{"id":11203,"date":"2021-07-23T18:11:55","date_gmt":"2021-07-23T21:11:55","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=11203"},"modified":"2021-07-27T23:02:45","modified_gmt":"2021-07-28T02:02:45","slug":"e-o-homem-se-fez","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=11203","title":{"rendered":"E o homem se fez"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Jose-Carlos.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-11204\" width=\"354\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Jose-Carlos.jpg 700w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Jose-Carlos-300x221.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Jose-Carlos-80x60.jpg 80w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Jose-Carlos-696x512.jpg 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Jose-Carlos-571x420.jpg 571w\" sizes=\"(max-width: 354px) 100vw, 354px\" \/><figcaption><strong><em>Jos\u00e9 Carlos Freire<\/em><br>Professor da UFVJM,<br>Campus de Te\u00f3filo Otoni\/MG<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>\u201cA ma\u00e7\u00e3 no escuro\u201d \u00e9 o quarto romance de Clarice Lispector, escrito na d\u00e9cada de 1950, mas publicado apenas em 1961. \u00c9 o mais longo da autora e se diferencia dos demais tamb\u00e9m por apresentar personagens com hist\u00f3rias variadas e complexas. A narrativa acompanha o protagonista Martim em fuga ap\u00f3s ter cometido um crime. Escondido inicialmente em um hotel de \u00e1rea afastada, decide se embrenhar por campos sem fim com medo de ser pego. Termina por encontrar um s\u00edtio onde vivem a propriet\u00e1ria Vit\u00f3ria, sua prima Ermelinda e dois empregados. Ali trabalha em troca de comida e abrigo, sem reclamar. Crime, fuga, mentiras, suspense. Essa trama, que muito recorda os romances policiais, \u00e9 transformada por Clarice Lispector em profunda obra filos\u00f3fica pelo seu costumeiro trabalho de mergulho nos personagens.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/E-o-homem-se-fez-Ilustracao-1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-11206\" width=\"509\" height=\"384\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/E-o-homem-se-fez-Ilustracao-1.png 700w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/E-o-homem-se-fez-Ilustracao-1-300x226.png 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/E-o-homem-se-fez-Ilustracao-1-80x60.png 80w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/E-o-homem-se-fez-Ilustracao-1-696x525.png 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/E-o-homem-se-fez-Ilustracao-1-557x420.png 557w\" sizes=\"(max-width: 509px) 100vw, 509px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Martim s\u00f3 quer seguir a rotina, obedecendo \u00e0s ordens de Vit\u00f3ria, como se precisasse cumprir uma purifica\u00e7\u00e3o, anulando-se para encontrar a reden\u00e7\u00e3o. Ocorre que ningu\u00e9m controla os rumos de sua pr\u00f3pria exist\u00eancia, afinal, como diz a narradora: \u201co que tem que ser, tem muita for\u00e7a\u201d. \u00c9 o que acontece, por exemplo, com Ermelinda quando nota o seu amor por Martim: \u201cE somente ent\u00e3o percebeu que agora era tarde demais, que s\u00f3 poderia am\u00e1-lo. Dolorosamente, altivamente, perdera para sempre a possibilidade de resolver. (&#8230;) Um segundo antes ainda poderia n\u00e3o am\u00e1-lo. Mas agora, suavemente, vaidosamente: nunca mais\u201d. O imponder\u00e1vel se mostra com toda for\u00e7a; a previsibilidade se evapora. N\u00e3o \u00e9 assim com todos n\u00f3s?<\/p>\n\n\n\n<p>Volto ao protagonista. Embora quisesse apenas a calma de n\u00e3o pensar, cumprindo o of\u00edcio, Martim n\u00e3o se d\u00e1 conta de que, desde o in\u00edcio de sua fuga, h\u00e1 um processo que se desenrola sem o seu controle. Como se ele viesse do barro e aos poucos fosse ganhando vida, lentamente. Ainda no hotel, Martim percebera \u201co sil\u00eancio e dentro do sil\u00eancio sua pr\u00f3pria presen\u00e7a\u201d. J\u00e1 na fuga para o campo, em plena solid\u00e3o, ele se descobrir\u00e1 pensando. A linguagem ser\u00e1 o pr\u00f3ximo passo: fala com as pedras, como se iniciasse um mundo do qual seria o criador. Um mundo novo que ele ainda n\u00e3o sabia. Ser\u00e1 assim tamb\u00e9m no s\u00edtio. Martim n\u00e3o tem como evitar que no seu entorno as coisas ocorram. As pessoas interferem, tudo interfere. Ele muda, como se \u201cestivesse enfim aprendendo que a noite desce e que o dia renasce e que depois a noite vem\u201d. A natureza parecia lhe dizer: \u201cCres\u00e7a!\u201d. E ele obedecia.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas e o crime de Martim? O leitor e a leitora t\u00eam plena raz\u00e3o ao perguntar. Afinal, n\u00e3o era disso que se tratava a hist\u00f3ria? Sim, mas \u00e9 preciso recordar que nos textos de Clarice os fatos s\u00e3o janelas pelas quais os personagens percebem outras coisas e n\u00f3s leitores somos os expectadores privilegiados. O crime de Martim ser\u00e1 revelado no tempo certo, fechando o arco narrativo do protagonista. Mas ao longo das p\u00e1ginas vamos nos desapegando dessa curiosidade acerca do que se deu. Deixamos de focar a figura de Martim como criminoso, embora o seja confessadamente, e passamos a acompanhar seu caminho de autodescoberta. Martim \u00e9 um de n\u00f3s. Em certo momento, n\u00e3o por acaso no alto de uma encosta com vista ampla, ele emergir\u00e1 como homem: \u201cNuma sensa\u00e7\u00e3o agonizante, ele se sentiu uma pessoa\u201d e, ent\u00e3o, \u201cpela primeira vez estava presente no momento em que acontece o que acontece\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O que se segue \u00e9 a \u00e2nsia de reconstru\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio mundo. Vontade de viver, poder\u00edamos dizer. Mas ele j\u00e1 n\u00e3o vivia? Sim! Mas, antes do crime \u2013 o evento epif\u00e2nico \u2013 n\u00e3o percebia a pr\u00f3pria vida e essa era a grande descoberta que agora lhe dava uma alegria inquieta, uma pressa de terminar o ato da cria\u00e7\u00e3o de si. Como se, sendo Deus a criar o mundo, estivesse apenas no terceiro dia. Havia muito ainda que se fazer. Era essa sua miss\u00e3o heroica.<\/p>\n\n\n\n<p>Estamos aqui ainda na segunda parte do romance. Mas me parece suficiente para que o leitor e a leitora se animem a percorrer suas quase quatrocentas p\u00e1ginas \u2013 valer\u00e1 a pena. A terceira parte tem exatamente o t\u00edtulo do livro. A prop\u00f3sito, a simbologia b\u00edblica n\u00e3o \u00e9 acidental. Elementos como a \u201cma\u00e7\u00e3\u201d, \u201cescuro\/ luz\u201d, \u201cjardim\u201d e tantos outros est\u00e3o amarrados naquilo que Benjamin Moser, bi\u00f3grafo de Clarice Lispector, chamou de alegoria da cria\u00e7\u00e3o. A ma\u00e7\u00e3 no escuro apresenta, de maneira invertida, o ato da cria\u00e7\u00e3o: n\u00e3o o de Deus que cria o homem, mas o do homem que cria o mundo e a si mesmo. Em sua rebeli\u00e3o, n\u00e3o aceita mais ser criatura: quer se fazer. Martim era um homem antes do crime, mas propriamente se far\u00e1 autoconsciente de si depois de longo e penoso processo.<\/p>\n\n\n\n<p>O caminho de Martim \u00e9 similar ao de cada um e cada uma de n\u00f3s. Um grande evento na vida, um grande erro, formas diversas de crimes que cometemos contra n\u00f3s e contra outras pessoas, tantos momentos que podemos entrever em nossa trajet\u00f3ria a partir dos quais redimensionamos tudo \u2013 ou, pelo menos, poder\u00edamos ter redimensionado. F\u00e1cil? De forma alguma. Ao contr\u00e1rio, dif\u00edcil e doloroso: \u201cUm homem no escuro era um criador (&#8230;). Respirou devagar e com cuidado: crescer d\u00f3i. Respirou muito devagar e com cuidado. Tornar-se d\u00f3i\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas talvez o leitor e a leitora considerem que n\u00e3o haja grandes eventos nas suas biografias que pudessem provocar uma tal busca de si mesmos. Eu lhes pergunto: Que evento \u00e9 maior do que a vida mesma? Que coisa absurdamente fascinante \u00e9 essa de acordarmos pela manh\u00e3 com um dia inteiro para viver? Nova chance, nova oportunidade a nos empurrar para al\u00e9m da superf\u00edcie da exist\u00eancia. Portanto, \u00e9 sempre tempo de nos criarmos. Temos coragem? Oxal\u00e1!<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ilustra\u00e7\u00e3o:<\/strong> Vin\u00edcius Figueiredo. <strong>Sugest\u00e3o de leitura:<\/strong> \u201cA ma\u00e7\u00e3 no escuro\u201d (1961), de Clarice Lispector. Publicado pela Ed. Francisco Alves. Dispon\u00edvel em PDF na internet. <strong>Contato:<\/strong> <a href=\"mailto:freire.jose@hotmail.com\">freire.jose@hotmail.com<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cA ma\u00e7\u00e3 no escuro\u201d \u00e9 o quarto romance de Clarice Lispector, escrito na d\u00e9cada de 1950, mas publicado apenas em 1961. \u00c9 o mais longo da autora e se diferencia dos demais tamb\u00e9m por apresentar personagens com hist\u00f3rias variadas e complexas. A narrativa acompanha o protagonista Martim em fuga ap\u00f3s ter cometido um crime. 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