{"id":16263,"date":"2022-08-04T10:38:11","date_gmt":"2022-08-04T13:38:11","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=16263"},"modified":"2022-08-04T10:40:29","modified_gmt":"2022-08-04T13:40:29","slug":"tempos-de-barbarie","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=16263","title":{"rendered":"Tempos de Barb\u00e1rie"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Jose-Carlos.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-16264\" width=\"472\" height=\"347\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Jose-Carlos.jpg 700w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Jose-Carlos-300x221.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Jose-Carlos-80x60.jpg 80w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Jose-Carlos-696x512.jpg 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Jose-Carlos-571x420.jpg 571w\" sizes=\"(max-width: 472px) 100vw, 472px\" \/><figcaption><strong><em>Jos\u00e9 Carlos Freire<\/em><br><em>Professor na UFVJM, Campus de Te\u00f3filo Otoni\/MG<\/em><\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A partir da expans\u00e3o da televis\u00e3o nos anos 1980 e 1990 se consolidaram os programas de p\u00e1gina policial no meio do dia e \u00e0 tardinha. Eram comuns as chamadas impactantes, a repeti\u00e7\u00e3o de cenas de assalto e acidentes. Com o avan\u00e7o da tecnologia foi poss\u00edvel, inclusive, a filmagem de persegui\u00e7\u00f5es policiais ao vivo. Nos tempos atuais, no entanto, as manchetes dessa natureza se espalharam por todo o telejornal, pelo r\u00e1dio e redes sociais, em qualquer momento do dia e da noite. Assassinatos, exterm\u00ednios, linchamentos, abusos contra jovens negros e mulheres, toda forma de absurdos que embrulham o est\u00f4mago de qualquer pessoa com o m\u00ednimo de bom senso. Facilmente poder\u00edamos pensar que em nossos dias a barb\u00e1rie aumentou. \u00c9 verdade, mas n\u00e3o toda ela.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 sempre prudente ir em busca do que h\u00e1 por tr\u00e1s das palavras. O termo \u201cb\u00e1rbaro\u201d remonta \u00e0 antiguidade e define, em sua raiz, o que os gregos consideravam como estrangeiro ou forasteiro. Esse sentido foi assimilado pelos romanos que consideravam como b\u00e1rbaros os n\u00e3o pertencentes ao imp\u00e9rio e, sobretudo, aqueles que o amea\u00e7avam. Desse modo, o termo foi gradativamente se tornando sin\u00f4nimo de selvagem, cruel, atrasado. Formou-se, ent\u00e3o, um bin\u00f4mio: barb\u00e1rie e civiliza\u00e7\u00e3o, sendo o primeiro ligado \u00e0 desordem e o segundo \u00e0 ordem social.<\/p>\n\n\n\n<p>Recordemos, no entanto, que, via de regra, o b\u00e1rbaro \u00e9 sempre identificado por outro sujeito. Ou seja, \u00e9 um grupo social, imp\u00e9rio ou pa\u00eds que rotula outro povo como tal. Assim foram, por exemplo, os povos origin\u00e1rios de nossas terras identificados pela coloniza\u00e7\u00e3o. Eles n\u00e3o disseram: \u201cSomos b\u00e1rbaros!\u201d. Isso \u00e9 relevante por ser t\u00eanue a linha que separa civiliza\u00e7\u00e3o e barb\u00e1rie. O que de um lado \u00e9 visto como progresso, de outro \u00e9 destrui\u00e7\u00e3o. Pergunte-se a um pa\u00eds invadido por outro de maior poder militar quem \u00e9 o b\u00e1rbaro. Isso vale especialmente para os \u00faltimos s\u00e9culos com seu grande avan\u00e7o t\u00e9cnico.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi por essa via de an\u00e1lise cr\u00edtica da sociedade que, ao longo do s\u00e9culo XX, firmou-se a no\u00e7\u00e3o de barb\u00e1rie associada aos efeitos do capitalismo. Esse modo de vida e de produ\u00e7\u00e3o que se forjou intimamente ligado \u00e0 ideia de liberdade foi se mostrando perverso e destrutivo ao longo dos \u00faltimos quatrocentos anos. Como bem aponta o fil\u00f3sofo brasileiro Marildo Menegat, estudioso do tema da barb\u00e1rie, ao longo do s\u00e9culo passado foi poss\u00edvel visualizar momentos de atrocidades intercalados de outros em que a evolu\u00e7\u00e3o e a paz social pareciam definitivos. Um recorte apontado pelo autor \u00e9 a altern\u00e2ncia da etapa terr\u00edvel das duas grandes guerras, entre a 1914 e 1945, para os gloriosos anos de 1945 at\u00e9 a metade dos anos 1970. Depois disso novo per\u00edodo de crise se imp\u00f4s, com uma nova regress\u00e3o \u00e0 barb\u00e1rie.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 exatamente a\u00ed que surge uma pedra no meio do caminho, na perspectiva do autor. N\u00e3o \u00e9 correto, segundo ele, imaginar que a altern\u00e2ncia entre barb\u00e1rie e evolu\u00e7\u00e3o seja uma lei natural. Se fosse, restaria esperar pela supera\u00e7\u00e3o dos conflitos sociais e geopol\u00edticos das \u00faltimas d\u00e9cadas por uma nova era de paz e prosperidade. Para Menegat, a atual crise do capitalismo \u00e9 estrutural e permanente. Ap\u00f3s quatro s\u00e9culos de predomin\u00e2ncia, a sociedade burguesa d\u00e1 sinais evidentes de esgotamento. Entre eles poder\u00edamos citar dois: o desemprego estrutural que mant\u00e9m \u00e0 margem da vida social uma crescente parcela da popula\u00e7\u00e3o mundial desde os anos 1970 e o colapso ambiental que se tornou mais evidente nos \u00faltimos anos. Na ordem capitalista n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para esse contingente sobrante de miser\u00e1veis que aumenta a cada dia e muito menos para a apregoada vida sustent\u00e1vel do planeta. A continuar como vamos, teremos uma cat\u00e1strofe ambiental permeada de imprevis\u00edveis guerras civis ainda mais intensas que as atuais.<\/p>\n\n\n\n<p>Parece ser essa a chave apropriada de leitura dos eventos de viol\u00eancia que ocupam o notici\u00e1rio de r\u00e1dio, televis\u00e3o e internet todos os dias. Eles n\u00e3o resultam de uma mera decis\u00e3o de indiv\u00edduos que, de repente, tornam-se violentos. \u00c9 mais apropriado entend\u00ea-los como fruto de processos sociais. A prop\u00f3sito, \u00e9 evidente tamb\u00e9m nas \u00faltimas d\u00e9cadas a expans\u00e3o do sistema prisional, aspecto que Menegat, em di\u00e1logo com outros autores, estudou com acuidade. As guerras entre grupos do tr\u00e1fico em bairros de periferia, somadas \u00e0s repressivas opera\u00e7\u00f5es policiais, amplificam ainda mais os homic\u00eddios e, consequentemente, o n\u00famero de presos, grande parte sem a devida assist\u00eancia da justi\u00e7a institucional. Em termos mais simples: uma bomba rel\u00f3gio.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Ilustracao-Tempos-de-barbarie.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-16265\" width=\"501\" height=\"385\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Ilustracao-Tempos-de-barbarie.jpg 700w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Ilustracao-Tempos-de-barbarie-300x231.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Ilustracao-Tempos-de-barbarie-80x60.jpg 80w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Ilustracao-Tempos-de-barbarie-696x535.jpg 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Ilustracao-Tempos-de-barbarie-546x420.jpg 546w\" sizes=\"(max-width: 501px) 100vw, 501px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Como j\u00e1 foi sugerido em outros textos desta coluna, \u00e9 preciso analisar fen\u00f4menos sociais contempor\u00e2neos escapando-se de dois extremos: <\/strong>um, segundo o qual \u201ctudo foi sempre assim\u201d, outro que diz \u201ctudo \u00e9 novo\u201d. As pr\u00e1ticas de viol\u00eancia de hoje t\u00eam elementos novos, pr\u00f3prios do nosso tempo, mas tamb\u00e9m est\u00e3o em continuidade com a hist\u00f3ria. No caso brasileiro h\u00e1 um agravante: vivemos a crise do sistema capitalista como qualquer pa\u00eds, mas adicionamos a isso as marcas de nosso passado colonial e escravista. A\u00ed a nossa fatura se fecha: crise do capitalismo mundial mais um passado de viol\u00eancia que permanece.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o tempos, portanto, de uma complexa trama s\u00f3cio-pol\u00edtica e econ\u00f4mica que exige uma urgente reflex\u00e3o sobre o futuro. Sem freio \u00e0 barb\u00e1rie como vamos indo nosso horizonte \u00e9 nebuloso, tanto em termos estruturais como no cotidiano mais imediato. Em diversos pa\u00edses essa encruzilhada se mostra mais evidente em per\u00edodos eleitorais nos quais dois ou tr\u00eas cen\u00e1rios se descortinam: no primeiro deles, que nem sempre ganha relev\u00e2ncia nas campanhas e nos votos, est\u00e3o as propostas de enfrentamento contundente \u00e0 barb\u00e1rie, o que se configura, necessariamente, como uma bandeira anticapitalista; no segundo cen\u00e1rio se apresentam a defesa dos direitos fundamentais e as pol\u00edticas sociais como caminho, aquilo que Menegat, analisando o caso brasileiro do in\u00edcio deste s\u00e9culo, bem chamou de \u201cgest\u00e3o social da barb\u00e1rie\u201d; no terceiro cen\u00e1rio, mais difuso e em geral enviesado por discursos de alta carga ideol\u00f3gica se entrev\u00ea o avan\u00e7o da cat\u00e1strofe social. O primeiro, freio de emerg\u00eancia; o segundo, tentativas de administra\u00e7\u00e3o; o terceiro, p\u00e9 no acelerador.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pelo fato de o Brasil estar em per\u00edodo eleitoral em 2022, esse deveria ser o grau de seriedade e profundidade de nossas discuss\u00f5es. O que temos feito? O que faremos?<\/strong> Cada homic\u00eddio absurdo no notici\u00e1rio, cada a\u00e7\u00e3o gratuita de viol\u00eancia, cada chacina em periferias, cada ato de intoler\u00e2ncia, tudo isso deveria nos fazer pensar sobre que pa\u00eds ainda \u00e9 poss\u00edvel constituir, pisando no freio ou ao menos tentando administrar uma m\u00ednima civilidade, j\u00e1 que a barb\u00e1rie imp\u00f5e uma urg\u00eancia. O rel\u00f3gio da hist\u00f3ria continua girando e sinais do abismo se tornam cada vez mais vis\u00edveis<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Contato<\/strong>: freire.jose@hotmail.com<\/h3>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Ilustra\u00e7\u00e3o<\/strong>: Vin\u00edcius Figueiredo<\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A partir da expans\u00e3o da televis\u00e3o nos anos 1980 e 1990 se consolidaram os programas de p\u00e1gina policial no meio do dia e \u00e0 tardinha. Eram comuns as chamadas impactantes, a repeti\u00e7\u00e3o de cenas de assalto e acidentes. Com o avan\u00e7o da tecnologia foi poss\u00edvel, inclusive, a filmagem de persegui\u00e7\u00f5es policiais ao vivo. Nos tempos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":16264,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"rop_custom_images_group":[],"rop_custom_messages_group":[],"rop_publish_now":"initial","rop_publish_now_accounts":[],"rop_publish_now_history":[],"rop_publish_now_status":"pending","footnotes":""},"categories":[25,24],"tags":[42,683,4677,75,867],"class_list":["post-16263","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destaque","category-opiniao","tag-diario-tribuna","tag-jose-carlos-freire","tag-tempos-de-barbarie","tag-teofilo-otoni","tag-vale-do-mucuri"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/16263"}],"collection":[{"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=16263"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/16263\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16269,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/16263\/revisions\/16269"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/16264"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=16263"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=16263"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=16263"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}