{"id":12918,"date":"2021-11-05T12:22:13","date_gmt":"2021-11-05T15:22:13","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=12918"},"modified":"2021-11-05T12:22:15","modified_gmt":"2021-11-05T15:22:15","slug":"lgbtfobia-precisamos-tratar-urgentemente-dessa-questao-no-vale-do-mucuri","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=12918","title":{"rendered":"LGBTFOBIA: Precisamos tratar urgentemente dessa quest\u00e3o no Vale do Mucuri"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/3b6c3eef-2a80-4f95-87d3-31bd128b7e88.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-12919\" width=\"311\" height=\"343\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/3b6c3eef-2a80-4f95-87d3-31bd128b7e88.jpg 600w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/3b6c3eef-2a80-4f95-87d3-31bd128b7e88-272x300.jpg 272w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/3b6c3eef-2a80-4f95-87d3-31bd128b7e88-381x420.jpg 381w\" sizes=\"(max-width: 311px) 100vw, 311px\" \/><figcaption><strong>M\u00e1rcio Achtschin Santos,<br>PhD em Hist\u00f3ria pela UFMG <\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Em 1934, Godofredo Ferreira escreveu \u201cOs bandeirantes modernos\u201d. Esse livro procurou retratar a hist\u00f3ria de Te\u00f3filo Otoni e regi\u00e3o, apontando diversos dados sobre a forma\u00e7\u00e3o local. Concomitante \u00e0s suas narrativas, ele fazia algumas observa\u00e7\u00f5es sobre costumes e acontecimentos do per\u00edodo. No cap\u00edtulo intitulado \u201cA cidade de Te\u00f3filo Otoni\u201d abre, segundo o pr\u00f3prio Ferreira, um \u201cpar\u00eantese\u201d, para descrever a seguinte situa\u00e7\u00e3o que transcrevo do livro: \u201cEm frente \u00e0 Rua da Matriz estava o porto onde as lavadeiras do tempo de minha meninice exerciam seu mister. Entre elas, &#8211; o que causava enorme esc\u00e2ndalo, naquela \u00e9poca de uma moral melindros\u00edssima apesar das cicatrizes que, quando em quando, lhe faziam os mesm\u00edssimos Cart\u00f5es que pregavam \u2013 era persona grat\u00edssima um lavadeiro, aut\u00eantico representante do sexo-feio [grifo nosso]. O Z\u00e9 de Calu, que metido entre o mulherio, lhe fazia terr\u00edvel concorr\u00eancia \u2013 que o sexo gentil parecia suportar satisfeito, ali\u00e1s, &#8211; usurpando uma profiss\u00e3o, primitiva quase ainda agora, \u2018Saias\u2019. O Z\u00e9 de Calu era um latag\u00e3o forte. Espada\u00fado. Um homem! N\u00e3o sei o que foi feito dele\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ferreira descreve situa\u00e7\u00f5es ainda hoje vivenciadas pela comunidade LGBTQIA+. Ao seu modo, fala de cicatrizes, resultado de uma sociedade que vivia as contradi\u00e7\u00f5es e conflitos ainda hoje n\u00e3o resolvidos. Certamente faz refer\u00eancia \u00e0queles chefes de fam\u00edlias tradicionais que \u00e0s escondidas procuravam saciar o seu desejo com o \u201csexo- -feio\u201d. Por fim, conclui sua narrativa deixando vago o destino de Z\u00e9 de Calu. Como uma pessoa poderia desaparecer sem dar not\u00edcias? Como algu\u00e9m que chamava tanta a aten\u00e7\u00e3o simplesmente sumir?<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo a Anistia Internacional, o Brasil \u00e9 o pa\u00eds que mais mata LGBTQIA+ no mundo. E nesses dados n\u00e3o est\u00e3o sendo computadas as mortes identit\u00e1rias: homens e mulheres que s\u00e3o silenciadas e obrigadas a se submeterem \u00e0 heteronormatividade monog\u00e2mica. A pr\u00f3pria hist\u00f3ria oficial recusa trazer em suas refer\u00eancias da galeria de grandes her\u00f3is os gays e l\u00e9sbicas que se notabilizaram nacionalmente. Santos Dumont \u00e9 o maior exemplo dessa nega\u00e7\u00e3o. Como se n\u00e3o bastante toda essa trajet\u00f3ria hist\u00f3rica de mortes e apagamentos, tem-se hoje o ataque cotidiano da comunidade LGBTQIA+ nas redes sociais. Viol\u00eancia trazida a p\u00fablico em nome do conservadorismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse \u00e9 o grande conflito do discurso atual, que busca conciliar conservadorismo e democracia no Brasil. A democracia carrega como premissa o respeito \u00e0 individualidade e \u00e0 diversidade. Se a democracia implica no respeito a todos, consequentemente \u00e9 atributo de cada cidad\u00e3o a sua individualidade, qualquer que seja ela. Nesse sentido, a diversidade \u00e9 um aspecto indispens\u00e1vel \u00e0 democracia. Mas, coexistindo com o projeto democr\u00e1tico coroado com a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, h\u00e1 tamb\u00e9m atualmente o discurso conservador.<\/p>\n\n\n\n<p>Ser conservador significa preservar o que foi constru\u00eddo no passado, assegurar valores considerados necess\u00e1rios \u00e0 vida em sociedade. A base desse discurso est\u00e1 em conservar as tradi\u00e7\u00f5es da fam\u00edlia. E quem foi essa fam\u00edlia desde os anos de 1500? A viol\u00eancia patriarcalista foi a principal caracter\u00edstica dessa tradi\u00e7\u00e3o. Em nome dessa fam\u00edlia, por s\u00e9culos se casavam homens j\u00e1 maduros com meninas que nem menstruavam. Hoje \u00e9 crime. Por s\u00e9culos se matou mulheres pela leg\u00edtima defesa da honra. Hoje \u00e9 crime.<\/p>\n\n\n\n<p>Atrav\u00e9s de muitas lutas, e apesar de muito a se conquistar, j\u00e1 houve avan\u00e7os em rela\u00e7\u00e3o a esses direitos. No entanto, ainda que existam leis protetivas consolidadas, grande parte da sociedade brasileira reage diante da liberdade leg\u00edtima e necess\u00e1ria de gays, l\u00e9sbicas e trans. \u00c9 preciso que se reconhe\u00e7a a gravidade de postagens em redes sociais com express\u00f5es lgbtf\u00f3bicas. Publiciza\u00e7\u00f5es desse g\u00eanero n\u00e3o podem ser consideradas como um ponto de vista. N\u00e3o se est\u00e1 exercendo a liberdade de opini\u00e3o, pois n\u00e3o se justifica a sobreposi\u00e7\u00e3o desse tipo de direito em detrimento de outros fundamentais, garantidos pela Constitui\u00e7\u00e3o Federal e pela Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos Humanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Transcendendo \u00e0s quest\u00f5es legais, s\u00e3o postagens que, al\u00e9m de estereotipar, refor\u00e7am e pactuam com a viol\u00eancia cotidiana contra a comunidade LGBTQIA+. Viol\u00eancia que \u00e9 f\u00edsica, mas tamb\u00e9m psicol\u00f3gica e emocional. Essa brutalidade que se comete no Brasil n\u00e3o escapa \u00e0 realidade na regi\u00e3o do Mucuri. Quer seja no sentido simb\u00f3lico, quer seja em favor da preserva\u00e7\u00e3o da vida, n\u00e3o podemos mais admitir que Z\u00e9 de Calu desapare\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1934, Godofredo Ferreira escreveu \u201cOs bandeirantes modernos\u201d. 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