{"id":1899,"date":"2020-07-23T13:32:43","date_gmt":"2020-07-23T16:32:43","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=1899"},"modified":"2020-07-23T13:32:44","modified_gmt":"2020-07-23T16:32:44","slug":"a-pandemia-e-a-incerteza-sobre-o-futuro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=1899","title":{"rendered":"A pandemia e a incerteza sobre o futuro"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/jos\u00e9-4.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1900\" width=\"345\" height=\"254\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/jos\u00e9-4.jpg 700w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/jos\u00e9-4-300x221.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/jos\u00e9-4-80x60.jpg 80w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/jos\u00e9-4-696x512.jpg 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/jos\u00e9-4-571x420.jpg 571w\" sizes=\"(max-width: 345px) 100vw, 345px\" \/><figcaption><strong>Jos\u00e9 Carlos Freire<\/strong><br>Mestre em Filosofia pela Faculdade S\u00e3o Bento\/ SP. Professor na UFVJM, campus de Te\u00f3filo Otoni<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>H\u00e1 um texto c\u00e9lebre na hist\u00f3ria do pensamento universal que trata sobre o tempo. Seu autor \u00e9 Agostinho de Hipona, fil\u00f3sofo de origem africana conhecido como Santo Agostinho, que viveu entre os anos 354 e 430 da nossa era.<\/p>\n\n\n\n<p>Com intuito de levar seus leitores a refletir sobre a vida e ajud\u00e1-los a estabelecer o que deve ser priorit\u00e1rio nas a\u00e7\u00f5es cotidianas, Agostinho prop\u00f5e uma profunda reflex\u00e3o sobre o tempo, tendo como refer\u00eancia os valores crist\u00e3os. Para o fil\u00f3sofo, n\u00e3o existe apenas um tempo, mas tr\u00eas! Aquilo que entendemos como \u201ctempo\u201d \u00e9, na verdade, um composto de passado, presente e futuro. Quanto ao passado a conclus\u00e3o \u00e9 evidente: ele j\u00e1 foi, ficou para tr\u00e1s, n\u00e3o volta mais. Sobre o futuro Agostinho \u00e9 igualmente enf\u00e1tico: ainda n\u00e3o se concretizou, portanto, assim como o passado ele tamb\u00e9m n\u00e3o existe.<\/p>\n\n\n\n<p>O que resta? O presente. Ainda assim com toda a sua fragilidade, j\u00e1 que consiste em um instante breve. Na verdade, o presente \u00e9 uma transi\u00e7\u00e3o cont\u00ednua: o futuro, que n\u00e3o existia, passa a existir e, imediatamente, vira passado&#8230; Se observarmos uma simples caminhada teremos a imagem adequada do que o fil\u00f3sofo aponta: o passo seguinte se torna passado t\u00e3o logo alternamos os p\u00e9s um atr\u00e1s do outro.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, o passado continua conosco. Assim como o futuro, de algum modo, tamb\u00e9m j\u00e1 se apresenta. O aparente paradoxo se resolve do seguinte modo: o passado aparece no presente como mem\u00f3ria; o futuro, como proje\u00e7\u00e3o. S\u00e3o tempos da mente, sem exist\u00eancia material. O que existe de real \u00e9 apenas o presente, no qual recordamos o que j\u00e1<\/p>\n\n\n\n<p>foi e projetamos na imagina\u00e7\u00e3o o que ainda n\u00e3o \u00e9. Uma poss\u00edvel defini\u00e7\u00e3o de sabedoria seria esta: viver o tempo presente sem apego ao passado e diminuindo ao m\u00e1ximo a ansiedade quanto ao futuro. Um presente assim vivido possibilitaria a prepara\u00e7\u00e3o para um bom futuro que, uma vez alcan\u00e7ado, transitaria ao passado de forma a nos deixar uma boa mem\u00f3ria. Agostinho n\u00e3o est\u00e1 criando tal reflex\u00e3o. Ela j\u00e1 existia em outras escolas filos\u00f3ficas anteriores. E vai voltar muitas vezes ao longo da hist\u00f3ria. Ser\u00e1 fundamental, por exemplo, no desenvolvimento da psican\u00e1lise.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas que import\u00e2ncia teria tal reflex\u00e3o, escrita h\u00e1 tantos s\u00e9culos, num contexto como o nosso? Por que o tempo se torna um tema t\u00e3o relevante diante da pandemia pelo coronav\u00edrus? A resposta mais direta, mesmo que n\u00e3o muito agrad\u00e1vel \u00e9 esta: situa\u00e7\u00f5es de crise extrema evidenciam o \u00f3bvio, mas que insistimos em n\u00e3o ver em tempos de paz. Em outras palavras: n\u00e3o foi o coronav\u00edrus que tornou a vida fr\u00e1gil, passageira e incerta. Ela sempre foi assim. Viver, por si, j\u00e1 \u00e9 um perigo constante, como lembrava Guimar\u00e3es Rosa.<\/p>\n\n\n\n<p>Caberia a todos n\u00f3s, portanto, aproveitar o contexto de pandemia e o consequente isolamento para realizar um balan\u00e7o da vida, eleger prioridades, abrir m\u00e3o de futilidades, cultivando o essencial dessa aventura t\u00e3o fugaz que \u00e9 a exist\u00eancia. Estar\u00edamos diante do que alguns chamam de janela de oportunidades: a vida nos oferecendo a chance de aperfei\u00e7oamento pessoal e coletivo. Perfeito. Mas nem tanto.<\/p>\n\n\n\n<p>Por dois motivos. Primeiramente, poucos de n\u00f3s temos condi\u00e7\u00f5es materiais que propiciem a viv\u00eancia da pandemia como momento de reflex\u00e3o. Basta como exemplo o fato de que muitos n\u00e3o tem como trabalhar em casa e, com isso, evitar maior chance de contamina\u00e7\u00e3o. A maioria \u00e9 obrigada a se arriscar dia a dia pela sobreviv\u00eancia. O correr da semana se tornou uma batalha constante e angustiante. O segundo motivo \u00e9 mais grave: a reflex\u00e3o de Agostinho n\u00e3o se aplica ao Brasil. Pelo menos n\u00e3o diretamente. E n\u00e3o \u00e9 simplesmente porque viveu muito antes de n\u00f3s existirmos como pa\u00eds. Explico-me melhor.<\/p>\n\n\n\n<p>Tiv\u00e9ssemos superado as marcas hist\u00f3ricas da heran\u00e7a colonial, aspectos como a desigualdade social gritante, viol\u00eancia ostensiva \u00e0 popula\u00e7\u00e3o mais pobre, resqu\u00edcios do escravismo, sistema educacional deficiente e tantos outros problemas seriam apenas assunto para a mem\u00f3ria. Viver\u00edamos um presente diferente e tais quest\u00f5es fariam parte do passado.<\/p>\n\n\n\n<p>Ocorre que n\u00e3o \u00e9 assim: o Brasil \u00e9 um pa\u00eds em que o passado insiste em se reatualizar constantemente. Mudando um pouco os tempos de Agostinho, \u00e9 como se em nosso pa\u00eds n\u00e3o existisse presente e nem futuro, apenas o passado revisitado. Condi\u00e7\u00f5es de vida de antes se repetem; doen\u00e7as antiqu\u00edssimas reaparecem; pr\u00e1ticas pol\u00edticas que imaginamos superadas ressurgem. Os exemplos seriam inumer\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o me parece que o problema esteja na formula\u00e7\u00e3o feita por Agostinho e sim na realidade dif\u00edcil de nosso pa\u00eds. Oxal\u00e1 pud\u00e9ssemos passar pela pandemia com seguran\u00e7a e, com isso, poder refletir sobre seu sentido em nossas vidas. Quem sabe numa situa\u00e7\u00e3o futura. Por agora, \u00e9 um salve-se quem puder. Repetimos a velha pr\u00e1tica de correr atr\u00e1s do preju\u00edzo, evitar o tristemente terr\u00edvel para garantir que se d\u00ea \u201capenas\u201d o terr\u00edvel. E vamos tomando com naturalidade o n\u00famero de milhares de mortos que se avoluma. A tal ponto que cem mortos a menos, de um dia para o outro, passa a ser motivo de consola\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>De trag\u00e9dia em trag\u00e9dia, vamos improvisando uma vida nacional na qual elementos t\u00e3o importantes como o bem estar da popula\u00e7\u00e3o, o cuidado com os recursos naturais, seguran\u00e7a alimentar, planejamento econ\u00f4mico subordinado \u00e0 vida digna como valor, garantia do emprego e da moradia decentes e tantas tarefas que deveriam estar na ordem do dia passam para o segundo plano. Em primeiro lugar os velhos interesses, velhos arranjos, velhas estruturas de poder. E a cada dia novo remendo no pano que se rasga. Nesta l\u00f3gica do mal menor, n\u00e3o h\u00e1 proje\u00e7\u00e3o sobre o futuro que possa ser feita. Ele est\u00e1 interditado. O presente se consome todo na exaustiva luta contra os fantasmas do passado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 um texto c\u00e9lebre na hist\u00f3ria do pensamento universal que trata sobre o tempo. Seu autor \u00e9 Agostinho de Hipona, fil\u00f3sofo de origem africana conhecido como Santo Agostinho, que viveu entre os anos 354 e 430 da nossa era. 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