{"id":14734,"date":"2022-03-31T22:47:19","date_gmt":"2022-04-01T01:47:19","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=14734"},"modified":"2022-04-04T23:31:10","modified_gmt":"2022-04-05T02:31:10","slug":"tempos-de-guerra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=14734","title":{"rendered":"Tempos de guerra"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Jose-Carlos.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14735\" width=\"446\" height=\"328\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Jose-Carlos.jpg 700w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Jose-Carlos-300x221.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Jose-Carlos-80x60.jpg 80w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Jose-Carlos-696x512.jpg 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Jose-Carlos-571x420.jpg 571w\" sizes=\"(max-width: 446px) 100vw, 446px\" \/><figcaption><strong><em>Jos\u00e9 Carlos Freire<\/em><br><em>Professor na UFVJM, Campus de Te\u00f3filo Otoni\/MG<\/em><\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>\u00c9 sempre muito dif\u00edcil entender um fato hist\u00f3rico em profundidade enquanto ele se desenrola. Al\u00e9m disso, a vis\u00e3o cr\u00edtica sobre qualquer assunto exige um movimento duplo de aproxima\u00e7\u00e3o e distanciamento. Tal esfor\u00e7o sup\u00f5e que, no caso da invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia \u2013 como seria em qualquer conflito b\u00e9lico \u2013 olhemos com toda aten\u00e7\u00e3o aos fatos concretos que ocorrem e, ao mesmo tempo, distanciemo-nos deles para v\u00ea-los na rela\u00e7\u00e3o com outros fatos do momento e com outros momentos da hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Ilustracao-Tempos-de-Guerra.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14736\" width=\"567\" height=\"356\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Ilustracao-Tempos-de-Guerra.jpeg 700w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Ilustracao-Tempos-de-Guerra-300x188.jpeg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Ilustracao-Tempos-de-Guerra-671x420.jpeg 671w\" sizes=\"(max-width: 567px) 100vw, 567px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-verse\">O que proponho aqui s\u00e3o apenas pinceladas. De modo muito simples, o tal movimento duplo a que me refiro nos permite dizer que, olhada em perspectiva de longa dura\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, a guerra atual \u00e9 mais um evento de confronta\u00e7\u00e3o de ex\u00e9rcitos; mas, se olhada nas suas especificidades, trata-se de uma guerra singular ou, ao menos, com poss\u00edveis efeitos singulares em rela\u00e7\u00e3o a outras. <strong>Sugiro tr\u00eas passos de reflex\u00e3o.<\/strong><\/pre>\n\n\n\n<p><strong>Primeiro:<\/strong> a guerra n\u00e3o \u00e9 novidade. Povos milenares, imp\u00e9rios antigos ou mesmo os pa\u00edses na forma moderna que conhecemos sempre travaram guerras. Acontece que os \u00faltimos s\u00e9culos apresentam elementos muito peculiares em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s \u00e9pocas anteriores. Estabelece-se uma forma de organiza\u00e7\u00e3o da vida, da produ\u00e7\u00e3o, do trabalho e dos governos sob a l\u00f3gica mercantil, no ac\u00famulo de lucros por parte de quem os acessa e no preju\u00edzo sofrido por parte de quem n\u00e3o os t\u00eam. Numa palavra, o capitalismo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Segundo passo:<\/strong> o s\u00e9culo XX eleva a guerra a outro patamar. Por se desenvolverem sob a l\u00f3gica capitalista, a Primeira Guerra e, sobretudo, a Segunda, t\u00eam como elemento fundamental o avan\u00e7o t\u00e9cnico-cient\u00edfico. O fato mais importante, em termos b\u00e9licos, \u00e9 sem d\u00favida o desenvolvimento da bomba at\u00f4mica.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, desde finais dos anos 1950 ressoam as reflex\u00f5es do fil\u00f3sofo alem\u00e3o G\u00fcnther Anders sobre a \u201cera at\u00f4mica\u201d. Para ele, ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e, sobretudo, com a cria\u00e7\u00e3o da bomba at\u00f4mica, atingimos uma esp\u00e9cie de ponto sem retorno. O \u201ctempo do fim\u201d est\u00e1 dado a partir do momento em que a humanidade deliberadamente se torna capaz de um autoexterm\u00ednio. A bomba \u00e9 fator incontorn\u00e1vel: n\u00e3o d\u00e1 para desinvent\u00e1-la. O novo tempo do mundo, para usar uma express\u00e3o do fil\u00f3sofo brasileiro Paulo Arantes, n\u00e3o pode ser recuado. Ou seja, o que podemos \u00e9 administrar o risco, adiando ao m\u00e1ximo o fim.<\/p>\n\n\n\n<p>Por assustador que possa parecer, a reflex\u00e3o de Anders se mostra, infelizmente, muito atual porque, al\u00e9m da bomba at\u00f4mica, temos a galopante cat\u00e1strofe ambiental. Todo o avan\u00e7o t\u00e9cnico que produzimos nos possibilitou o acesso a bens de consumo na mesma medida em que nos torna cada vez mais capazes de acabar com as formas de vida na terra.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Terceiro passo: <\/strong>a invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia \u00e9 certamente mais do que aparece nos notici\u00e1rios. Est\u00e3o em campo, al\u00e9m dos envolvidos diretamente, importantes atores hist\u00f3ricos do p\u00f3s Segunda Guerra como a Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado do Atl\u00e2ntico Norte (OTAN) que congrega as grandes pot\u00eancias ocidentais sob o comando dos Estados Unidos. Para ser mais exato, a Ucr\u00e2nia aparece como um territ\u00f3rio no qual se d\u00e1 o confronto entre for\u00e7as da OTAN e R\u00fassia, com seus respectivos aliados de hoje e de amanh\u00e3. Por isso n\u00e3o est\u00e1 de forma alguma descartado o risco de amplia\u00e7\u00e3o do conflito para n\u00edveis mundiais.<\/p>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m das quest\u00f5es humanit\u00e1rias imediatas \u00e0s quais devemos estar sens\u00edveis em qualquer situa\u00e7\u00e3o ou local, o fator que me parece merecedor de toda a nossa aten\u00e7\u00e3o \u2013 e que torna, de fato, essa guerra singular \u2013 \u00e9 que voltamos \u00e0 amea\u00e7a at\u00f4mica. A bomba ressurge como fator importante, seja de ret\u00f3rica, seja de efeito concreto. Pouco importa. O determinante \u00e9 que, tal como nos anos 1940 ou na chamada crise dos m\u00edsseis em 1962 entre os EUA e a ent\u00e3o Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, a capacidade de autoexterm\u00ednio da humanidade est\u00e1 de novo colocada no horizonte.<\/p>\n\n\n\n<p>A bomba pode, por certo, n\u00e3o ser ativada. Por outro lado, ela pode. Essa contradi\u00e7\u00e3o se torna o ponto mais dram\u00e1tico dos tempos de guerra que correm neste in\u00edcio de ano. Quem decide apertar ou n\u00e3o o bot\u00e3o? Estamos diante de l\u00edderes que representam uma popula\u00e7\u00e3o emancipada e livre que define os rumos de seus pa\u00edses por crit\u00e9rios humanit\u00e1rios ou de chefes de Estado que pensam unicamente pela l\u00f3gica da domina\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rio, recursos e poderio comercial?<\/p>\n\n\n\n<p>Se corrermos os olhos pelas \u00faltimas d\u00e9cadas veremos uma s\u00e9rie de invas\u00f5es de pa\u00edses, invariavelmente sob o pretexto da pacifica\u00e7\u00e3o ou da prote\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o civil. S\u00edria, Som\u00e1lia, I\u00eamen, Iugosl\u00e1via, Iraque etc. Se puxarmos a ficha de pa\u00edses que agora se prop\u00f5em arautos da paz, como os da Europa ou os Estados Unidos, encontraremos pot\u00eancias militares capazes dos atos atrozes. R\u00fassia e China n\u00e3o seriam, por seu turno, arautos da santidade.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 esse um poss\u00edvel e, por certo, limitado balan\u00e7o sobre o atual conflito na Ucr\u00e2nia: ao recurso milenar da guerra se junta, nos \u00faltimos s\u00e9culos, seu uso para fins estritamente comerciais; em nossos dias, retoma-se a amea\u00e7a do uso de bombas at\u00f4micas que acredit\u00e1vamos esperan\u00e7osamente ter ficado para tr\u00e1s; como se n\u00e3o bastasse, tudo isso se d\u00e1 em avan\u00e7ada degrada\u00e7\u00e3o ambiental e, por isso, crescente valoriza\u00e7\u00e3o e disputa de recursos naturais; por raz\u00f5es \u00f3bvias, os senhores da guerra, sejam quais forem, n\u00e3o almejam liberdade, bem estar das popula\u00e7\u00f5es ou qualquer outro argumento simp\u00e1tico que usem. Para onde vamos? N\u00e3o sei. O que sei \u00e9 que em tempos de guerra \u00e9 bom que estejamos atentos ao conflito imediato, mas tamb\u00e9m ao que ele representa no arranjo entre for\u00e7as econ\u00f4micas e militares de ontem e de hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso penso ser discut\u00edvel a ideia t\u00e3o propagada de se escolher um lado do conflito atual, representado diretamente por R\u00fassia e Ucr\u00e2nia ou, o que talvez fosse mais preciso, entre R\u00fassia e OTAN. Isso n\u00e3o significa, evidentemente, insensibilidade quanto \u00e0 guerra. Ao contr\u00e1rio: o que a Ucr\u00e2nia passa hoje, poder\u00e3o passar amanh\u00e3 outros pa\u00edses com recursos naturais de alto valor comercial. Grandes pot\u00eancias se dedicam a manter ou expandir sua for\u00e7a. Por isso, na l\u00f3gica concorrencial entre elas, tudo \u00e9 campo de disputa. Do subsolo africano ou do Oriente M\u00e9dio \u00e0 floresta amaz\u00f4nica, nada ficar\u00e1 impune \u00e0 vol\u00fapia dos empreendimentos capitalistas, aos quais os chefes de Estado servem, mesmo quando n\u00e3o o dizem.<\/p>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m de nossas simpatias ou antipatias, o decisivo \u00e9 que nenhum dos \u201clados\u201d parece representar uma posi\u00e7\u00e3o emancipat\u00f3ria para a humanidade, mas sim faces distintas do mesmo projeto destrutivo do capitalismo avan\u00e7ado. Talvez fosse melhor falar de escolha por outro modelo de civiliza\u00e7\u00e3o. Mas a\u00ed ter\u00edamos que repensar o pr\u00f3prio capitalismo e o lugar que, nele, a guerra ocupa.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Contato:<\/strong> <a href=\"mailto:freire.jose@hotmail.com\">freire.jose@hotmail.com<\/a><\/h3>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Ilustra\u00e7\u00e3o:<\/strong> Vin\u00edcius Figueiredo<\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 sempre muito dif\u00edcil entender um fato hist\u00f3rico em profundidade enquanto ele se desenrola. Al\u00e9m disso, a vis\u00e3o cr\u00edtica sobre qualquer assunto exige um movimento duplo de aproxima\u00e7\u00e3o e distanciamento. 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