{"id":11296,"date":"2021-07-30T15:27:17","date_gmt":"2021-07-30T18:27:17","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=11296"},"modified":"2021-08-06T09:59:56","modified_gmt":"2021-08-06T12:59:56","slug":"uso-do-tempo-e-a-divisao-sexual-do-trabalho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=11296","title":{"rendered":"Uso do tempo e a divis\u00e3o sexual do trabalho"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Juliana-3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-11298\" width=\"335\" height=\"351\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Juliana-3.jpg 650w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Juliana-3-286x300.jpg 286w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Juliana-3-401x420.jpg 401w\" sizes=\"(max-width: 335px) 100vw, 335px\" \/><figcaption><strong>Juliana Lemes da Cruz<\/strong>.<br><strong>Doutoranda em Pol\u00edtica Social \u2013 UFF.<br>Pesquisadora GEPAF\/UFVJM.<br>Coordenadora do Projeto MLV.<br>Contato: <a href=\"mailto:julianalemes@id.uff.br\">julianalemes@id.uff.br<\/a><\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/unnamed.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-11297\" width=\"567\" height=\"258\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/unnamed.png 600w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/unnamed-300x137.png 300w\" sizes=\"(max-width: 567px) 100vw, 567px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>O tempo, que j\u00e1 foi do trabalho regulado pelo sol, hoje se submete a uma m\u00e1quina \u2013 o rel\u00f3gio. Segundo a pesquisadora da Universidade de Bras\u00edlia, dra. Lourdes Bandeira (2010), sob controle, este \u201crel\u00f3gio\u201d associa-se aos tempos social, pol\u00edtico e virtual, apresentando din\u00e2micas diferentes a depender dos contextos. O tempo no campo parece passar lentamente, ao passo que nos centros urbanos, a percep\u00e7\u00e3o \u00e9 contr\u00e1ria. \u201cHomens e mulheres que habitam em zonas rurais ou nas periferias das cidades desfrutam de menor potencial de lazer e tendem a gastar mais tempo em atividades dom\u00e9sticas ou, no m\u00e1ximo, limitadas aos contornos das comunidades onde residem: visitar vizinhos, circular pela comunidade, assistir televis\u00e3o, escutar r\u00e1dio, dormir, s\u00e3o atividades que ocupam um tempo significativo em suas vidas\u201d. Por outro lado, \u201cEntre homens e mulheres dos segmentos sociais que disp\u00f5em de maiores recursos culturais e econ\u00f4micos e que habitam nas grandes metr\u00f3poles, observa-se o ac\u00famulo de atividades laborais que acarreta uma s\u00e9rie de outras atividades interligadas, as quais intensificam a jornada de trabalho e, paradoxalmente, reduzem o tempo cotidiano\u201d (BANDEIRA, 2010, p.47).<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, h\u00e1 diferen\u00e7as quanto ao uso do tempo por classes sociais diferentes: a) os segmentos socioecon\u00f4micos mais favorecidos se dedicam \u00e0s atividades do mundo exterior, do p\u00fablico; b) os menos favorecidos vivem o cotidiano voltado para a fam\u00edlia e \u00e0 comunidade. Disparidade que se estende ao uso do tempo por homens e por mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, a primeira pesquisa sobre uso do tempo datou de 1992, sendo remodelada a partir de 2001, no \u00e2mbito da Pesquisa Nacional por Amostras de Munic\u00edpios (PNAD), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE). Com a redemocratiza\u00e7\u00e3o, entrou em cena com expressivo vigor os movimentos feministas e de mulheres trazendo pautas decisivas. Elas exigiam do Estado o reconhecimento do trabalho dom\u00e9stico e das atividades dos cuidados das mulheres como elemento de valor econ\u00f4mico incorpor\u00e1vel \u00e0 \u201cagenda cont\u00e1bil p\u00fablica\u201d (BANDEIRA, 2010, p.58). Antes disso, a orienta\u00e7\u00e3o governamental pautava-se na no\u00e7\u00e3o de que as mulheres teriam o \u201cdom natural\u201d para os cuidados e assumiriam, no bojo das fam\u00edlias, a atribui\u00e7\u00e3o dos cuidados e da reprodu\u00e7\u00e3o social (FONTOURA et al, 2010).<\/p>\n\n\n\n<p>O desenvolvimento de pesquisas dessa natureza, por sua vez, tomou impulso por meio da Secretaria de Pol\u00edticas para Mulheres, criada em 2003 e vinculada ao Governo Federal. O intuito seria criar indicadores que permitissem an\u00e1lises sobre o trabalho reprodutivo e a economia dos cuidados, capazes de subsidiar a implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas que fomentassem a supera\u00e7\u00e3o das assimetrias entre g\u00eaneros, expressa na realidade diferenciada de usos do tempo por homens e mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dados publicados em 2017 sobre a Pnad Cont\u00ednua deram conta que os afazeres dom\u00e9sticos e as atividades associadas aos cuidados com pessoas dentro e fora do domic\u00edlio s\u00e3o, majoritariamente, desenvolvidas por mulheres desde o ano de 2001. A \u00fanica atividade que os homens desempenham mais, s\u00e3o os pequenos reparos em equipamentos eletrodom\u00e9sticos e manuten\u00e7\u00e3o do domic\u00edlio e do autom\u00f3vel. A propor\u00e7\u00e3o de mulheres que desempenham trabalhos dom\u00e9sticos chegou aos 94% e entre homens, 79% (BARBOSA, 2018).<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, estudiosos questionam porque o tempo gasto pelas mulheres nas atividades dom\u00e9sticas ainda n\u00e3o s\u00e3o consideradas como trabalho essencial \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o social, embora n\u00e3o remunerado e desvalorizado socialmente. Conforme defendem, Melo, Considera e Sabbato (2016), n\u00e3o h\u00e1 nada que, tecnicamente, impe\u00e7a tal valora\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, as pesquisas sobre o uso do tempo s\u00e3o instrumentos importantes que demandam tratamento urgente por parte do Estado (FONTOURA et al, 2010).<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo com as mudan\u00e7as das rela\u00e7\u00f5es sociais de sexo impulsionadas pelos movimentos de mulheres, feministas e intelectuais, a \u201cobriga\u00e7\u00e3o\u201d pela execu\u00e7\u00e3o do trabalho dom\u00e9stico continuou sendo das mulheres (HIRATA e KERGOAT, 2007). Ao contr\u00e1rio do que se possa imaginar, as mulheres que t\u00eam consci\u00eancia do qu\u00e3o opressor e desigual \u00e9 esta rela\u00e7\u00e3o que atribui \u00e0s mulheres o trabalho dom\u00e9stico, continuam a conciliar ou delegar a outras mulheres o que a sociedade lhes cobra: a subordina\u00e7\u00e3o \u00e0s tarefas dom\u00e9sticas e de cuidados.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancias:<\/strong> BANDEIRA, L. M. Import\u00e2ncia e motiva\u00e7\u00f5es do Estado Brasileiro para pesquisas de uso do tempo no campo de g\u00eanero, 2010; BARBOSA, A.L.N.H. Tend\u00eancias nas horas dedicadas ao trabalho e lazer: uma an\u00e1lise da aloca\u00e7\u00e3o do tempo no Brasil. Ipea, 2018; FONTOURA, N. et al. Pesquisas de uso do tempo no Brasil: contribui\u00e7\u00f5es para a formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas de concilia\u00e7\u00e3o entre trabalho, fam\u00edlia e vida pessoal, 2010; HIRATA, H.; KERGOAT, D. Novas configura\u00e7\u00f5es da divis\u00e3o sexual do trabalho, 2007; MELO, H.P.; CONSIDERA C.M.; SABBATO, A.D. Dez anos de mensura\u00e7\u00e3o dos afazeres dom\u00e9sticos no Brasil, 2016.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O tempo, que j\u00e1 foi do trabalho regulado pelo sol, hoje se submete a uma m\u00e1quina \u2013 o rel\u00f3gio. Segundo a pesquisadora da Universidade de Bras\u00edlia, dra. Lourdes Bandeira (2010), sob controle, este \u201crel\u00f3gio\u201d associa-se aos tempos social, pol\u00edtico e virtual, apresentando din\u00e2micas diferentes a depender dos contextos. 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