{"id":19385,"date":"2023-04-01T09:19:05","date_gmt":"2023-04-01T12:19:05","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=19385"},"modified":"2023-04-04T00:14:36","modified_gmt":"2023-04-04T03:14:36","slug":"quem-voce-leva-na-van","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=19385","title":{"rendered":"Quem voc\u00ea leva na Van?"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Jose-Carlos-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-19387\" width=\"510\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Jose-Carlos-1.jpg 700w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Jose-Carlos-1-300x221.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Jose-Carlos-1-80x60.jpg 80w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Jose-Carlos-1-696x512.jpg 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Jose-Carlos-1-571x420.jpg 571w\" sizes=\"(max-width: 510px) 100vw, 510px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong><em>Jos\u00e9 Carlos Freire<\/em><br><em>Professor na UFVJM, Campus de Te\u00f3filo Otoni\/MG<\/em><\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A vida \u00e9 uma instigante aventura que tentamos entender a cada dia e sempre resta muito para aprender. \u00c9 como uma viagem na qual somos colocados: \u00e9 no transcurso, aos trancos e barrancos, que vamos nos localizando, conhecendo-nos um pouco mais a cada curva e conquistando momentos de alegria que compensam toda a labuta. \u00c9 como diz Ad\u00e9lia Prado: \u201cA vida \u00e9 mais tempo alegre do que triste\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Tem um elemento que a torna mais interessante: as nossas rela\u00e7\u00f5es. Algumas j\u00e1 herdamos de sa\u00edda: o n\u00facleo familiar em que crescemos as pessoas que se constituem como nossas refer\u00eancias, nem sempre pais, nem sempre m\u00e3es, mas sempre refer\u00eancias. Depois avan\u00e7amos para outros v\u00ednculos, de colegas de estudo e trabalho a outros tantos. H\u00e1 um v\u00ednculo, por\u00e9m, que \u00e9 especial. \u00c9 a amizade.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o por acaso, em toda a hist\u00f3ria da filosofia \u2013 que j\u00e1 traz na sua etimologia a no\u00e7\u00e3o de amizade com a sabedoria \u2013 \u00e9 constante a reflex\u00e3o sobre esse sentimento t\u00e3o nobre. Na Gr\u00e9cia Antiga, ber\u00e7o da filosofia ocidental, j\u00e1 nos primeiros pensadores h\u00e1 um destaque para esse v\u00ednculo \u00fanico entre pessoas. Toda a filosofia de Plat\u00e3o, por exemplo, articula-se na forma de di\u00e1logos, o que, por sua natureza, exige uma predisposi\u00e7\u00e3o afetiva entre os debatedores. Por sinal, \u00e9 o nosso olhar moderno que nos faz pensar a Academia de Plat\u00e3o como se fosse uma Universidade do nosso tempo, na dist\u00e2ncia abissal que \u00e9 comum entre quem ensina e quem aprende. Sem a neurose da grade curricular ou da formatura, o que l\u00e1 se dava era outra coisa. Era, sobretudo, o conv\u00edvio com o mestre e com os companheiros de estudo.<\/p>\n\n\n\n<p>Arist\u00f3teles, por sua vez, entendia a amizade como uma virtude fundamental. O amigo \u00e9 um outro de n\u00f3s, o que implica diretamente na no\u00e7\u00e3o de complementaridade. Ningu\u00e9m \u00e9 pleno sem amigos \u2013 simples assim. O mesmo vale para as escolas filos\u00f3ficas como o epicurismo, talvez aquela em que a reflex\u00e3o sobre a amizade tenha encontrado o ponto mais alto. Para Epicuro, de todas as coisas que a sabedoria nos oferece, a amizade \u00e9 a maior delas. O que ressignifica a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de filosofia, pois a busca da sabedoria teria como resultado mais efetivo a conquista da amizade.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o ser\u00e1 diferente ao longo de todo o pensamento filos\u00f3fico futuro, a ponto de a amizade ser colocada acima do amor, aqui entendido como rela\u00e7\u00e3o que nasce da paix\u00e3o entre duas pessoas. Michel de Montaigne, no s\u00e9culo XVI, defendia que o amor \u00e9 um fogo cego que nos prende enquanto a amizade \u00e9 um calor constante e calmo. Novamente os poetas acertam em cheio: \u201cA amizade \u00e9 um amor que nunca morre\u201d, dir\u00e1 M\u00e1rio Quintana.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo muito bem, tudo muito bom, mas h\u00e1 um detalhe: falta combinar com os\/as amigos\/as. N\u00e3o existe a amizade em abstrato, j\u00e1 que \u00e9 um sentimento que se cultiva entre pessoas. Posso ser um apreciador da amizade como virtude e, no entanto, n\u00e3o ter amigos\/as. Isso nos leva a pensar algo muito simples e muito s\u00e9rio: quais pessoas posso dizer que s\u00e3o minhas amigas?<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Quem-voce-leva-na-Van.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-19389\" width=\"580\" height=\"368\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Quem-voce-leva-na-Van.jpg 600w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Quem-voce-leva-na-Van-300x191.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 580px) 100vw, 580px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-verse\"><strong>A imagem que me vem \u00e9 de uma Van<\/strong> \u2013 eu ia dizer uma Kombi, mas soaria pr\u00e9-hist\u00f3rico. A vida de cada um de n\u00f3s \u00e9 uma viagem na qual seguimos com nossa Van e nela levamos nossa bagagem e as pessoas que queremos que estejam ali e que \u2013 por nosso convite e concord\u00e2ncia delas \u2013 topam seguir conosco. A amizade \u00e9 algo t\u00e3o m\u00e1gico que permite que uma pessoa possa estar em mais de uma Van; n\u00e3o h\u00e1 exclusividade, j\u00e1 que uma das caracter\u00edsticas de uma verdadeira amizade \u00e9 permitir a liberdade \u2013 jamais prender.<\/pre>\n\n\n\n<p>Mas a viagem da vida, como todas as que fazemos, tem percal\u00e7os, acidentes, contratempos, perda do caminho, pneu furado etc. \u00c9 nesses momentos que pessoas sobem, outras descem. H\u00e1 algumas que desejamos imensamente que sigam na nossa Van, mas preferem descer \u2013 vida que segue, literalmente.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 outras cujas descidas s\u00e3o por nossa responsabilidade: n\u00e3o cuidamos, n\u00e3o cultivamos o v\u00ednculo. A rela\u00e7\u00e3o esfria, o afeto se vai e elas ficam em uma curva da estrada. \u00c0s vezes \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o que caminha para se configurar como amizade s\u00f3lida, mas deixamos a planta sem \u00e1gua e ela murcha. Ou ent\u00e3o algo mais s\u00e9rio: quando pisamos na bola. Vacilar com quem quer que seja \u00e9 duro, mas vacilar com um\/a amigo\/a \u00e9 pior. Nesse caso, a descida da Van \u00e9 um processo que deixa marcas.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m o imponder\u00e1vel. Situa\u00e7\u00f5es diversas em que, sem que se possa responsabilizar A ou B, a amizade simplesmente evapora. Mudan\u00e7as geogr\u00e1ficas, a din\u00e2mica da vida, as escolhas de cada pessoa, a vis\u00e3o de mundo que se modifica. Cada ser \u00e9 um misterioso oceano. Esses casos costumam doer um pouco mais. Um ex-amor \u00e9 do\u00eddo, mas faz parte. Um ex-amigo, uma ex-amiga \u00e9 algo que nos toca mais fundo. Fica uma saudade que, parafraseando Montaigne, n\u00e3o \u00e9 um fogo que irrompe, mas uma dor constante. \u00c9 um buraco na alma.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, existem ainda aquelas pessoas que julgamos amigas, mas que, com o tempo, percebemos que de fato n\u00e3o s\u00e3o; no fundo, s\u00e3o presen\u00e7as que n\u00e3o nos fazem bem. Nesses casos, o melhor que podemos fazer para n\u00f3s e para elas \u00e9 que as convidemos a descer na pr\u00f3xima parada. E que sejam felizes em outras vans.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, est\u00e1 mais perto da sabedoria a pessoa que leva a s\u00e9rio as amizades que tem. E vale o alerta: parente pode at\u00e9 evoluir para amigo\/a, mas s\u00e3o poucos os casos, pois o v\u00ednculo \u00e9 distinto; colegas de estudo ou de trabalho at\u00e9 poder\u00e3o subir de n\u00edvel em nosso sentimento, mas n\u00e3o necessariamente. J\u00e1 entre os contatos de redes sociais \u2013 indevidamente nomeados de amigos, como se fosse poss\u00edvel caber centenas de pessoas numa Van \u2013 pode ser que haja um\/a ou outro\/a que venha a fazer conosco a viagem. Por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 uma curtida de foto ou marca\u00e7\u00e3o de postagem que garante a subida na Van. Contato \u00e9 contato, amizade \u00e9 outra coisa.<\/p>\n\n\n\n<p>A verdade \u00e9 que a maioria das pessoas que encontramos \u2013 incluindo aquelas das redes sociais \u2013 s\u00e3o experi\u00eancias ocasionais. Esbarramos com elas numa parada da viagem, num posto de gasolina, num sem\u00e1foro e \u00e9 s\u00f3. Quem realmente comp\u00f5e o sentido mais profundo de nossa exist\u00eancia \u00e9 quem vai l\u00e1 apertadinho na Van, \u00e0s vezes por d\u00e9cadas, suportando a nossa chatice, ajudando-nos a encontrar o caminho e a superar as dificuldades, partilhando conosco a jornada. Para dizer de modo mais direto: amigos\/as s\u00e3o poucos\/as, por isso s\u00e3o t\u00e3o valiosos\/as.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o precisa estar o tempo todo ao nosso lado nem telefonar (essa pr\u00e1tica t\u00e3o antiga) toda semana, porque \u00e9 poss\u00edvel que algu\u00e9m fique tempos distante, anos at\u00e9, e ainda esteja em nossa Van. \u00c9 outra magia da amizade. Como diz a can\u00e7\u00e3o de Renato Teixeira e Dominguinhos: \u201cVerdadeiros amigos sabem entender o sil\u00eancio e manter a presen\u00e7a mesmo quando ausentes\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Que a viagem de cada um de n\u00f3s seja boa, na medida do poss\u00edvel. Dirijamos com cuidado, com paci\u00eancia e aten\u00e7\u00e3o a tudo que encontrarmos pela estrada. E acima de tudo, cuidemos de levar conosco as pessoas que nos s\u00e3o realmente importantes, aquelas que desejamos que estejam, que topam e merecem estar em nossa Van.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Contato<\/strong>: freire.jose@hotmail.com<\/h3>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Ilustra\u00e7\u00e3o<\/strong>: Vin\u00edcius Figueiredo<\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A vida \u00e9 uma instigante aventura que tentamos entender a cada dia e sempre resta muito para aprender. \u00c9 como uma viagem na qual somos colocados: \u00e9 no transcurso, aos trancos e barrancos, que vamos nos localizando, conhecendo-nos um pouco mais a cada curva e conquistando momentos de alegria que compensam toda a labuta. \u00c9 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":19388,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"rop_custom_images_group":[],"rop_custom_messages_group":[],"rop_publish_now":"initial","rop_publish_now_accounts":[],"rop_publish_now_history":[],"rop_publish_now_status":"pending","footnotes":""},"categories":[24],"tags":[683,5294],"class_list":["post-19385","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao","tag-jose-carlos-freire","tag-quem-voce-leva-na-van"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/19385"}],"collection":[{"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=19385"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/19385\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19392,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/19385\/revisions\/19392"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/19388"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=19385"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=19385"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=19385"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}