{"id":18754,"date":"2023-02-17T23:11:03","date_gmt":"2023-02-18T02:11:03","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=18754"},"modified":"2023-02-18T21:11:13","modified_gmt":"2023-02-19T00:11:13","slug":"quando-morrem-os-grandes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=18754","title":{"rendered":"<strong>Quando morrem os grandes<\/strong>"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Jose-Carlos.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-18756\" width=\"457\" height=\"336\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Jose-Carlos.jpg 700w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Jose-Carlos-300x221.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Jose-Carlos-80x60.jpg 80w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Jose-Carlos-696x512.jpg 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Jose-Carlos-571x420.jpg 571w\" sizes=\"(max-width: 457px) 100vw, 457px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong><em>Jos\u00e9 Carlos Freire<\/em><br><em>Professor na UFVJM, Campus de Te\u00f3filo Otoni\/MG<\/em><\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>\u00c9 verdade que em todos os anos perdemos pessoas importantes na cultura brasileira. N\u00e3o digo \u201cfamosos\u201d porque esse termo costuma restringir o foco a quem ganha destaque nas m\u00eddias e, n\u00e3o poucas vezes, leva-nos a confundir fama com relev\u00e2ncia art\u00edstica. H\u00e1 muitos n\u00e3o famosos que s\u00e3o grandes e muitos famosos que ainda precisariam caminhar muito em seu of\u00edcio art\u00edstico.<\/p>\n\n\n\n<p>O ano de 2022, no entanto, mostrou-se um tanto at\u00edpico quanto \u00e0s perdas no campo cultural. Atribuo isso a dois fatores fundamentais: primeiro, foi o ano no qual, de fato, retomamos a vida no pa\u00eds ap\u00f3s a pandemia e o mundo das artes come\u00e7ou a girar novamente. Haviam sido importantes as famosas \u201clives\u201d, mas no final de 2021 j\u00e1 era geral o desejo de experi\u00eancia mais concretas, de ir ao teatro, ao cinema, a um espet\u00e1culo, a um show. As not\u00edcias que chegavam, por conhecidos de locais diversos e pelas redes, \u00e9 que a vida cultural estava, de novo, retomando o vigor. Nesse sentido, a perda de artistas parece ter nos impactado mais, porque nos tocou mais fundo.<\/p>\n\n\n\n<p>O segundo motivo \u00e9 que foi um ano dif\u00edcil \u2013 e bota dif\u00edcil nisso. Crise econ\u00f4mica, os efeitos da pandemia e um governo brasileiro que nos provocou o desespero pelo conjunto de irresponsabilidades e pela imensa dist\u00e2ncia do que se espera de um agente p\u00fablico. Por se ter colocado desde o in\u00edcio contra a arte e os artistas \u2013 salvo alguns que se tornaram apoiadores apaixonados do seu projeto de desmanche do pa\u00eds \u2013 o governo anterior levou a quem preza pela import\u00e2ncia do campo cultural para a sociedade \u00e0 beira de um ataque de nervos. Por isso tamb\u00e9m a morte de artistas parece ter nos atingido de modo mais forte.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Quando-morrem-os-grandes-Ilustracao-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-18757\" width=\"533\" height=\"423\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Quando-morrem-os-grandes-Ilustracao-1.jpg 607w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Quando-morrem-os-grandes-Ilustracao-1-300x238.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Quando-morrem-os-grandes-Ilustracao-1-530x420.jpg 530w\" sizes=\"(max-width: 533px) 100vw, 533px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Alguns exemplos: em janeiro de 2022 perd\u00edamos a cantora Elza Soares, filha de lavadeira e oper\u00e1rio e que se tornou uma das maiores vozes de nossa hist\u00f3ria. Autenticidade e encanto exemplares. No m\u00eas seguinte morria Arnaldo Jabor, cineasta e jornalista cujas posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas question\u00e1veis a partir dos anos 1990 n\u00e3o apagam sua import\u00e2ncia na gera\u00e7\u00e3o do Cinema Novo, quando jovens diretores se dedicaram a decifrar os dramas de um pa\u00eds que mergulhava na ditadura p\u00f3s-golpe de 1964.<\/p>\n\n\n\n<p>Em maio foi a vez de Milton Gon\u00e7alves, um extraordin\u00e1rio ator que atravessou gera\u00e7\u00f5es em marcantes pap\u00e9is na TV, no teatro e no cinema. Em agosto morria J\u00f4 Soares, artista de m\u00faltiplas habilidades, amado por uns, nem tanto por outros, sobretudo em raz\u00e3o de sua trajet\u00f3ria se confundir com o avan\u00e7o da televis\u00e3o como meio dominante de comunica\u00e7\u00e3o. \u00c9 ineg\u00e1vel, no entanto, sua import\u00e2ncia n\u00e3o s\u00f3 como humorista e apresentador, mas tamb\u00e9m como escritor e dramaturgo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas foi o m\u00eas de novembro que nos sacudiu de maneira especial. No dia 9 perd\u00edamos, pela manh\u00e3, Gal Costa, uma refer\u00eancia indiscut\u00edvel para v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es. Como dizia um amigo naquele dia, \u00e9 muito dif\u00edcil pensar o Brasil sem nomes como Gal Costa e, inevitavelmente no futuro, outros como Gil, Caetano, Bet\u00e2nia, Chico etc. Essa turma se confunde com a nossa trajet\u00f3ria de pa\u00eds das \u00faltimas seis d\u00e9cadas. Esse amigo, como eu, ainda sente a perda de Belchior que se foi h\u00e1 seis anos; agora, parece que uma gera\u00e7\u00e3o toda come\u00e7a a fechar seu ciclo.<\/p>\n\n\n\n<p>Eis que na tarde do mesmo dia morria Rolando Boldrin, figura de imenso valor na preserva\u00e7\u00e3o da cultura brasileira e na divulga\u00e7\u00e3o de artistas \u2013 famosos ou n\u00e3o \u2013 em seus programas televisivos. Sem contar sua carreira m\u00faltipla como compositor, int\u00e9rprete e ator. Falando de modo pessoal, a morte de Boldrin me tocou muito, porque cresci em um ambiente cultural caipira, o mesmo do qual ele procedia e fazia quest\u00e3o de enaltecer. O \u201cSr. Brasil\u201d, apelido merecido, parecia algu\u00e9m pr\u00f3ximo da gente como aqueles velhos conhecidos da inf\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>Um pouco recuperados do baque, eis que no dia 22 perd\u00edamos mais duas figuras importantes: Erasmo Carlos, o \u201cTremend\u00e3o\u201d, e Pablo Milan\u00e9s, um artista n\u00e3o brasileiro \u2013 refer\u00eancia da m\u00fasica cubana \u2013 muito importante para aquela gera\u00e7\u00e3o de cantores a que me referi. Para quem busca conhecer e valorizar a cultura brasileira, entendendo-a como parte da Am\u00e9rica Latina, perder esses dois no mesmo dia foi muito dif\u00edcil.<\/p>\n\n\n\n<p>Como se n\u00e3o bastasse, mal come\u00e7ou o ano de 2023 e morria Frei Chico, conhecido e admirado por quem valoriza a cultura popular n\u00e3o s\u00f3 em Minas Gerais \u2013 foi no Vale do Jequitinhonha que ele fez suas pesquisas e desenvolveu parte importante de seus trabalhos \u2013, mas em todo o Brasil. Tive a alegria de conhec\u00ea-lo no final dos anos 1990, quando fazia forma\u00e7\u00e3o com os frades franciscanos, embora n\u00e3o tivesse, na \u00e9poca, dimens\u00e3o da sua import\u00e2ncia. Sua presen\u00e7a marcante, sua voz forte e o inconfund\u00edvel vibrato. A quem ouviu Frei Chico cantando as cantigas do Vale algo de definitivo mudou na percep\u00e7\u00e3o da cultura popular em nosso pa\u00eds. Ele fazia a gente ter vontade de conhecer o Jequitinhonha. A prop\u00f3sito, um dos momentos \u00edmpares do ano passado foi ver Frei Chico no programa do Boldrin, junto com Rubinho do Vale. Um encontro de grandes!<\/p>\n\n\n\n<p>E o que fazer quando tais figuras morrem? N\u00e3o h\u00e1 substitutos para esses que citei e tantos outros que j\u00e1 se foram, com maior ou menor fama. Quando morrem os grandes, ficamos com um sentimento de orfandade. Para a minha gera\u00e7\u00e3o, essas figuras que morreram em 2022 t\u00eam a mesma idade de nossos pais, ou seja, s\u00e3o nossas refer\u00eancias art\u00edsticas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas \u00e9 preciso seguir. Mais que o merecido luto, grandes artistas merecem que divulguemos seus trabalhos. Como fazia o querido Boldrin que enfeitava o palco do programa com a fotografia de artistas brasileiros. Al\u00e9m disso, \u00e9 necess\u00e1rio que criemos condi\u00e7\u00f5es para que novas express\u00f5es apare\u00e7am em todas as formas art\u00edsticas. Fechado o horrendo ciclo de retrocessos que tivemos nos \u00faltimos anos, que a cultura seja novamente valorizada, que haja fomento p\u00fablico para a forma\u00e7\u00e3o de artistas nas comunidades e nas escolas. A melhor maneira de honrarmos a mem\u00f3ria dos grandes \u00e9 batalhar para que a arte flores\u00e7a em nosso pa\u00eds. A b\u00ean\u00e7\u00e3o, artistas que se foram!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 verdade que em todos os anos perdemos pessoas importantes na cultura brasileira. N\u00e3o digo \u201cfamosos\u201d porque esse termo costuma restringir o foco a quem ganha destaque nas m\u00eddias e, n\u00e3o poucas vezes, leva-nos a confundir fama com relev\u00e2ncia art\u00edstica. 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