{"id":10918,"date":"2021-07-06T16:48:30","date_gmt":"2021-07-06T19:48:30","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=10918"},"modified":"2021-07-06T16:48:31","modified_gmt":"2021-07-06T19:48:31","slug":"homens-aprendem-a-amar-coisas-mulheres-aprendem-a-amar-homens","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=10918","title":{"rendered":"Homens aprendem a amar coisas, mulheres aprendem a amar homens"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Juliana.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-10920\" width=\"302\" height=\"316\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Juliana.jpg 650w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Juliana-286x300.jpg 286w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Juliana-401x420.jpg 401w\" sizes=\"(max-width: 302px) 100vw, 302px\" \/><figcaption><strong>Juliana Lemes da Cruz<\/strong>.<br>Doutoranda em Pol\u00edtica Social \u2013 UFF.<br>Pesquisadora GEPAF\/UFVJM.<br>Coordenadora do Projeto MLV.<br>Contato: <a href=\"mailto:julianalemes@id.uff.br\">julianalemes@id.uff.br<\/a><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/unnamed.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-10919\" width=\"387\" height=\"387\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/unnamed.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/unnamed-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 387px) 100vw, 387px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Para as mulheres, o amor \u00e9 algo identit\u00e1rio, lugar que se colocam dispostas a abrir m\u00e3o de si mesmas, inclusive, se isso exigir sacrif\u00edcios. Em sociedades como a nossa, onde nascer do sexo feminino ou masculino s\u00e3o precondi\u00e7\u00f5es para as rela\u00e7\u00f5es subjetivas e objetivas que teremos ao longo da vida, os homens apreendem a amar v\u00e1rias coisas e as mulheres, principalmente, apreendem a amar os homens. Am\u00e1-los, por sua vez, pode exigir delas dedica\u00e7\u00e3o e gasto de energia, proporcionais ao que os homens se prop\u00f5em diante de suas profiss\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse modo de construir as rela\u00e7\u00f5es afetivas, baseada na centralidade masculina e na desigualdade entre os g\u00eaneros, est\u00e1 associado \u00e0s rela\u00e7\u00f5es de poder, que impulsionam nas mulheres a depend\u00eancia emocional. Isso se deve, em grande medida, aos est\u00edmulos di\u00e1rios a que todos estamos expostos por meio das eficazes tecnologias de g\u00eanero: revistas, filmes, m\u00fasicas, novelas, dentre outras.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesses espa\u00e7os, as rela\u00e7\u00f5es heterossexuais s\u00e3o tratadas de forma a estabelecer padr\u00f5es est\u00e9ticos e morais, especialmente, \u00e0s mulheres. Nesse contexto, entra em a\u00e7\u00e3o o que a pesquisadora Valeska Zanello chama de \u201cdispositivo amoroso\u201d. Segundo a autora, este elemento envolve o ciclo de vida da mulher e a condiciona a atribuir um valor exacerbado \u00e0 figura masculina ao seu lado, em detrimento da companhia de si pr\u00f3pria. Trata-se de condi\u00e7\u00e3o que for\u00e7a as mulheres a se colocarem como objetos em uma \u201cprateleira do amor\u201d. Nesse espa\u00e7o, a depender dos seus atributos est\u00e9ticos e morais, elas s\u00e3o \u201cescolhidas\u201d dentre as demais. Os piores lugares dessa prateleira s\u00e3o das mulheres negras, velhas e gordas.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir do s\u00e9culo XX, com a expans\u00e3o do capitalismo e do individualismo, tornar-se bonita transformou-se em um dever \u00e9tico para o p\u00fablico feminino. Quanto mais insatisfeita com sua imagem f\u00edsica, mais a mulher consome. Portanto, a venda do ideal de beleza tem sido impulsionada pelo mercado que, ciente das vulnerabilidades das mulheres, as exploram de forma continuada. Na busca de ser escolhida na prateleira do amor, as mulheres permitem rivalizar umas com as outras. Nesse cen\u00e1rio de disputa, os homens, eleitos como avaliadores da est\u00e9tica e da moral das mulheres, s\u00e3o os \u00fanicos a aferir lucro com essa din\u00e2mica. E mais, nas situa\u00e7\u00f5es de julgamento, n\u00e3o importa o qu\u00e3o desprovido de beleza o sujeito seja. Como diz a autora Valeska, ele pode ser um \u201cperebado\u201d, que ainda assim, \u00e9 legitimado para avaliar uma mulher e se sente no direito de faz\u00ea-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>O bot\u00e3o de vulnerabilidade da mulher \u00e9 ser escolhida. Por isso, sem esfor\u00e7o, um homem \u201cperebado\u201d que se mostra gentil e rom\u00e2ntico, facilmente, vira pr\u00edncipe. Mais uma vez, percebe-se o funcionamento do dispositivo amoroso como gerador de expectativa nas mulheres, que far\u00e3o loucuras para manter relacionamentos adoecidos porque foram ensinadas que t\u00eam o poder de transformar ogros em pr\u00edncipes pela via do amor.<\/p>\n\n\n\n<p>Abrir m\u00e3o de si para se dedicar ao bem-estar do outro, ao contr\u00e1rio do que ensinaram \u00e0s mulheres, n\u00e3o \u00e9 uma habilidade ou pr\u00f3prio da natureza feminina, \u00e9 sim, algo que foi ensinado desde a inf\u00e2ncia, um mecanismo de controle comportamental das mulheres, que nem elas se d\u00e3o conta. As formas de atua\u00e7\u00e3o do dispositivo amoroso na vida das mulheres projetam o sil\u00eancio como f\u00f3rmula da paz e da preserva\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es. Conforme sinalizou a pesquisadora Valeska, \u00e9 necess\u00e1rio compreendermos esta din\u00e2mica, falarmos sobre ela, para que outras formas de ser mulher e vivenciar os afetos sejam constru\u00eddas e ensinadas. Obra de refer\u00eancia: Sa\u00fade mental, g\u00eanero e dispositivos: cultura e processos de subjetiva\u00e7\u00e3o |Valeska Zanello, 2018.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para as mulheres, o amor \u00e9 algo identit\u00e1rio, lugar que se colocam dispostas a abrir m\u00e3o de si mesmas, inclusive, se isso exigir sacrif\u00edcios. 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