{"id":12859,"date":"2021-11-03T23:46:38","date_gmt":"2021-11-04T02:46:38","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=12859"},"modified":"2021-11-03T23:52:01","modified_gmt":"2021-11-04T02:52:01","slug":"tempos-de-escola","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=12859","title":{"rendered":"Tempos de escola"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Jose-Carlos.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-12860\" width=\"344\" height=\"252\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Jose-Carlos.jpg 700w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Jose-Carlos-300x221.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Jose-Carlos-80x60.jpg 80w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Jose-Carlos-696x512.jpg 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Jose-Carlos-571x420.jpg 571w\" sizes=\"(max-width: 344px) 100vw, 344px\" \/><figcaption><strong><em>Jos\u00e9 Carlos Freire<\/em><br>Professor da UFVJM,<br>Campus de Te\u00f3filo Otoni\/MG<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>No \u00faltimo texto fechei o ciclo de quase um ano sobre os escritos de Clarice Lispector. Espero que n\u00e3o s\u00f3 para mim, mas tamb\u00e9m para voc\u00ea que me acompanha por aqui tenha servido como aux\u00edlio para suportar tempos t\u00e3o dif\u00edceis. Retomo agora as cr\u00f4nicas de tema livre e o fa\u00e7o a partir de um sonho que tive nesta madrugada.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Tempos-de-escola-ILUSTRACAO.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-12861\" width=\"484\" height=\"403\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Tempos-de-escola-ILUSTRACAO.jpg 713w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Tempos-de-escola-ILUSTRACAO-300x250.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Tempos-de-escola-ILUSTRACAO-696x579.jpg 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Tempos-de-escola-ILUSTRACAO-505x420.jpg 505w\" sizes=\"(max-width: 484px) 100vw, 484px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Estava em frente \u00e0 escola onde estudei. Atravessei o corredor que ligava o port\u00e3o da rua e o outro que dava para o p\u00e1tio interno. L\u00e1 estava um grupo de pessoas, certamente encarregadas da limpeza e manuten\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o em raz\u00e3o das f\u00e9rias, como supus. Pedi para ir \u00e0 biblioteca e uma delas me abriu uma sala abafada e vazia, com as janelas todas fechadas. Deixou-me s\u00f3 por um instante e em seguida voltou, dizendo que abriria a outra porta. Ao pass\u00e1-la, surpreendi-me ao ver que dava para o dito corredor de sa\u00edda para a rua. Fim do sonho.<\/p>\n\n\n\n<p>Nessas manh\u00e3s de outubro o sol costuma dar as caras bem cedo. Despertando do sonho, vi que eram pouco mais de cinco horas. Mas n\u00e3o queria acordar totalmente, porque algo me tocara naquela cena. Por que a sala estava vazia? Onde estavam as estantes de livros? Seria isso um sinal dos tempos de escola fechada que vivemos por tantos meses? Ou algo ainda mais forte: o indicativo de que, hoje, a cultura \u2013 da qual a biblioteca \u00e9 um s\u00edmbolo \u2013 perdeu sua import\u00e2ncia?<\/p>\n\n\n\n<p>Gostei dessas duas refer\u00eancias, sobretudo a \u00faltima. Afinal, em um pa\u00eds no qual sucessivos ministros da educa\u00e7\u00e3o se colocam a favor da burrice generalizada, a ideia de uma biblioteca vazia \u00e9 bem instigante. Daria, ali\u00e1s, um curta metragem de primeira! Encerraria com um corte, passando da imagem da sala vazia para a da rua onde livros de literatura e ci\u00eancia formariam uma grande fogueira, cercada de ministros de Estado e do presidente com f\u00f3sforo na m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas estou devaneando. Isso tudo \u00e9 interpreta\u00e7\u00e3o racional que agora fa\u00e7o. O que quero partilhar \u00e9 algo mais genu\u00edno e simples. Volto \u00e0quele momento em que olhei o rel\u00f3gio e relutei em acordar definitivamente. A partir da\u00ed, foi cerca de uma hora de estado intermedi\u00e1rio entre o dormir e o acordar. Ent\u00e3o, viajei ao passado.<\/p>\n\n\n\n<p>Naquela escola estudei da quinta s\u00e9rie, como se denominava na \u00e9poca, ao primeiro ano do ensino m\u00e9dio. Cinco anos que cobriram a maior parte da minha adolesc\u00eancia. Coisas boas e as outras. Revisitei as figuras que me amedrontavam, os caras mais velhos que se mostravam experientes, que contavam vantagem e me deixavam frustrado por n\u00e3o ser como eles. Refiz tamb\u00e9m cenas bonitas como a fila da merenda e a delicadeza de colegas que se mostravam simp\u00e1ticos, com certo compadecimento pela minha timidez. Relembrei rostos de amigos queridos, alguns de semestres, outros de longos anos com os quais dividi tarefas, brinquei no intervalo e at\u00e9 visitei a casa em momentos sem aula que ca\u00edam de presente de vez em quando.<\/p>\n\n\n\n<p>A escola era para mim um portal encantado. O pequeno grupo escolar na ro\u00e7a j\u00e1 havia sido um passo importante, mas n\u00e3o se diferenciava do meu modo de vida. Terminada a quarta s\u00e9rie, eu queria ir para cidade, ainda que fosse aquela, pequena e buc\u00f3lica. Nem os sete quil\u00f4metros que separavam nossa casa na ro\u00e7a da cidadezinha me desanimavam. Eu n\u00e3o li Dom Quixote naquela \u00e9poca; minhas descobertas liter\u00e1rias ficaram restritas \u00e0 Cole\u00e7\u00e3o Vaga Lume \u2013 e eu me extasiava. Ent\u00e3o n\u00e3o vou dizer que minha bicicleta era Rocinante e eu, Dom Quixote a desbravar aventuras. At\u00e9 poderia. Na verdade, eu era Xisto em seu foguete espacial.<\/p>\n\n\n\n<p>Fosse em um document\u00e1rio, agora seria um bom momento para uma \u201cvoz over\u201d entrar e dizer: \u201cAli nascia o sonho de conhecimento e desejo de sucesso de um pr\u00e9-adolescente\u201d. Mentira! Era nada disso. S\u00f3 queria conhecer o mundo, ampliar meu horizonte. Falando sinceramente, n\u00e3o sabia nem o que queria. Mas era bom. O vento batendo no rosto enquanto pedalava; a expectativa de como seria a aula de logo mais; a mistura de medo-desejo de ler um texto na aula de portugu\u00eas. E se aquela colega me pedisse de novo a borracha, \u00e9 porque gostava de mim?<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse enlevo amanheci, rememorando meus tempos de \u201cFundamental II\u201d, como hoje chamamos. Na mesa do caf\u00e9, deparo-me com J\u00falia e Lucas empolgados porque j\u00e1 n\u00e3o falta muito tempo para retornarem ao ensino presencial. E ent\u00e3o entendi: era isso! Esse desejo deles \u00e9 o mesmo que eu tinha. Por isso sonhei. Mas n\u00e3o se equivoque, caro leitor, cara leitora: n\u00e3o \u00e9 o conhecimento e o sucesso que as crian\u00e7as buscam na escola. Isso \u00e9 papo de gestores escolares e pais\/m\u00e3es que esqueceram sua inf\u00e2ncia e acham que filhos e filhas devem ser treinados para a concorr\u00eancia desde o ber\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Do que sentiram falta J\u00falia e Lucas e todas as crian\u00e7as que estiveram privadas do ensino presencial na pandemia? S\u00f3 eles podem dizer com precis\u00e3o. Mas suspeito que tem cheiro de lanche, cor de sol e som de tot\u00f3s e gritaria no intervalo. O forte da escola n\u00e3o \u00e9 o conte\u00fado \u2013 h\u00e1 tantos anos Rubem Alves j\u00e1 nos ensinava isso! Seu forte \u00e9 o v\u00ednculo afetivo, o conv\u00edvio, a descoberta, o encantamento, o estranhamento, tudo isso misturado. Escola \u00e9 um pr\u00e9dio cheio de gente com um monte de hist\u00f3rias fascinantes. De vez em quando tem umas aulas, umas provas, mas logo acabam e, ent\u00e3o, vem o intervalo de novo!<\/p>\n\n\n\n<p>De qual conte\u00fado did\u00e1tico eu me lembro naqueles cinco anos que hoje revisitei? Quase nenhum. Mas me lembro da gola bem dobrada da blusa de Eliana, do charme de Marta e sua fala mansa, da voz rouca da Professora Ana, da intelig\u00eancia de Jair, dos \u00f3culos gigantes de Juliano, da habilidade com a bola de Walker, do sorriso de Carla na festa junina que me acendeu mil fogueiras no peito.<\/p>\n\n\n\n<p>De que dia mais me recordo? De um em que n\u00e3o teve aula&#8230; Ao inv\u00e9s de dar mat\u00e9ria, a professora passou o filme \u201cTop Gun \u2013 Ases Indom\u00e1veis\u201d. Ele mesmo! N\u00e3o me importo com os cr\u00edticos do cinema clich\u00ea. Aquilo para mim foi um deslumbramento. Ainda hoje, mais de tr\u00eas d\u00e9cadas depois, se tocar a m\u00fasica-tema e eu fechar os olhos, direi com toda sinceridade: \u201cQue saudade dos meus tempos de escola!\u201d.<\/p>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-verse\"><strong>Contato:<\/strong> freire.jose@hotmail.com \/<strong> Ilustra\u00e7\u00e3o:<\/strong> Vin\u00edcius Figueiredo.<\/pre>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No \u00faltimo texto fechei o ciclo de quase um ano sobre os escritos de Clarice Lispector. Espero que n\u00e3o s\u00f3 para mim, mas tamb\u00e9m para voc\u00ea que me acompanha por aqui tenha servido como aux\u00edlio para suportar tempos t\u00e3o dif\u00edceis. 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