7\u00e3o, que, antes de mais nada, ainda \u00e9 um tabu. 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