{"id":12908,"date":"2021-11-05T10:59:54","date_gmt":"2021-11-05T13:59:54","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=12908"},"modified":"2021-11-05T10:59:55","modified_gmt":"2021-11-05T13:59:55","slug":"maid-a-serie-sobre-o-sutil-e-o-cruel-da-violencia-domestica-contra-uma-mulher","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=12908","title":{"rendered":"MAID: a s\u00e9rie sobre o sutil e o cruel da viol\u00eancia dom\u00e9stica contra uma mulher"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Juliana.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-12910\" width=\"284\" height=\"297\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Juliana.jpg 650w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Juliana-286x300.jpg 286w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Juliana-401x420.jpg 401w\" sizes=\"(max-width: 284px) 100vw, 284px\" \/><figcaption><strong><strong>Juliana Lemes da Cruz<\/strong>.<\/strong><br><strong>Doutoranda em Pol\u00edtica Social \u2013 UFF.<\/strong><br><strong>Pesquisadora GEPAF\/UFVJM.<\/strong><br><strong>Coordenadora do Projeto MLV.<\/strong><br><strong>Contato: <a href=\"mailto:julianalemes@id.uff.br\">julianalemes@id.uff.br<\/a><\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Maid-Netflix.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-12909\" width=\"520\" height=\"292\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Maid-Netflix.jpg 500w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Maid-Netflix-300x169.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 520px) 100vw, 520px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Assim como o tardio direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o formal, de votarem, e serem votadas, de trabalharem sem que precisassem pedir a permiss\u00e3o do marido, as mulheres permaneceram, por muito tempo, distantes da permiss\u00e3o de questionarem a si pr\u00f3prias sobre os motivos de se submeterem a processos de sofrimento em todos os \u00e2mbitos da vida social. Quando isso foi poss\u00edvel, de forma gradativa e violenta a muitas mulheres do passado, o processo de descobertas n\u00e3o parou mais. Por isso, todos os dias, as mulheres avan\u00e7am no sentido de recuperarem o tempo em que estiveram presas \u00e0s suas \u201ccavernas\u201d simb\u00f3licas, rumo \u00e0 liberdade. Tanto no sentido de conhecerem a si pr\u00f3prias, seus reais desejos e percep\u00e7\u00f5es de mundo, quanto no sentido do acesso ao mundo de coisas que, historicamente, foi-lhes negado.<\/p>\n\n\n\n<p>A s\u00e9rie MAID, dispon\u00edvel na Netflix, constitui um exemplo de possibilidade de reflex\u00e3o sobre os processos femininos de descoberta de si mesmas nesse mundo. Muito al\u00e9m de mostrar as dificuldades de uma jovem m\u00e3e para se sustentar, sustentar sua filha e se livrar da viol\u00eancia dom\u00e9stica vivida, a s\u00e9rie exp\u00f5e a luta solit\u00e1ria e naturalizada das mulheres que se desdobraram cotidianamente para sobreviverem e sustentarem seus valores mais \u00edntimos.<\/p>\n\n\n\n<p>Decidi discorrer brevemente sobre o que percebi da trama porque tem sido uma das mais debatidas entre mulheres dos c\u00edrculos femininos que tenho mais contato. E de fato, a s\u00e9rie, que n\u00e3o se passa no contexto brasileiro, exp\u00f5e a sutileza das viol\u00eancias vivenciadas por uma mulher e tamb\u00e9m, a cruel corrida feminina na dire\u00e7\u00e3o do rompimento do ciclo violento por meio da busca de apoio familiar, comunit\u00e1rio e estatal.<\/p>\n\n\n\n<p>Pontualmente, cada epis\u00f3dio materializou as afli\u00e7\u00f5es de uma jovem m\u00e3e, que, percebeu-se em situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia dom\u00e9stica e familiar apenas no \u00e1pice de seu controle por parte do seu companheiro, viciado em \u00e1lcool. Ela n\u00e3o acreditava que vivia no ciclo violento porque n\u00e3o tinha marcas em seu corpo f\u00edsico. Percebeu o problema quando se viu encurralada, com uma crian\u00e7a de 3 anos nos bra\u00e7os, sem um lugar para se abrigar, sem dinheiro e sem apoio familiar.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s tomar consci\u00eancia de que precisava fazer algo para se livrar daquele sofrimento, buscou ajuda. Encontrou, no seu percurso solit\u00e1rio, a viol\u00eancia institucional e a burocracia do estado. Em meio \u00e0 escassez de recursos de toda ordem, Alex (Alexandra) viu-se numa condi\u00e7\u00e3o de desamparo e medo. Para seguir no processo de assist\u00eancia social direcionado \u00e0s v\u00edtimas de viol\u00eancia dom\u00e9stica, precisou narrar o que acontecia com ela e percebeu que o que sofria tamb\u00e9m era viol\u00eancia. O servi\u00e7o do governo exigia que ela registrasse um boletim de ocorr\u00eancia para ter acesso ao apoio. Ela assim o fez e foi acolhida em uma casa abrigo sigilosa. L\u00e1, recebeu o amparo social, psicol\u00f3gico e jur\u00eddico demandado por qualquer mulher em condi\u00e7\u00e3o an\u00e1loga e que, infelizmente, ainda n\u00e3o temos disseminado amplamente pelo Brasil. Salvo nos grandes centros urbanos, o interior dos estados revela uma realidade perversa \u00e0s mulheres que se veem encurraladas em ciclos violentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim como Alex, mulheres dependentes economicamente, com filhos, sem o apoio de familiares e desinformadas, padecem dia ap\u00f3s dia relutando sobre os processos que t\u00eam que enfrentar para a garantia da pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia f\u00edsica e sa\u00fade mental. Encontra, n\u00e3o raro, portas fechadas, ouvidos n\u00e3o dispon\u00edveis para a escuta e incompreens\u00e3o. Na s\u00e9rie, \u00e9 poss\u00edvel perceber que as mulheres, mesmo flageladas, retornam aos relacionamentos violentos por acreditarem na mudan\u00e7a do parceiro e negarem o qu\u00e3o perigosa \u00e9 a decis\u00e3o de permanecer naquele ciclo.<\/p>\n\n\n\n<p>O movimento de idas e vindas, sob o misto de sentimentos de esperan\u00e7a e frustra\u00e7\u00e3o, bloqueia os sonhos de ascens\u00e3o pessoal e profissional de qualquer mulher, porque a desencoraja a enfrentar a vida. A s\u00e9rie mostra que n\u00e3o se trata de uma quest\u00e3o de vitimiza\u00e7\u00e3o feminina, mas, da realidade sutil e naturalizada da viol\u00eancia contra as mulheres, da sobrecarga mental gerada em raz\u00e3o da culpa e da cobran\u00e7a pela responsabilidade sobre a qualidade de vida de outras pessoas. Abre-se m\u00e3o, n\u00e3o raro, da pr\u00f3pria individualidade, a menos que haja um despertar. A s\u00e9rie exp\u00f5e muitas outras quest\u00f5es que n\u00e3o cabem nessa curta tira de jornal.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesses anos de imers\u00e3o profissional e acad\u00eamica nessa \u00e1rea, n\u00e3o posso finalizar dizendo outra coisa que n\u00e3o, uma constata\u00e7\u00e3o: raramente, uma mulher consegue romper um ciclo violento sem uma \u201cmuleta\u201d externa. Ela precisa de informa\u00e7\u00e3o, ser ouvida, acolhida, respeitada e compreendida no seu processo. Grande parte delas n\u00e3o se enxerga vivenciando um processo violento, mesmo que as l\u00e1grimas n\u00e3o parem de cair sobre o rosto. Por isso, a gente tamb\u00e9m precisa se autorizar a ser \u201cmuleta\u201d e orientar os primeiros passos. Seja como uma pessoa comum, que compreende a gravidade do problema, seja na condi\u00e7\u00e3o de profissional de um dos setores p\u00fablicos respons\u00e1veis por esse acolhimento. Para isso, n\u00e3o esque\u00e7amos, os servi\u00e7os tamb\u00e9m precisam existir, estarem ativos e funcionais. A solidariedade humana n\u00e3o basta. As pol\u00edticas p\u00fablicas de enfrentamento \u00e0 viol\u00eancia contra as mulheres exigem const\u00e2ncia e isso demanda o compromisso dos gestores p\u00fablicos. No mais, assistir MAID \u00e9 mais do que recomendado para a reflex\u00e3o de homens e mulheres sobre uma das quest\u00f5es sociais mais latentes na atualidade (<strong>Imagem: <\/strong>divulga\u00e7\u00e3o de MAID \u2013 Netflix).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Assim como o tardio direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o formal, de votarem, e serem votadas, de trabalharem sem que precisassem pedir a permiss\u00e3o do marido, as mulheres permaneceram, por muito tempo, distantes da permiss\u00e3o de questionarem a si pr\u00f3prias sobre os motivos de se submeterem a processos de sofrimento em todos os \u00e2mbitos da vida social. 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