{"id":14353,"date":"2022-02-25T16:19:53","date_gmt":"2022-02-25T19:19:53","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=14353"},"modified":"2022-02-25T16:22:01","modified_gmt":"2022-02-25T19:22:01","slug":"tempo-das-aguas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=14353","title":{"rendered":"Tempo das \u00c1guas"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Jose-Carlos-3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14357\" width=\"449\" height=\"330\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Jose-Carlos-3.jpg 700w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Jose-Carlos-3-300x221.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Jose-Carlos-3-80x60.jpg 80w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Jose-Carlos-3-696x512.jpg 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Jose-Carlos-3-571x420.jpg 571w\" sizes=\"(max-width: 449px) 100vw, 449px\" \/><figcaption><strong><em>Jos\u00e9 Carlos Freire<\/em><br><em>Professor na UFVJM<\/em><\/strong><br><strong><em>Campus de Te\u00f3filo Otoni\/MG<\/em><\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>\u201cC\u00e9u escurece, faz o dia virar noite\/e bota logo a molecada pra correr. \/Recolhe a roupa do varal l\u00e1 no terreiro, \/pega logo, vai ligeiro, \u00e9 certo que vai chover\u201d. Assim come\u00e7a a bela can\u00e7\u00e3o \u201cTempo das \u00c1guas\u201d do violeiro e compositor Bilora. A cena segue com o que \u00e9 pr\u00f3prio de uma chuva que chega, com pingueiras molhando a cama, trov\u00f5es, raios, rezas, o vento que quebra \u00e1rvores etc. No entanto, nada ofusca o elemento mais importante: a chuva \u00e9 sinal de tempo novo. A natureza se manifesta, por vezes impetuosamente, mas ela \u00e9 fonte de vida e a ela aprendemos a nos adaptar.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/unnamed-file-3.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14354\" width=\"510\" height=\"380\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/unnamed-file-3.jpeg 700w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/unnamed-file-3-300x223.jpeg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/unnamed-file-3-80x60.jpeg 80w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/unnamed-file-3-265x198.jpeg 265w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/unnamed-file-3-696x518.jpeg 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/unnamed-file-3-564x420.jpeg 564w\" sizes=\"(max-width: 510px) 100vw, 510px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Esse arranjo entre natureza e nossa capacidade \u2013 ou n\u00e3o \u2013 de lidar com seus elementos se mostra com toda for\u00e7a no in\u00edcio de cada ano. Passado janeiro, fevereiro avan\u00e7a e, infelizmente, o filme se repete: enchentes, deslizamentos, desabrigados, pessoas desaparecidas. O tempo das chuvas vira tempo de trag\u00e9dias. E l\u00e1 v\u00eam as pessoas respons\u00e1veis \u2013 de \u00f3rg\u00e3os municipais, estaduais ou federais \u2013 repetir tamb\u00e9m um argumento conhecido: o problema foi o excesso de chuvas. Culpa da natureza que n\u00e3o consegue conter sua for\u00e7a&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 lastim\u00e1vel, para dizer o m\u00ednimo, que em plena era a tecnologia, dos avan\u00e7ados instrumentos de verifica\u00e7\u00e3o e da alta capacidade de previsibilidade de acidentes, tenhamos que aceitar essa redu\u00e7\u00e3o dos problemas a uma fatalidade clim\u00e1tica. \u00c9 evidente que o que falta \u00e9 compet\u00eancia, planejamento, organiza\u00e7\u00e3o. Profissionais adequados(as) \u00e0s fun\u00e7\u00f5es que ocupam, com recursos apropriados e sob a orienta\u00e7\u00e3o b\u00e1sica de diminui\u00e7\u00e3o de riscos \u00e0 vida humana e ao meio ambiente.<\/p>\n\n\n\n<p>O que se percebe, no entanto, \u00e9 o contr\u00e1rio: amadorismo, falta de fiscaliza\u00e7\u00e3o, um jogo de loteria permanente como se nos restasse apenas torcer para que as chuvas sejam mansas a cada virada de ano. E o resultado \u00e9 o mesmo, mudando apenas o local: um ano aqui, outro ano ali, pontes destru\u00eddas, barragens estouradas, crateras nas estradas, bairros alagados, encostas que deslizam, vidas perdidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Seria muito pretensioso pontar os \u00fanicos respons\u00e1veis por esta situa\u00e7\u00e3o e, consequentemente, pela resolu\u00e7\u00e3o dessa novela de mau gosto \u00e0 qual assistimos todos os anos. Embora se possa e se deva cobrar de cada \u00f3rg\u00e3o p\u00fablico e de cada empresa que se relacionam com a infraestrutura do pa\u00eds, \u00e9 ineg\u00e1vel que o problema vem de longa data, o que aumenta nosso desafio. N\u00e3o seria absurdo dizer que nos acostumamos com as trag\u00e9dias e criamos uma perversa cultura na qual aquilo que \u00e9 crime \u2013 seja por parte de governos ou empresas \u2013 aparece como \u201cacidentes\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o vejo, infelizmente, sa\u00edda a curto prazo. Abrandando as chuvas nas pr\u00f3ximas semanas, passaremos a outras not\u00edcias e demandas. O sol logo come\u00e7ar\u00e1 a brilhar mais forte e o transcurso do ano, fatalmente, vai apagar de nossa mem\u00f3ria o que n\u00e3o dever\u00edamos esquecer. Quando chegar o m\u00eas de dezembro, como se nunca houvesse chovido no pa\u00eds, l\u00e1 vir\u00e3o os notici\u00e1rios retratando novas trag\u00e9dias.<\/p>\n\n\n\n<p>De maneira mais realista, diria que dois elementos s\u00e3o fundamentais, ainda que levem tempo para se afirmarem: o primeiro \u00e9 a desnaturaliza\u00e7\u00e3o dos problemas. O fato de estar relacionado \u00e0 natureza n\u00e3o torna um acontecimento imposs\u00edvel de ser evitado. Chamemos as coisas pelos nomes: pessoas que sofrem com as chuvas por morarem em \u00e1reas de risco indicam falta de pol\u00edtica de moradia em nossas cidades; barragens rompendo significam crime ambiental e social; a maioria do que se chama acidente em raz\u00e3o das chuvas \u00e9, na verdade, sinal de incompet\u00eancia ou cumplicidade dos \u00f3rg\u00e3os respons\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>O segundo elemento \u00e9 de ordem log\u00edstica e b\u00e1sica: pessoas tecnicamente qualificadas ocupando os devidos lugares na gest\u00e3o p\u00fablica. Salvo raras exce\u00e7\u00f5es, passadas as elei\u00e7\u00f5es, o que se v\u00ea a cada forma\u00e7\u00e3o de governo municipal, estadual ou federal \u00e9 um jogo de for\u00e7as no qual a composi\u00e7\u00e3o de secretarias ou minist\u00e9rios segue crit\u00e9rios estranhos \u2013 por vezes question\u00e1veis. O resultado \u00e9 a predomin\u00e2ncia do improviso, at\u00e9 que ocorra um problema ou novo \u201cacidente\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ingenuidade, diriam muitos, porque se trata de algo enraizado em nosso pa\u00eds. Eu diria que \u00e9 preciso pensar em algo diferente, mas sem ilus\u00f5es, evidentemente. Por isso os dois elementos se completam: s\u00f3 teremos uma log\u00edstica diferente se mudarmos a mentalidade. E n\u00e3o somos um grupo angelical no qual predomina o bom senso. Ao contr\u00e1rio, vivemos em uma sociedade atravessada por conflitos de interesses e contradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>A prop\u00f3sito, pensar pessoas apropriadas e competentes para ocupar postos dos poderes legislativo e executivo seria um bom come\u00e7o de conversa sobre elei\u00e7\u00f5es neste ano, certamente melhor do que a troca de cortesias que imperar\u00e1 nos grupos de contato nos pr\u00f3ximos meses. De nossa parte, n\u00f3s educadores continuaremos em sala de aula, buscando formar crian\u00e7as, jovens e adultos n\u00e3o apenas para o mercado de trabalho, mas para a vida. De prefer\u00eancia, uma vida na qual n\u00e3o se aceite culpar as chuvas pelas trag\u00e9dias, nem chamar de acidente aquilo que \u00e9 crime.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Contato:<\/strong> freire.jose@hotmail.com<\/h3>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Ilustra\u00e7\u00e3o:<\/strong> Vin\u00edcius Figueiredo<\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cC\u00e9u escurece, faz o dia virar noite\/e bota logo a molecada pra correr. \/Recolhe a roupa do varal l\u00e1 no terreiro, \/pega logo, vai ligeiro, \u00e9 certo que vai chover\u201d. Assim come\u00e7a a bela can\u00e7\u00e3o \u201cTempo das \u00c1guas\u201d do violeiro e compositor Bilora. 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