{"id":13402,"date":"2021-12-14T16:19:03","date_gmt":"2021-12-14T19:19:03","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=13402"},"modified":"2021-12-14T16:19:04","modified_gmt":"2021-12-14T19:19:04","slug":"o-raso-e-o-profundo-da-ecologia-reflexoes-sobre-as-respostas-da-natureza-aos-humanos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=13402","title":{"rendered":"O raso e o profundo da ecologia: reflex\u00f5es sobre as respostas da natureza aos humanos"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Juliana-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-13404\" width=\"350\" height=\"367\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Juliana-1.jpg 650w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Juliana-1-286x300.jpg 286w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Juliana-1-401x420.jpg 401w\" sizes=\"(max-width: 350px) 100vw, 350px\" \/><figcaption><strong><strong>Juliana Lemes da Cruz<\/strong>.<\/strong><br><strong>Doutoranda em Pol\u00edtica Social \u2013 UFF.<\/strong><br><strong>Pesquisadora GEPAF\/UFVJM.<\/strong><br><strong>Coordenadora do Projeto MLV.<\/strong><br><strong>Contato: <a href=\"mailto:julianalemes@id.uff.br\">julianalemes@id.uff.br<\/a><\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/91f0052b-a479-4e8d-ab37-e422c6ec2a5e.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-13403\" width=\"604\" height=\"211\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/91f0052b-a479-4e8d-ab37-e422c6ec2a5e.jpg 700w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/91f0052b-a479-4e8d-ab37-e422c6ec2a5e-300x105.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/91f0052b-a479-4e8d-ab37-e422c6ec2a5e-696x244.jpg 696w\" sizes=\"(max-width: 604px) 100vw, 604px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Diante dos transtornos dos \u00faltimos dias, onde a for\u00e7a das chuvas devastou munic\u00edpios inteiros no nordeste de Minas Gerais e no sul da Bahia, pareceu-me adequado dissertar sobre o meio ambiente como um todo em que os humanos s\u00e3o integrantes e n\u00e3o uma \u201centidade\u201d externa. Seria mais uma resposta natural \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas se o ocorrido n\u00e3o tivesse deixado tanto estrago: casas no ch\u00e3o, fam\u00edlias desalojadas, desabrigadas e arrasadas. Em alguns locais, vidas foram soterradas. Podemos dizer em previsibilidade desse cen\u00e1rio? Sim, podemos.<\/p>\n\n\n\n<p>O ambiente natural, n\u00e3o raro, negligenciado e violado em seus limites, mais cedo ou mais tarde responde \u00e0 a\u00e7\u00e3o antr\u00f3pica (humana). O conjunto de fatores que integram a tomada de decis\u00f5es sobre o planejamento das cidades denota a profundidade do compromisso dos gestores ocasionais com a qualidade de vida das pessoas a m\u00e9dio e longo prazos. Infelizmente, pelo que percebemos de tempos em tempos, n\u00e3o podemos contar com formas mais t\u00e9cnicas de gest\u00e3o da vida de toda uma popula\u00e7\u00e3o se basearmos, t\u00e3o somente, no (des)interesse governamental.<\/p>\n\n\n\n<p>Especificamente no estado de Minas Gerais, os impactos da a\u00e7\u00e3o antr\u00f3pica sobre o ambiente s\u00e3o percept\u00edveis, nas regi\u00f5es Norte e Nordeste, que enfrentam, anualmente, situa\u00e7\u00f5es preocupantes relacionadas \u00e0 escassez de \u00e1gua. Por outro lado, em per\u00edodos remotos, as intemp\u00e9ries que acometem esses territ\u00f3rios podem ser outras, e t\u00e3o graves quanto, pois envolvem dimens\u00f5es econ\u00f4mica, social, ambiental e pol\u00edtica das regi\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Deste modo, resta claro que os problemas n\u00e3o podem ser entendidos isoladamente. Assim como defende o te\u00f3rico ambientalista Fridjof Capra (1996), vivemos uma crise de percep\u00e7\u00e3o que exige de cada um de n\u00f3s, mudan\u00e7as das percep\u00e7\u00f5es, pensamento e valores. As mudan\u00e7as referem-se \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o do paradigma, que consiste no rompimento de uma l\u00f3gica fragmentada ou isolada, de enxergar as quest\u00f5es e de entender o todo.<\/p>\n\n\n\n<p>O professor portugu\u00eas Boaventura de Souza Santos (1995) afirma que este pensamento, de um sistema a ser superado, foi fundado a partir do modelo de racionalidade constitu\u00eddo no s\u00e9culo XVI, a partir das ci\u00eancias naturais, e, posteriormente, nos s\u00e9culos XVIII e XIX, onde foi estendido \u00e0s ci\u00eancias sociais emergentes. Um novo paradigma remete \u00e0 uma vis\u00e3o hol\u00edstica do mundo, numa dimens\u00e3o ecol\u00f3gica e amplificada do termo. Tal dimens\u00e3o alcan\u00e7a duas vis\u00f5es distintas: ? ecol\u00f3gica rasa e a ecol\u00f3gica profunda, [\u2026] ecologia rasa \u00e9 antropoc\u00eantrica, ou centralizada no ser humano. Ela v\u00ea os seres humanos como situados acima ou fora da natureza, como a fonte de todos os valores, e atribui apenas um valor instrumental, ou de uso, \u00e0 natureza (CAPRA,1996, p.17).<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, a estrutura\u00e7\u00e3o do universo d\u00e1-se no caminho da segmenta\u00e7\u00e3o entre comunidade humana e natureza, como se o ser humano n\u00e3o fizesse parte da natureza e sim de uma entidade superior aos demais seres, estes, inferiores e, portanto, dominados por aqueles. Esse pensamento permite a compreens\u00e3o de que tomando como refer\u00eancia a ideia de centro das coisas, o homem explorou e explora demasiadamente os recursos naturais, al\u00e9m de n\u00e3o se reconhecerem enquanto parte da natureza.<\/p>\n\n\n\n<p>Sendo assim, a comunidade humana teria a compet\u00eancia de explorar a chamada \u201cnatureza\u201d, de forma que consiga instaurar a sociabilidade e pens\u00e1-la enquanto um s\u00edmbolo ou um suporte (\u00fatil). O mundo da natureza, dantes entendida como um todo hol\u00edstico, ap\u00f3s a investida do homem, tornou vi\u00e1vel um mundo natural socializado que est\u00e1 dentro dessa natureza como uma esp\u00e9cie de deriva\u00e7\u00e3o, que passa a ser pensada ent\u00e3o, como realidade \u00fanica. H\u00e1 planos de mundo negados: a sociedade e o pensamento s\u00e3o os escolhidos e a natureza e o devaneio s\u00e3o os negados. A sociedade, no caso, se traduz sob normas, certo contrato social \u2013 como sinalizou o fil\u00f3sofo e te\u00f3rico pol\u00edtico, Jean-Jacques Rousseau, onde o pensamento seria vinculado \u00e0 raz\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Existe o desafio cont\u00ednuo e persistente de tratar a natureza de modo que haja uma troca de dons, onde se possa instaurar a \u00e9tica da reciprocidade, visualizando a natureza enquanto uma parceira e n\u00e3o como objeto de manipula\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica. Os direitos devem ser pensados para todos os seres vivos e n\u00e3o apenas para os seres humanos, de forma que seja constitu\u00eddo desvinculado do princ\u00edpio utilit\u00e1rio, no sentido de uma rela\u00e7\u00e3o de troca. Sendo todos os outros direitos humanos como deriva\u00e7\u00e3o do direito \u00e0 vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto \u00e9 necess\u00e1rio que estejamos preparados para enfrentar o que nos \u00e9 posto e para elaborar questionamentos sobre tudo que nos \u00e9 colocado. Formular interroga\u00e7\u00f5es. Quando Capra diz que a mudan\u00e7a dos paradigmas requer uma expans\u00e3o n\u00e3o apenas de nossas percep\u00e7\u00f5es e maneiras de pensar, mas tamb\u00e9m de nossos valores, ele vincula o pensamento e os valores, como atrelados \u00e0 possibilidade da mudan\u00e7a de autoafirma\u00e7\u00e3o para a mudan\u00e7a integrativa. Segundo o mesmo, trata-se de tend\u00eancias, e que quando uma delas \u00e9 enfatizada em excesso, acontece um desequil\u00edbrio. No campo do pensamento, o reducionista sobre o hol\u00edstico, o linear sobre o n\u00e3o linear, o racional sobre o intuitivo. Por outro lado, no campo dos valores, a quantidade sobre a qualidade, a domina\u00e7\u00e3o sobre a parceria, a competi\u00e7\u00e3o sobre a coopera\u00e7\u00e3o, dentre outros citados pelo mesmo autor.<\/p>\n\n\n\n<p>A explora\u00e7\u00e3o dos sistemas vivos em v\u00e1rias modalidades, desde ordem qu\u00edmica at\u00e9 psicol\u00f3gica, torna de extrema urg\u00eancia a ades\u00e3o pela ecologia profunda. Em torno desse pensamento, gira o movimento popular global que reafirma conceitos diferentes dos anteriores. A ecologia profunda n\u00e3o separa seres humanos \u2013 ou qualquer outra coisa \u2013 do meio ambiente natural. O mundo n\u00e3o como uma cole\u00e7\u00e3o de objetos isolados, mas como uma rede de fen\u00f4menos que est\u00e3o fundamentalmente interconectados e s\u00e3o interdependentes. A ecologia profunda definida por Capra, reconhece o valor intr\u00ednseco de todos os seres vivos e concebe os seres humanos apenas como um fio particular na teia da vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, pensar de forma dissociada do convencional, parece-me mais adequado aos que t\u00eam o relativo \u201cprivil\u00e9gio\u201d de estar \u00e0 dist\u00e2ncia da trag\u00e9dia que tem acometido tantas fam\u00edlias nos \u00faltimos dias. Problematizar o que poderia ter sido feito para minimizar tantos transtornos em caso de intemp\u00e9ries, \u00e9 o dever dos que tiveram a oportunidade de acessar, em algum momento da vida, conte\u00fados que permitem a compreens\u00e3o das respostas dadas pelos demais elementos da natureza \u00e0s escolhas humanas sobre o manejo dos recursos naturais e dos espa\u00e7os urbanos e\/ou habit\u00e1veis. (Refer\u00eancias: CAPRA, Fridjof. A teia da vida: uma nova compreens\u00e3o cient\u00edfica dos sistemas vivos, 1996; SANTOS, Boaventura de Souza. Um discurso sobre as ci\u00eancias, 1995 | Imagem: Machacalis\/MG, Dez.2021).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diante dos transtornos dos \u00faltimos dias, onde a for\u00e7a das chuvas devastou munic\u00edpios inteiros no nordeste de Minas Gerais e no sul da Bahia, pareceu-me adequado dissertar sobre o meio ambiente como um todo em que os humanos s\u00e3o integrantes e n\u00e3o uma \u201centidade\u201d externa. 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