{"id":15476,"date":"2022-06-02T23:34:13","date_gmt":"2022-06-03T02:34:13","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=15476"},"modified":"2022-06-04T23:22:10","modified_gmt":"2022-06-05T02:22:10","slug":"tempos-de-carestia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=15476","title":{"rendered":"Tempos de Carestia"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Jose-Carlos.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-15477\" width=\"418\" height=\"308\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Jose-Carlos.jpg 700w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Jose-Carlos-300x221.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Jose-Carlos-80x60.jpg 80w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Jose-Carlos-696x512.jpg 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Jose-Carlos-571x420.jpg 571w\" sizes=\"(max-width: 418px) 100vw, 418px\" \/><figcaption><strong><em>Jos\u00e9 Carlos Freire<\/em><br><em>Professor na UFVJM, Campus de Te\u00f3filo Otoni\/MG<\/em><\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>\u201cAperta o n\u00f3 da carestia, aperta tudo pra fazer economia\u201d. O s\u00e1bio refr\u00e3o da cantiga de dom\u00ednio p\u00fablico resume nosso contexto brasileiro de 2022. Mas ser\u00e1 que \u00e9 apenas o momento atual que imp\u00f5e essa l\u00f3gica? Esse \u00e9 um dos grandes desafios que temos: dar conta da urg\u00eancia do tempo presente, compreendendo-o como parte de um processo de longa dura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O leitor e a leitora que s\u00e3o mais jovens podem, por exemplo, investigar com as pessoas mais velhas o que foi a segunda metade da d\u00e9cada de 1980. Era comum que, durante uma compra no mercado de meia hora, produtos mudassem de pre\u00e7o por causa da infla\u00e7\u00e3o galopante. E se puxar a mem\u00f3ria de gera\u00e7\u00f5es mais velhas, teremos os anos 1970, os anos 1930 e a\u00ed vamos.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Ilustracao-Tempos-de-Carestia-2.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-15478\" width=\"526\" height=\"340\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Ilustracao-Tempos-de-Carestia-2.jpeg 700w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Ilustracao-Tempos-de-Carestia-2-300x194.jpeg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Ilustracao-Tempos-de-Carestia-2-696x449.jpeg 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Ilustracao-Tempos-de-Carestia-2-650x420.jpeg 650w\" sizes=\"(max-width: 526px) 100vw, 526px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>No final de 2021 a Rede Brasileira de Pesquisa que trata de seguran\u00e7a alimentar (Penssan) estimava em 19 milh\u00f5es o n\u00famero de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de fome no Brasil. Dados mais recentes de outras fontes de pesquisa mostram que o n\u00famero de pessoas que n\u00e3o tiveram dinheiro em algum momento da pandemia para alimentar a si e a suas fam\u00edlias chegou \u00e0 casa dos 70 milh\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Eis, portanto, um tra\u00e7o dram\u00e1tico de nosso pa\u00eds: desde o per\u00edodo Colonial, atravessando breves ciclos de maior acesso das camadas populares a condi\u00e7\u00f5es minimamente dignas de vida, a fome sempre esteve presente. Para usar uma formula\u00e7\u00e3o um tanto gasta, mas que infelizmente n\u00e3o perdeu a validade com o tempo: um territ\u00f3rio com tantos recursos naturais e enorme potencial de produ\u00e7\u00e3o de alimentos sempre se constituiu como exportador de mat\u00e9ria-prima, relegando a popula\u00e7\u00e3o pobre que nele vive \u00e0 escassez e \u00e0 mis\u00e9ria. Da Col\u00f4nia o Imp\u00e9rio, dele \u00e0 Rep\u00fablica, mudamos o penteado, mas n\u00e3o o cabelo. Exportamos hoje carne, milho, soja e outros produtos em quantidade assombrosa no mesmo instante em que a cesta no mercado e a panela se esvaziam cada vez mais para quem trabalha.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas onde h\u00e1 insist\u00eancia, h\u00e1 tamb\u00e9m resist\u00eancia. Para dar tr\u00eas exemplos r\u00e1pidos, em 1946, Josu\u00e9 de Castro, intelectual e pol\u00edtico conhecido pelo seu engajamento em quest\u00f5es sociais, publicava \u201cGeografia da fome\u201d, livro important\u00edssimo por combater o entendimento de que a fome seria algo natural e incontorn\u00e1vel, apontando suas causas sociais. Seu livro mostrava de modo contundente que a fome na sociedade \u00e9 algo que se combate e se resolve.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro exemplo foi o Movimento do Custo de Vida (MCV), liderado por mulheres da periferia de S\u00e3o Paulo no combate \u00e0 carestia e que, nos anos 1970, confrontou o mito de que a Ditadura imposta no pa\u00eds estava resolvendo nossos problemas. Por fim, j\u00e1 nos anos 1990, tivemos a A\u00e7\u00e3o da Cidadania Contra a Fome, a Mis\u00e9ria e Pela Vida, tendo \u00e0 frente o soci\u00f3logo Herbert de Souza. Betinho, como ficou conhecido, resumiu em uma frase uma verdade inquestion\u00e1vel: \u201cQuem tem fome tem pressa\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitos seriam os exemplos de iniciativas p\u00fablicas e populares de combate \u00e0 fome em nossa hist\u00f3ria recente. Mas esses tr\u00eas s\u00e3o suficientes para nos fazer pensar algo crucial: onde foi parar o tema da fome em nossas discuss\u00f5es cotidianas? Estamos, cada qual, totalmente tomados por nossos desafios particulares de sobreviv\u00eancia a ponto de n\u00e3o notarmos mais uma calamidade social? Aceitamos, sem mais, o lema do \u201csalve-se quem puder\u201d? N\u00e3o sei. Espero que n\u00e3o. Resta saber que solu\u00e7\u00f5es s\u00e3o poss\u00edveis. O que \u00e9 necess\u00e1rio fazer para que o Brasil mobilize, como dizia a Carta da A\u00e7\u00e3o da Cidadania de Betinho, \u201ctodas as suas energias para colocar um fim \u00e0 mis\u00e9ria\u201d?<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 sabido que n\u00e3o estamos s\u00f3s na trag\u00e9dia, j\u00e1 que a desigualdade social n\u00e3o \u00e9 privil\u00e9gio nosso. Com dados do primeiro semestre de 2022 de organismos internacionais, estima-se que as dez personalidades mais ricas do mundo possuem a riqueza equivalente ao conjunto de mais de tr\u00eas bilh\u00f5es de pessoas. Quase a metade da popula\u00e7\u00e3o mundial! Mas queria voltar ao Brasil e, nesse caso, recusar aqui a sa\u00edda f\u00e1cil, comum em ano de elei\u00e7\u00e3o, de dizer que devemos escolher bem nossos representantes. Est\u00e1 cert\u00edssimo, mas \u00e9 insuficiente, penso. O que me assusta \u00e9 a estranha sensa\u00e7\u00e3o de passividade geral da sociedade brasileira com o sofrimento de uma parcela gigantesca da sua popula\u00e7\u00e3o que sobrevive a duras penas. Ter\u00edamos voltado \u00e0quela no\u00e7\u00e3o de naturaliza\u00e7\u00e3o da fome que Josu\u00e9 de Castro e outros tantos combateram?<\/p>\n\n\n\n<p>Para que pensemos a s\u00e9rio sobre isso, deixo um pouco de lado os dados econ\u00f4micos e sociais para apelar a algo que, pelo menos aparentemente, toca mais diretamente nosso comportamento e nossa vis\u00e3o de mundo. Refiro-me \u00e0 forma\u00e7\u00e3o cultural crist\u00e3, o que tem sido t\u00e3o salientado por setores conservadores nos \u00faltimos anos. \u00c9 milenar o engajamento de crist\u00e3os e crist\u00e3s no aux\u00edlio aos necessitados. A prop\u00f3sito, as primeiras comunidades eram reconhecidas pela partilha dos bens entre seus membros e \u00e9 cl\u00e1ssica a formula\u00e7\u00e3o b\u00edblica de que \u201cn\u00e3o havia necessitado entre eles\u201d. E n\u00e3o s\u00f3 isso: h\u00e1 tamb\u00e9m nas formula\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas de importantes pensadores a indica\u00e7\u00e3o de que elementos de injusti\u00e7a devam ser combatidos por fidelidade a valores crist\u00e3os. O fil\u00f3sofo medieval Tom\u00e1s de Aquino, por exemplo, defendia que a ira \u2013 naquele contexto facilmente tomada como um pecado \u2013 deveria ser aceita quando se direcionasse contra situa\u00e7\u00f5es injustas. Essa ira \u201cpor zelo\u201d, em seus termos, n\u00e3o s\u00f3 era aceit\u00e1vel como digna de aprova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ora, como pode um pa\u00eds de maioria crist\u00e3 como o nosso, no qual cat\u00f3licos e evang\u00e9licos disputam a lideran\u00e7a estat\u00edstica de n\u00fameros de fi\u00e9is, aceitar a fome sem mais? Por que n\u00e3o disputam tamb\u00e9m quem defende mais os pobres? Onde foram parar os princ\u00edpios de solidariedade e compaix\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 certo que pensadores e militantes crist\u00e3os da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o, no campo cat\u00f3lico, ou da Teologia da Miss\u00e3o Integral, no campo evang\u00e9lico, continuam suas lutas dia a dia nas comunidades e t\u00eam contribu\u00eddo para que o \u00f3bvio n\u00e3o seja esquecido. Esse senso de justi\u00e7a social de inspira\u00e7\u00e3o religiosa se conjuga com as no\u00e7\u00f5es de direitos humanos e cidadania. Limitados que sejam tais referenciais, s\u00e3o melhores que a aceita\u00e7\u00e3o da mis\u00e9ria. Caminhos, termos, conceitos apropriados, tudo isso podemos e devemos discutir com tempo. O que n\u00e3o pode esperar \u00e9 a urg\u00eancia de quem padece. Se a f\u00e9 crist\u00e3 \u00e9 algo t\u00e3o valioso para a maioria do povo brasileiro, como se apregoa, que seu reflexo na defesa da justi\u00e7a se apresente urgentemente. Afinal, quem tem fome tem pressa. (Ilustra\u00e7\u00e3o: Vin\u00edcius Figueiredo).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Contato<\/strong>: freire.jose@hotmail.com<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ilustra\u00e7\u00e3o<\/strong>: Vin\u00edcius Figueiredo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cAperta o n\u00f3 da carestia, aperta tudo pra fazer economia\u201d. O s\u00e1bio refr\u00e3o da cantiga de dom\u00ednio p\u00fablico resume nosso contexto brasileiro de 2022. Mas ser\u00e1 que \u00e9 apenas o momento atual que imp\u00f5e essa l\u00f3gica? 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