{"id":17712,"date":"2022-12-02T10:35:22","date_gmt":"2022-12-02T13:35:22","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=17712"},"modified":"2022-12-02T14:07:12","modified_gmt":"2022-12-02T17:07:12","slug":"tempos-de-informacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=17712","title":{"rendered":"Tempos de Informa\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Jose-Carlos.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-17713\" width=\"427\" height=\"314\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Jose-Carlos.jpg 700w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Jose-Carlos-300x221.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Jose-Carlos-80x60.jpg 80w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Jose-Carlos-696x512.jpg 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Jose-Carlos-571x420.jpg 571w\" sizes=\"(max-width: 427px) 100vw, 427px\" \/><figcaption><strong><em>Jos\u00e9 Carlos Freire<\/em><br><em>Professor na UFVJM, Campus de Te\u00f3filo Otoni\/MG<\/em><\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Em uma velha lenda que atravessa culturas diversas e com toques regionais distintos, o Diabo, pai da mentira, oferece o sucesso, a fama e tudo mais a quem se dispuser a lhe entregar, ao fim da jornada, a sua alma. Na sociedade em que vivemos, a cada conex\u00e3o que realizamos com um dispositivo, do computador ao celular, parece que negociamos algo semelhante: teremos acesso a tudo que quisermos, bastando dar nossa vida em troca. A diferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 lenda \u00e9 que, no nosso caso, a vida j\u00e1 \u00e9 entregue no momento do pacto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 um dilema. N\u00e3o h\u00e1 vida fora das redes; dentro delas tamb\u00e9m n\u00e3o. Causaria um espanto consider\u00e1vel a um viajante do tempo que nos chegasse do passado e se deparasse com nossas \u201cp\u00e1ginas pessoais\u201d, sem contar o uso indiscriminado de \u201cavatares\u201d. Como voc\u00eas podem ser tantas coisas e tantas pessoas diversas ao mesmo tempo? Seria a prov\u00e1vel primeira pergunta.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Ilustracao-Tempos-de-Informacao.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-17714\" width=\"521\" height=\"383\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Ilustracao-Tempos-de-Informacao.jpg 600w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Ilustracao-Tempos-de-Informacao-300x221.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Ilustracao-Tempos-de-Informacao-80x60.jpg 80w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Ilustracao-Tempos-de-Informacao-571x420.jpg 571w\" sizes=\"(max-width: 521px) 100vw, 521px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Esse estado de coisas tem a ver com tecnologia e tamb\u00e9m com lucro. Nossos dados valem dinheiro. Primeiro, n\u00f3s os oferecemos. Depois eles se cruzam com outros dados, formando um acervo gigantesco que, cortado por algoritmos, geram novos dados. Estes nos chegar\u00e3o na forma de oferta de produtos por meio daquele mesmo dispositivo onde nos foram solicitados os componentes mais valiosos que um ser humano hoje pode dispor: seus dados. Um c\u00edrculo assombroso, por\u00e9m, fascinante.<\/p>\n\n\n\n<p>O fil\u00f3sofo sul-coreano Byung-Chul Han est\u00e1 entre as pessoas que v\u00eam se esfor\u00e7ando nos \u00faltimos anos para entender essa gigantesca engrenagem. \u00c9 um leitor atento de Michel Foucault, que se notabilizou por estudar a sociedade moderna organizada a partir do \u201cregime disciplinar\u201d, o modo de vida engendrado pelo capitalismo industrial que nos destinou a uma explora\u00e7\u00e3o dos corpos e das energias, cujo elemento da vigil\u00e2ncia \u00e9 crucial.<\/p>\n\n\n\n<p>O sul-coreano d\u00e1 um passo adiante. Para Han, a explora\u00e7\u00e3o continua, mas mudou a forma. Na sociedade tecnol\u00f3gica atual vigora o \u201cregime de informa\u00e7\u00e3o\u201d, isto \u00e9, a explora\u00e7\u00e3o dos dados. Nesse sentido, a domina\u00e7\u00e3o n\u00e3o se d\u00e1 exclusivamente pela posse dos meios de produ\u00e7\u00e3o, mas pelo acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o. Esta \u00e9 usada para uma vigil\u00e2ncia muito mais profunda: n\u00e3o mais um sistema opressivo que controla os corpos, mas uma autovigil\u00e2ncia. Ou seja: pelo processamento de informa\u00e7\u00f5es por algoritmos e intelig\u00eancia artificial h\u00e1 um controle do comportamento que, embora imposto de fora, \u00e9 compreendido pelos sujeitos como express\u00e3o de sua liberdade. Ainda \u00e9 forca, mas temos a ilus\u00e3o de poder escolher a corda.<\/p>\n\n\n\n<p>Han n\u00e3o titubeia ao definir essa modalidade de capitalismo da informa\u00e7\u00e3o como a degrada\u00e7\u00e3o dos seres humanos em gado, em animais de consumo. Seguramos os celulares como na Idade M\u00e9dia segurava-se o ros\u00e1rio, como busca da salva\u00e7\u00e3o. Se na etapa anterior do capitalismo industrial o humano se subjugava como m\u00e1quina, como pe\u00e7a de trabalho, agora, no capitalismo da informa\u00e7\u00e3o, assentado sobre a ideia sedutora da comunica\u00e7\u00e3o, ele se entrega ao mesmo tempo em que se entende como livre e criativo. Ele participa como empreendedor da l\u00f3gica que suga sua exist\u00eancia. \u00c9 v\u00edtima e carrasco de si mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro elemento \u00e9 que no regime disciplinar imperava um anonimato, a anula\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos. No regime de informa\u00e7\u00e3o ocorre o contr\u00e1rio: a exposi\u00e7\u00e3o de si em redes abertas. A visibilidade \u00e9 o fator determinante: quanto mais vis\u00edvel, mais control\u00e1vel. Tudo por um \u201clike\u201d, uma curtida. No regime disciplinar n\u00e3o interessava o indiv\u00edduo, mas sua soma no jogo da produ\u00e7\u00e3o; no regime da informa\u00e7\u00e3o interessam os perfis pessoais: as pessoas se desnudam por uma necessidade assimilada. \u00c9 preciso que tudo esteja dispon\u00edvel. As informa\u00e7\u00f5es s\u00e3o livres, enquanto as pessoas \u2013 achando-se livres \u2013 est\u00e3o presas \u00e0s informa\u00e7\u00f5es. Para usar o termo do fil\u00f3sofo sul-coreano: estamos em um pres\u00eddio digital.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 ainda outro aspecto importante. Na sociedade da informa\u00e7\u00e3o ocorre uma crise da verdade. N\u00e3o se trata apenas de uma invers\u00e3o entre o que \u00e9 verdadeiro e o que \u00e9 mentira, mas sim de algo ainda mais perverso: vivemos uma indistin\u00e7\u00e3o entre verdade e mentira. H\u00e1 uma esp\u00e9cie de autonomia das informa\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o a fatos. O que \u00e9 divulgado nas redes sociais n\u00e3o precisa ter um correspondente real. Basta a propaga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso nos leva a uma conclus\u00e3o bastante preocupante: se as informa\u00e7\u00f5es falsas n\u00e3o precisam de nada que corresponda a elas, torna-se dif\u00edcil combat\u00ea-las com a verdade. As informa\u00e7\u00f5es ganham vida pr\u00f3pria, valendo-se por si mesmas. \u00c9 o imp\u00e9rio das famosas \u201cfake news\u201d. Produtos s\u00e3o comprados, pol\u00edticos s\u00e3o eleitos, guerras s\u00e3o travadas com base no absoluto vazio.<\/p>\n\n\n\n<p>O que fazer diante de um quadro em que a democracia se corrompe numa \u201cinfocracia\u201d? N\u00e3o mais o governo do povo, mas dos dados? Mas que dados? De quem e manipulados por quem? Seria equivocado compreender a discuss\u00e3o de Byung-Chul Han apartada da cr\u00edtica ao capitalismo, aspecto que norteou o pensamento cr\u00edtico desde o s\u00e9culo XIX. O fato de que n\u00e3o mais o algoz da f\u00e1brica simbolize o controle e sim o dispositivo que se carrega no bolso n\u00e3o indica que se tenha afrouxado a explora\u00e7\u00e3o. Ao contr\u00e1rio, ela se acentuou. Agora n\u00e3o mais somos, cada pessoa, mercadoria: nossas informa\u00e7\u00f5es todas se mercantilizaram.<\/p>\n\n\n\n<p>O diagn\u00f3stico de Han, por mais desolador que se mostre, \u00e9 necess\u00e1rio e urgente. Como recolocar a verdade em seu posto de refer\u00eancia? Como revalorizar o indiv\u00edduo em sua concretude e n\u00e3o apenas seu perfil virtual? Como tornar os dispositivos, meras ferramentas que nos auxiliem a viver e n\u00e3o mecanismos de controle de nossa vida? Certamente n\u00e3o ser\u00e1 por aumento de informa\u00e7\u00f5es. Elas j\u00e1 transbordam. Talvez precisemos de menos dados, menos exposi\u00e7\u00e3o, menos perfis, menos contatos. Em lugar disso, mais humanidade, mais hist\u00f3ria, mais viv\u00eancias, mais amigos. A tela n\u00e3o \u00e9 o mundo, apenas uma fr\u00e1gil representa\u00e7\u00e3o dele.<\/p>\n\n\n\n<p>Byung-Chul Han chega a falar de uma necess\u00e1ria humaniza\u00e7\u00e3o do capitalismo e se mostra entusiasta da ideia atual de sustentabilidade. N\u00e3o tenho as mesmas esperan\u00e7as. Para que se repense o capitalismo da informa\u00e7\u00e3o talvez precisemos repensar tudo. Seja como for, tomar consci\u00eancia de que vivemos sob uma infocracia \u00e9 um passo fundamental. Somos mais que \u201cdados\u201d; e esse dado \u00e9 inegoci\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Contato<\/strong>: freire.jose@hotmail.com<\/h3>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Ilustra\u00e7\u00e3o<\/strong>: Vin\u00edcius Figueiredo<\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em uma velha lenda que atravessa culturas diversas e com toques regionais distintos, o Diabo, pai da mentira, oferece o sucesso, a fama e tudo mais a quem se dispuser a lhe entregar, ao fim da jornada, a sua alma. 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