{"id":18249,"date":"2023-01-16T21:11:15","date_gmt":"2023-01-17T00:11:15","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=18249"},"modified":"2023-01-16T21:11:17","modified_gmt":"2023-01-17T00:11:17","slug":"coitada-ela-estragou-a-vida-e-as-voltas-que-o-mundo-da-a-historia-de-superacao-da-policial-joseli-lima","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=18249","title":{"rendered":"\u201cCoitada, ela estragou a vida\u201d e \u201cas voltas que o mundo d\u00e1\u201d: a hist\u00f3ria de supera\u00e7\u00e3o da policial Joseli Lima"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Juliana-2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-18250\" width=\"318\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Juliana-2.jpg 650w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Juliana-2-286x300.jpg 286w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Juliana-2-401x420.jpg 401w\" sizes=\"(max-width: 318px) 100vw, 318px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong><strong>Juliana Lemes da Cruz.<\/strong><\/strong><br><strong><strong>Doutoranda em Pol\u00edtica Social \u2013 UFF.<\/strong><\/strong><br><strong><strong>Pesquisadora GEPAF\/UFVJM.<\/strong><\/strong><br><strong><strong>Coordenadora do Projeto MLV.<\/strong><\/strong><br><strong><strong>Contato: <\/strong><a href=\"mailto:julianalemes@id.uff.br\"><strong>julianalemes@id.uff.br<\/strong><\/a><\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>N\u00e3o h\u00e1 algo mais angustiante para uma adolescente que estava cheia de sonhos e expectativas para sua vida, ouvir de pessoas conhecidas a express\u00e3o: \u201cCoitada, ela estragou a vida\u201d. Foi algo que eu ouvi quando engravidei aos 16 anos de idade e algo que a Joseli Lima, que engravidou aos 17, tamb\u00e9m ouviu. Hoje, passados 20 anos, compreendo o quanto as normas sociais de conduta s\u00e3o cru\u00e9is com as meninas e o quanto foram cru\u00e9is comigo e com a Josy. Da minha experi\u00eancia de gravidez na adolesc\u00eancia eu posso contar em outro texto. Esta edi\u00e7\u00e3o ser\u00e1 dedicada a uma parte da hist\u00f3ria de supera\u00e7\u00e3o da Josy.<\/p>\n\n\n\n<p>A gravidez na adolesc\u00eancia ainda \u00e9 uma realidade presente no contexto brasileiro. Apesar da aparente percep\u00e7\u00e3o p\u00fablica de que as orienta\u00e7\u00f5es sobre a preven\u00e7\u00e3o s\u00e3o suficientes, meninas e meninos exploram a sexualidade de formas diferentes, onde, como, quando e com quem se sentem instigados. Geralmente, com bastante inseguran\u00e7a no in\u00edcio. A dificuldade das fam\u00edlias e at\u00e9 de professores em tocar em um assunto tabu pode ser uma das causas que levam adolescentes a acreditarem que o conte\u00fado sobre sexo, sexualidade e rela\u00e7\u00f5es decorrentes s\u00e3o quest\u00f5es externas, distante de suas realidades. Principalmente no caso dos meninos, a pornografia constitui um or\u00e1culo, onde apreendem sobre sexo casual e at\u00e9 \u201cproibido\u201d, o que os chama a aten\u00e7\u00e3o e vicia. Em regra, reduzem a sexualidade a um \u00fanico ato. As meninas, comumente, descobrem-se de outras formas, especialmente associadas \u00e0 romantiza\u00e7\u00e3o, ao pudor ou \u00e0 \u201cproibi\u00e7\u00e3o\u201d da busca da descoberta das zonas de prazer dos pr\u00f3prios corpos.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi no munic\u00edpio de Pot\u00e9, distante 488 quil\u00f4metros da capital mineira, interior do estado, precisamente no Vale do Mucuri que nossa protagonista nasceu, foi criada e iniciou a vida adulta. Foi naquela cidadezinha que a menina de 18 anos, de fam\u00edlia simples, deu \u00e0 luz seu primeiro filho e dois anos depois, do segundo. Ambos usufru\u00edram de curta conviv\u00eancia paterna, o que tornou ainda mais dif\u00edcil para a jovem, constituir uma carreira profissional s\u00f3lida na fase adulta.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar das proje\u00e7\u00f5es populares de que ela viveria o insucesso nos objetivos que almejava, Josy conseguiu com o apoio dos seus pais, ingressar no mercado de trabalho e al\u00e7ar novos voos enquanto dedicava-se tamb\u00e9m \u00e0 cria\u00e7\u00e3o dos seus filhos. Como se sabe, os munic\u00edpios de interior t\u00eam caracter\u00edsticas pr\u00f3prias, geralmente, carregadas de normas que n\u00e3o est\u00e3o no papel, mas, sim, nos costumes, na tradi\u00e7\u00e3o. Tanto Pot\u00e9, quanto munic\u00edpios circunvizinhos n\u00e3o apresentam contextos diferentes. S\u00e3o bastante \u201cprovincianos\u201d. D\u00e1 para imaginar o que \u00e9 ser uma mulher jovem, bonita, inteligente e m\u00e3e- -solo morando em uma cidade \u201cprovinciana\u201d? Em lugares assim, mulheres bonitas e jovens t\u00eam seu \u201clugar\u201d: acompanhadas de um homem de status. E as mulheres com filhos? No m\u00ednimo, espera-se que estejam ao lado de um homem. Jamais, sozinhas.<\/p>\n\n\n\n<p>Joseli n\u00e3o ocupou esses lugares. Enquanto trabalhava no setor de Assist\u00eancia Social da prefeitura de Pot\u00e9, conseguiu estudar e ser aprovada em dois concursos p\u00fablicos. N\u00e3o satisfeita, prestou vestibular para a rec\u00e9m-criada Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, com sede em Te\u00f3filo Otoni, sendo a 10\u00aa colocada para ingresso na 1\u00aa turma de Servi\u00e7o Social, no ano de 2006. Insistiu nos estudos, e acabou sendo aprovada, no ano de 2007, no concurso da Pol\u00edcia Militar de Minas Gerais, que teve curso de forma\u00e7\u00e3o em Governador Valadares. Decidida, trancou sua matr\u00edcula no 3\u00ba per\u00edodo do curso que iniciou na UFVJM e partiu para iniciar a carreira que se dedica at\u00e9 hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde adolescente, por onde passava, Joseli chamava aten\u00e7\u00e3o pela beleza natural que se assemelhava \u00e0 de uma ind\u00edgena. De cabelos longos, que passavam da linha da cintura, olhos escuros, rosto com tra\u00e7os firmes e corpo esbelto. No lugar de ser positivo, ter um perfil est\u00e9tico que se encaixa nas prefer\u00eancias masculinas pode ser bastante desconfort\u00e1vel em ambientes de sociabilidade conservadores. Neles, a mulher precisa ocupar apenas os espa\u00e7os predeterminados a ela. Condi\u00e7\u00e3o defendida, inclusive, por algumas mulheres que abra\u00e7am os pap\u00e9is socialmente constru\u00eddos como se nunca pudessem ser alterados.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesses cen\u00e1rios, uma mulher que ocupa a fun\u00e7\u00e3o de policial, historicamente associada \u00e0 figura masculina, \u00e9 uma mulher ousada. Algumas cren\u00e7as limitantes, como desassociar mulheres da condi\u00e7\u00e3o de boas atiradoras e motoristas, corajosas ou assertivas, ainda impera no imagin\u00e1rio popular, como se estas fossem caracter\u00edsticas essencialmente masculinas. Tais cren\u00e7as caem por terra \u00e0 medida que mais mulheres ingressam nas for\u00e7as de seguran\u00e7a p\u00fablica do pa\u00eds. Aos poucos, pelo avan\u00e7o da ideia de que para um pleno desenvolvimento faz-se necess\u00e1rio a redu\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m, das desigualdades de g\u00eanero, como em alguns estados do Brasil, o limitado percentual destinado ao ingresso feminino nas corpora\u00e7\u00f5es ser\u00e1 dilu\u00eddo e mais mulheres integrar\u00e3o a seguran\u00e7a p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p>Destaco esta condi\u00e7\u00e3o para dizer o quanto as press\u00f5es sociais empurram pessoas que n\u00e3o admitem serem colocadas em \u201ccaixas\u201d menores que seu real tamanho. Joseli sentia-se assim quando decidiu sair de Te\u00f3filo Otoni para viver na capital mineira. Antes disso, serviu por alguns anos em GV, de onde decidiu sair para trabalhar mais pr\u00f3ximo da casa dos seus pais, com quem suas crian\u00e7as estavam vivendo. Em poucos meses, tratou de levar seus filhos para Te\u00f3filo Otoni, onde os criou sozinha. Nesse per\u00edodo, conseguiu comprar seu primeiro ve\u00edculo, mas ainda vivia em casa de aluguel.<\/p>\n\n\n\n<p>Encurralada, meninos entrando na pr\u00e9-adolesc\u00eancia, e junto, os sintomas de hiperatividade e reatividade frente \u00e0s aus\u00eancias familiares, o que se refletiu no n\u00edvel de aproveitamento escolar. Os filhos davam um baita trabalho a ela. Sozinha, suportando firme press\u00e3o de toda natureza, deixou a cidade onde foi mais um exemplo de mulher em situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia dom\u00e9stica. No seu caso, por parte de um ex-companheiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda assim, foi julgada socialmente, como algu\u00e9m que teria dado causa \u00e0s agress\u00f5es. Situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil, que, particularmente, pude acompanhar o decorrer e o desfecho. Como se diz: \u201cn\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel se curar no mesmo ambiente em que adoeceu\u201d. Assim, Joseli tomou a mais acertada de suas decis\u00f5es. Deixou para tr\u00e1s um percurso de desafios, recorreu novamente aos seus pais para ficar com seus filhos por um tempo, e com medo, mudou-se para Belo Horizonte. Adaptou-se ao ritmo de trabalho do lugar, identificou como poderia viver bem ali, se privou de muitas coisas, se planejou e ap\u00f3s dois anos, conseguiu financiar um apartamento, onde vive atualmente com seus filhos Kaio e Arthur, com seu companheiro, o Tales (o Gari Gato), al\u00e9m do c\u00e3ozinho Eddye.<\/p>\n\n\n\n<p>Finalmente, passados mais de 20 anos desde que aquela menina escutou \u201cCoitada, ela estragou a vida\u201d, ao inv\u00e9s de se diminuir e aceitar o que lhe disseram, persistiu e com o apoio de cuidados dos seus pais, enfrentou dificuldades e avan\u00e7ou, ao ponto de ter tido a alegria de escutar express\u00f5es muito diferentes, que destacam \u201cas voltas que o mundo d\u00e1\u201d. No in\u00edcio do pr\u00f3ximo ano, Josy dever\u00e1 ingressar no curso de sargentos da PMMG, onde j\u00e1 passa dos 15 anos de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria da Josy sintetiza epis\u00f3dios em que precisou lidar com frustra\u00e7\u00f5es, afli\u00e7\u00f5es, saudade, sentimento de culpa, inseguran\u00e7a, impot\u00eancia e medo. Elementos que a desafiaram a se permitir arriscar viver sem a preocupa\u00e7\u00e3o de caber em \u201ccaixinhas\u201d e sem perder a esperan\u00e7a que conseguiria alcan\u00e7ar seus objetivos de vida mesmo diante do desafio de ter sido na adolesc\u00eancia, m\u00e3e, e m\u00e3e-solo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/5cea5646-e1b5-4a8f-b3de-a41378e0e81a.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-18251\" width=\"696\" height=\"931\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/5cea5646-e1b5-4a8f-b3de-a41378e0e81a.jpg 600w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/5cea5646-e1b5-4a8f-b3de-a41378e0e81a-224x300.jpg 224w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/5cea5646-e1b5-4a8f-b3de-a41378e0e81a-314x420.jpg 314w\" sizes=\"(max-width: 696px) 100vw, 696px\" \/><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o h\u00e1 algo mais angustiante para uma adolescente que estava cheia de sonhos e expectativas para sua vida, ouvir de pessoas conhecidas a express\u00e3o: \u201cCoitada, ela estragou a vida\u201d. 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