{"id":16806,"date":"2022-09-16T23:58:37","date_gmt":"2022-09-17T02:58:37","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=16806"},"modified":"2022-09-18T23:45:36","modified_gmt":"2022-09-19T02:45:36","slug":"tempos-de-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=16806","title":{"rendered":"Tempos de pol\u00edtica"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Jose-Carlos.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-16807\" width=\"422\" height=\"310\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Jose-Carlos.jpg 700w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Jose-Carlos-300x221.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Jose-Carlos-80x60.jpg 80w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Jose-Carlos-696x512.jpg 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Jose-Carlos-571x420.jpg 571w\" sizes=\"(max-width: 422px) 100vw, 422px\" \/><figcaption><strong>Jos\u00e9 Carlos Freire<\/strong>.<br><strong>Professor na UFVJM, Campus de Te\u00f3filo Otoni\/MG<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>J\u00e1 se v\u00e3o mais de duzentos anos que a ideia de pol\u00edtica se vincula diretamente a um aparato institucional com leis e estatutos, organizando a vida social. Sinal disso \u00e9 o fato de que \u201cparticipa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u201d tenha se popularizado como o caminho que uma pessoa trilha na milit\u00e2ncia partid\u00e1ria ou na aproxima\u00e7\u00e3o com cargos no poder legislativo ou executivo. Nesse sentido, a ideia de politiza\u00e7\u00e3o esteve geralmente relacionada \u00e0 busca de influ\u00eancia nos rumos de uma cidade, um estado, um pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Politizada seria aquela postura contestadora das injusti\u00e7as e defensora das pol\u00edticas p\u00fablicas, sobretudo para a popula\u00e7\u00e3o mais pobre como forma de diminui\u00e7\u00e3o da desigualdade social \u2013 isso associado a uma no\u00e7\u00e3o de esquerda. Mas politizada tamb\u00e9m poderia ser a pessoa que defende o livre mercado, a diminui\u00e7\u00e3o do papel no poder p\u00fablico e o aumento da iniciativa privada, o que configura em linhas gerais uma vis\u00e3o de direita. Dois caminhos, por assim dizer, para a felicidade humana, mas ambas dentro de uma l\u00f3gica comum a que podemos chamar, sem grandes problematiza\u00e7\u00f5es, de democracia ou ordem democr\u00e1tica, pois sup\u00f5em a submiss\u00e3o \u00e0s leis e conven\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"431\" height=\"501\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Ilustracao-Tempos-de-politica-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-16811\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Ilustracao-Tempos-de-politica-1.jpg 431w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Ilustracao-Tempos-de-politica-1-258x300.jpg 258w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Ilustracao-Tempos-de-politica-1-361x420.jpg 361w\" sizes=\"(max-width: 431px) 100vw, 431px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>A disputa entre uma perspectiva e outra configurou as grandes linhas da luta pol\u00edtica nestes dois s\u00e9culos do ciclo hist\u00f3rico de Estados nacionais. Enquanto as constitui\u00e7\u00f5es e poderes organizados mediavam a vida social, as elei\u00e7\u00f5es, via de regra, constitu\u00edram-se como o momento culminante de processos de embate ao mesmo tempo em que abriam ciclos distintos do anterior. Alguns destes de importante avan\u00e7o do bem-estar social, outros de ineg\u00e1vel ofensiva do mercado; outros at\u00e9 de car\u00e1ter intolerante, autorit\u00e1rio ou mesmo totalit\u00e1rio. Novo ciclo, novo equil\u00edbrio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 claro que houve tamb\u00e9m contextos em que grupos ou movimentos n\u00e3o apenas disputaram internamente o jogo, mas buscaram questionar suas regras e propuseram algo al\u00e9m do sistema pol\u00edtico tradicional. Tais processos de aspecto revolucion\u00e1rio, marcadamente de esquerda, resultaram, quase sempre, em uma acomoda\u00e7\u00e3o na etapa seguinte \u00e0 l\u00f3gica predominante. Retoma-se, com o tempo, o papel dos partidos e das elei\u00e7\u00f5es e o jogo segue. Note-se, por\u00e9m, que mesmo em tais momentos de tentativa de ruptura da ordem democr\u00e1tica convencional, n\u00e3o se abandonou a meta, que continuava a ser o ideal moderno de felicidade coletiva. Em que pese os problemas dos processos revolucion\u00e1rios, sobretudo no s\u00e9culo passado, eles se constitu\u00edram como tentativa de realiza\u00e7\u00e3o plena daquilo que se almejava, sem \u00eaxito, por vias eleitorais e institucionais. Em outras palavras, tentava-se, por revolu\u00e7\u00e3o, realizar o que a democracia tradicional prometia e n\u00e3o entregava.<\/p>\n\n\n\n<p>O que temos de novo nas \u00faltimas d\u00e9cadas \u00e9 certo emba\u00e7amento desse cen\u00e1rio. Ampliou-se a import\u00e2ncia de grupos e movimentos que destoam da velha l\u00f3gica de luta pol\u00edtica e, quando se colocam contra o sistema, n\u00e3o o fazem porque almejam levar a fundo o projeto de bem-estar de todos, mas sim por uma difusa no\u00e7\u00e3o de liberdade individual, valores morais ou interesses corporativos que implicam em intoler\u00e2ncia, nega\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as e mesmo exterm\u00ednio de advers\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>A isso que ocorre de maneira variada mundo afora se convencionou chamar de ascens\u00e3o da extrema direita. Tais posi\u00e7\u00f5es n\u00e3o surgiram de agora, obviamente. Mas \u00e9 not\u00f3rio que sua relev\u00e2ncia se tem ampliado. Em que medida isso implica na fal\u00eancia da velha l\u00f3gica democr\u00e1tica? Seria uma onda de rea\u00e7\u00e3o a tudo que se configurou como lutas emancipat\u00f3rias p\u00f3s-1968? Um reflexo do colapso do capitalismo? Estas e outras perguntas precisam ser enfrentadas com urg\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso do Brasil n\u00e3o \u00e9 diferente. Temos visto um crescimento do debate, das discuss\u00f5es sobre pol\u00edtica nos \u00faltimos anos; por\u00e9m, isso n\u00e3o significa que a democracia se tenha ampliado, para usar um velho jarg\u00e3o; ao contr\u00e1rio, h\u00e1 um questionamento de tudo que constitui a institucionalidade democr\u00e1tica. E, tal como em outros pa\u00edses, n\u00e3o se trata de uma situa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria em que for\u00e7as de esquerda anseiam levar a fundo a busca da felicidade coletiva no combate \u00e0s desigualdades: ao contr\u00e1rio, vivemos a vers\u00e3o local do que mundialmente se expressa como extrema direita. Para onde vamos? Eis um ponto que precisa ser refletido com toda a aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Das muitas e necess\u00e1rias contribui\u00e7\u00f5es para o entendimento dos desafios brasileiros vale destacar o trabalho do soci\u00f3logo Gabriel Feltran que h\u00e1 anos realiza pesquisas sobre as periferias, sobretudo em S\u00e3o Paulo. Nas trilhas de seu estudo, \u00e9 poss\u00edvel notar uma mudan\u00e7a do jogo pol\u00edtico brasileiro nas \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas. Ap\u00f3s a redemocratiza\u00e7\u00e3o, parec\u00edamos estar na dire\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica segundo a qual os agentes pol\u00edticos principais devem representar os conflitos da base social, constituindo, assim, propostas distintas para os rumos do pa\u00eds. Pensemos, por exemplo, nas elei\u00e7\u00f5es de 1989, na qual se aglutinaram dois grandes projetos no segundo turno: de um lado, a candidatura de Lula, representando os anseios da classe trabalhadora e a amplia\u00e7\u00e3o de direitos sociais sinalizados na Constitui\u00e7\u00e3o de 1988; de outro, a candidatura Collor, marcadamente neoliberal, aglutinando for\u00e7as do mercado e velhas oligarquias.<\/p>\n\n\n\n<p>Ocorre que nas elei\u00e7\u00f5es seguintes a discuss\u00e3o deixou de enfatizar projetos de pa\u00eds e os agentes pol\u00edticos fundamentais foram, aos poucos, perdendo a vincula\u00e7\u00e3o com os conflitos da base social. Uma longa autocr\u00edtica carece ainda de ser feita, em especial pelos partidos de esquerda, mas o fato \u00e9 que a luta pol\u00edtica se reduziu \u00e0 disputa eleitoral. Como recorda Feltran, nesse mesmo contexto, h\u00e1 um processo silencioso, de baixo pra cima, em que grupos e organiza\u00e7\u00f5es diversas criaram lentamente, ao seu modo, uma disputa por espa\u00e7o, poder e mercado desde a base, por vias legais ou ilegais. Tais for\u00e7as sociais chegaram, na segunda metade da d\u00e9cada passada, com todo vigor ao legislativo e ao executivo municipais, estaduais e federais.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, o entendimento da vers\u00e3o brasileira da extrema direita exige considerar, necessariamente, a import\u00e2ncia de tais grupos e organiza\u00e7\u00f5es. \u00c9 preciso ver em que medida, por exemplo, as chamadas bancadas nas Assembleias e no Congresso representam conte\u00fados program\u00e1ticos para o estado e o pa\u00eds ou simplesmente interesses particularistas, familiares ou corporativos. Que quadros e quais projetos est\u00e3o, de fato, sendo eleitos?<\/p>\n\n\n\n<p>Como nos demais pa\u00edses que passam por conjunturas eleitorais recentes, parece ser esse um componente fundamental das elei\u00e7\u00f5es de 2022 no Brasil. Elas se mostram como um momento de embate e enfrentamento, predominando n\u00e3o os projetos para o pa\u00eds ou caminhos de arranjos estruturais, mas aspectos ideol\u00f3gicos difusos e pouco aprofundados que se relacionam a interesses de grupos. Para estes, o Estado \u00e9 um mero instrumento a ser usado com fins particulares. Concomitantemente, a aus\u00eancia de uma maior consci\u00eancia e discuss\u00e3o ampliada sobre nossos desafios b\u00e1sicos reduz a luta pol\u00edtica, no dia a dia, ao confronto agressivo de opini\u00f5es e escolhas pessoais. S\u00e3o tempos de pol\u00edtica, mas, infelizmente, como pouca politiza\u00e7\u00e3o. \u00c9 o que temos pra hoje. E amanh\u00e3, o que ser\u00e1?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Contato<\/strong>: freire.jose@hotmail.com<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ilustra\u00e7\u00e3o<\/strong>: Vin\u00edcius Figueiredo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 se v\u00e3o mais de duzentos anos que a ideia de pol\u00edtica se vincula diretamente a um aparato institucional com leis e estatutos, organizando a vida social. 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