{"id":12236,"date":"2021-10-01T12:31:20","date_gmt":"2021-10-01T15:31:20","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=12236"},"modified":"2021-10-01T12:32:31","modified_gmt":"2021-10-01T15:32:31","slug":"o-coracao-selvagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=12236","title":{"rendered":"O cora\u00e7\u00e3o selvagem"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Jose-Carlos-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-12237\" width=\"431\" height=\"317\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Jose-Carlos-1.jpg 700w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Jose-Carlos-1-300x221.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Jose-Carlos-1-80x60.jpg 80w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Jose-Carlos-1-696x512.jpg 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Jose-Carlos-1-571x420.jpg 571w\" sizes=\"(max-width: 431px) 100vw, 431px\" \/><figcaption><strong><em>Jos\u00e9 Carlos Freire<\/em><br>Professor da UFVJM,<br>Campus de Te\u00f3filo Otoni\/MG<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>\u201cLiberdade \u00e9 pouco. O que desejo ainda n\u00e3o tem nome\u201d. Eis uma das elabora\u00e7\u00f5es de Joana em seus incont\u00e1veis fluxos de consci\u00eancia presentes em Perto do Cora\u00e7\u00e3o Selvagem, o primeiro romance de Clarice Lispector, publicado em 1943, quando a autora tinha apenas vinte e tr\u00eas anos. A proximidade entre narradora e personagem \u00e9 t\u00e3o grande \u2013 algo inovador na literatura brasileira produzida at\u00e9 ent\u00e3o, como notou em primeira hora Ant\u00f4nio C\u00e2ndido \u2013 que n\u00e3o s\u00e3o poucos os momentos nos quais sequer percebemos a passagem de uma \u00e0 outra.<\/p>\n\n\n\n<p>E isso n\u00e3o \u00e9 pouca coisa. Esse \u201cromance de aproxima\u00e7\u00e3o\u201d, como nomeou o referido cr\u00edtico, arranca-nos de tal forma de uma leitura superficial que, como marinheiros arremessados ao mar pelo peso da \u00e2ncora, n\u00e3o nos resta outra coisa a n\u00e3o ser acompanhar a hist\u00f3ria com outra chave: a da profundidade.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/imagem-O-coracao-selvagem-1.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-12238\" width=\"500\" height=\"372\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/imagem-O-coracao-selvagem-1.jpeg 600w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/imagem-O-coracao-selvagem-1-300x223.jpeg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/imagem-O-coracao-selvagem-1-80x60.jpeg 80w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/imagem-O-coracao-selvagem-1-265x198.jpeg 265w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/imagem-O-coracao-selvagem-1-565x420.jpeg 565w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>J\u00e1 nas primeiras p\u00e1ginas nos deparamos com Joana crian\u00e7a, na presen\u00e7a do pai. Se a inquietude e a curiosidade da menina nos parecem extraordin\u00e1rias e incomuns, por um lado, de outro nos recordam que tamb\u00e9m \u00e9ramos assim quando crian\u00e7as. Eis a\u00ed uma proeza dessa jovem autora de ent\u00e3o que, ao longo da carreira, n\u00e3o far\u00e1 outra coisa sen\u00e3o aperfei\u00e7oar tal m\u00e9todo: seus personagens nos parecem, simultaneamente, estranhos e \u00edntimos; diferentes de n\u00f3s e nossos iguais.<\/p>\n\n\n\n<p>O efeito \u00e9 inevit\u00e1vel: acompanharemos os passos de Joana com a inc\u00f4moda sensa\u00e7\u00e3o de que o romance nos faz tamb\u00e9m buscar alguma coisa, algo da ordem do n\u00e3o nomeado, do mist\u00e9rio. Ali\u00e1s, para Joana, \u201co mist\u00e9rio explica mais que a claridade\u201d. Nesse sentido, a imponente figura do mar e a praia como lugar da ritual\u00edstica de mergulho no mist\u00e9rio, tornam-se elementos valiosos no romance. Antecipando a simbologia da \u00e1gua que estar\u00e1 presente at\u00e9 seus \u00faltimos escritos, Clarice nos sugere o exerc\u00edcio de investiga\u00e7\u00e3o interior, algo que explorar\u00e1 em diversos contos e, de modo contundente, em romances como A paix\u00e3o segundo G.H, A ma\u00e7\u00e3 no escuro e \u00c1gua viva.<\/p>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m desse aspecto filos\u00f3fico grandioso da narrativa \u2013 a busca de si \u2013 ainda sobram elementos no romance que o tornam especial. Em termos formais temos a proposta de altern\u00e2ncia entre passado e presente, o que n\u00e3o apenas quebra a linearidade da narrativa, mas tamb\u00e9m nos indica a simultaneidade dos tempos: \u201ceu tenho agora a minha inf\u00e2ncia mais do que enquanto ela decorria\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto ao conte\u00fado, surgem temas que para n\u00f3s podem soar comuns, mas que n\u00e3o o eram na long\u00ednqua d\u00e9cada de 1940. Em especial, a reflex\u00e3o sobre o papel tradicional da mulher, tendo como pano de fundo o casamento como institui\u00e7\u00e3o. Joana n\u00e3o se enquadra em nenhum dos dois e n\u00e3o tem medo de se perguntar: \u201cComo ligar-se a um homem sen\u00e3o permitindo que ele a aprisione? Como impedir que ele desenvolva sobre seu corpo e sua alma suas quatro paredes?\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda que n\u00e3o tenhamos uma elabora\u00e7\u00e3o te\u00f3rica expl\u00edcita sobre o que hoje entendemos como quest\u00f5es de g\u00eanero, o que n\u00e3o s\u00f3 seria anacr\u00f4nico, mas possivelmente retiraria a for\u00e7a est\u00e9tica da narrativa, \u00e9 not\u00e1vel que Clarice exponha com um vigor impressionante e sem fantasias aspectos como o abismo entre adultos e crian\u00e7as, os dramas da adolesc\u00eancia, o desejo feminino, a fragilidade masculina, a maternidade, a solid\u00e3o, a infelicidade que tantas vezes acompanha uma rela\u00e7\u00e3o amorosa etc.<\/p>\n\n\n\n<p>Dizia acima da n\u00e3o linearidade do romance. Parece-me que, em raz\u00e3o disso, interessa menos nele o transcurso dos fatos e mais o modo como Joana os vai percebendo e interpretando, por vezes sem compreend\u00ea-los totalmente. E pergunto ao leitor e \u00e0 leitora: n\u00e3o \u00e9 assim tamb\u00e9m conosco? N\u00e3o h\u00e1 como que uma avalanche de eventos que vai nos engolindo e, por pouco, n\u00e3o nos sufoca? Eis, para mim, um dos dois elementos mais caros do romance: a desconstru\u00e7\u00e3o da ideia de uma biografia regular e previs\u00edvel. A vida \u00e9 mais mist\u00e9rio que claridade&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>O segundo elemento \u00e9 o que subjaz ao t\u00edtulo. Em Joana, tal como em n\u00f3s, h\u00e1 uma for\u00e7a interna que clama por vir \u00e0 tona, uma dimens\u00e3o \u201cselvagem\u201d que n\u00e3o combina ou pelo menos se choca com o cotidiano comum das conven\u00e7\u00f5es sociais, com a regularidade das institui\u00e7\u00f5es. H\u00e1 quem passe pela vida deixando esse animal enjaulado, por medo do que pode ocorrer caso ele se solte: \u201cSim, ela sentia dentro de si um animal perfeito. Repugnava-lhe deixar um dia esse animal solto\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, h\u00e1 tamb\u00e9m quem siga adiante e enfrente esse medo tal como a protagonista: \u201c&#8230;um dia vir\u00e1 em que todo meu movimento ser\u00e1 cria\u00e7\u00e3o, nascimento, eu romperei todos os n\u00e3os que existem dentro de mim, (&#8230;) eu serei forte como a alma de um animal\u201d. Esta \u00e9 Joana. Ela quer mais da vida do que as demais pessoas comumente querem; ela \u00e9 complexa, contradit\u00f3ria, n\u00e3o tem medo de sentir o que sente, de dizer o que pensa.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isso nos sugere, por meio da leitura, uma esp\u00e9cie de encontro \u2013 ou reencontro \u2013 com a humanidade de cada um e cada uma de n\u00f3s que \u00e9 tamb\u00e9m amb\u00edgua, fragmentada e incompleta. Assumir-se desse modo \u00e9 sair do lugar comum, \u00e9 aproximar do cora\u00e7\u00e3o selvagem da vida. Arriscado? Assustador? Certamente. Por\u00e9m, talvez a \u00fanica maneira de se ter uma viv\u00eancia minimamente autoral e emancipada. A prop\u00f3sito, \u201cCora\u00e7\u00e3o selvagem\u201d \u00e9 o t\u00edtulo de uma bel\u00edssima can\u00e7\u00e3o de Belchior, o compositor brasileiro que fazia como poucos a ponte de via dupla entre m\u00fasica e literatura. A certa altura da can\u00e7\u00e3o, em plena sintonia com o livro de Clarice Lispector, diz o compositor: \u201cE o meu cora\u00e7\u00e3o selvagem tem essa pressa de viver\u201d. Haver\u00e1 algo mais urgente que isso?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ilustra\u00e7\u00e3o:<\/strong> Vin\u00edcius Figueiredo. <strong>Sugest\u00e3o de leitura:<\/strong> \u201cPerto do cora\u00e7\u00e3o selvagem\u201d (1943), de Clarice Lispector. Publicado pela Ed. Noite. Dispon\u00edvel em PDF na internet. <strong>Contato:<\/strong><a href=\"mailto:freire.jose@hotmail.com\"> <\/a><a href=\"mailto:freire.jose@hotmail.com\">freire.jose@hotmail.com<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cLiberdade \u00e9 pouco. O que desejo ainda n\u00e3o tem nome\u201d. Eis uma das elabora\u00e7\u00f5es de Joana em seus incont\u00e1veis fluxos de consci\u00eancia presentes em Perto do Cora\u00e7\u00e3o Selvagem, o primeiro romance de Clarice Lispector, publicado em 1943, quando a autora tinha apenas vinte e tr\u00eas anos. 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