{"id":19568,"date":"2023-04-15T16:26:33","date_gmt":"2023-04-15T19:26:33","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=19568"},"modified":"2023-04-15T16:26:34","modified_gmt":"2023-04-15T19:26:34","slug":"itambacuri-faz-150-anos-uma-rica-historia-dispensa-romantismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=19568","title":{"rendered":"Itambacuri faz 150 anos: uma rica hist\u00f3ria dispensa romantismo"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Juliana-Lemes-2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-19569\" width=\"329\" height=\"443\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Juliana-Lemes-2.jpg 700w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Juliana-Lemes-2-223x300.jpg 223w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Juliana-Lemes-2-696x937.jpg 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Juliana-Lemes-2-312x420.jpg 312w\" sizes=\"(max-width: 329px) 100vw, 329px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong><strong>Juliana Lemes da Cruz.<\/strong><\/strong><br><strong><strong>Doutoranda em Pol\u00edtica Social \u2013 UFF.<\/strong><\/strong><br><strong><strong>Pesquisadora GEPAF\/UFVJM.<\/strong><\/strong><br><strong><strong>Coordenadora do Projeto MLV.<\/strong><\/strong><br><strong><strong>Contato: <\/strong><a href=\"mailto:julianalemes@id.uff.br\"><strong>julianalemes@id.uff.br<\/strong><\/a><\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Em tempos de reflex\u00e3o sobre as implica\u00e7\u00f5es de epis\u00f3dios do passado para o desenvolvimento das gera\u00e7\u00f5es futuras, celebrar os 150 anos do munic\u00edpio de Itambacuri n\u00e3o deve estar limitado \u00e0s comemora\u00e7\u00f5es festivas de 13 de abril. A rica hist\u00f3ria, oral e documentada por meio de registros fotogr\u00e1ficos, v\u00eddeos, relat\u00f3rios, artigos e livros dispensa o habitual romantismo ao se tratar do anivers\u00e1rio de um munic\u00edpio, mesmo que ele seja sua terra natal.<\/p>\n\n\n\n<p>Como itambacuriense que sou, decidi expor um breve relato pessoal sobre esta minha condi\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que me \u00e9 leg\u00edtima. Antes disso, dizer o qu\u00e3o simb\u00f3lico foi conhecer e reconhecer minha gente por meio dos atentos olhares das fontes que mais consultei para ter acesso a uma hist\u00f3ria que n\u00e3o fui apresentada na escola. Falo dos pesquisadores Izabel Missagia; M\u00e1rcio Achtschim; Geralda Chaves; C\u00e9zar Moreno; Wallace Moraes; Eduardo Ribeiro; e do Grupo de Extens\u00e3o e Pesquisa em Agricultura Familiar (GEPAF\/ UFVJM). Suas publica\u00e7\u00f5es colaboram com o fortalecimento da mem\u00f3ria regional. Afinal, a fun\u00e7\u00e3o dos registros \u00e9 documentar a hist\u00f3ria que tende a se perder se limitada \u00e0 difus\u00e3o oral (falado). A riqueza das viv\u00eancias e saberes partilhados oralmente \u00e9 incontest\u00e1vel, mas, pessoas passam em algumas d\u00e9cadas, documentos perduram por gera\u00e7\u00f5es, preservando as mem\u00f3rias dos que j\u00e1 se foram.<\/p>\n\n\n\n<p>Com pouco mais de 20 mil habitantes, Itambacuri est\u00e1 distante 30km de Te\u00f3filo Otoni, o munic\u00edpio polo regional. Est\u00e1 localizado no Vale do Mucuri (territorialmente) e no Vale do Rio Doce (bacia hidrogr\u00e1fica), comportando uma das celebra\u00e7\u00f5es cat\u00f3licas mais tradicionais da regi\u00e3o: a Festa de 02 de agosto, em homenagem \u00e0 sua Padroeira: \u201cNossa Senhora dos Anjos\u201d. No per\u00edodo de sua formaliza\u00e7\u00e3o, no final do s\u00e9culo XIX, destacava-se no Brasil uma esp\u00e9cie de pol\u00edtica de exterm\u00ednio dos povos ind\u00edgenas por parte dos colonizadores, a fim da conquista de novos territ\u00f3rios. Na regi\u00e3o de Itambacuri, ind\u00edgenas resistentes fugidos de conflitos adentraram as densas florestas das regi\u00f5es do Rio Doce e Mucuri, espa\u00e7o em que foram alvo de cruel viol\u00eancia contra seus corpos e sua cultura.<\/p>\n\n\n\n<p>Os autores de livros tradicionais sobre a hist\u00f3ria do munic\u00edpio, quando passam pelo assunto, o fazem de forma breve e superficial, sem \u00eanfase no massacre dos povos origin\u00e1rios. No transcurso dessa secular hist\u00f3ria, tamb\u00e9m foram destaques: a derrubada das matas; a ca\u00e7ada, captura e matan\u00e7a dos ind\u00edgenas \u2013 os borum, pejorativamente nomeados de \u201cbotocudos\u201d, bem como a cultura que os envolvia; e mais tarde, a explora\u00e7\u00e3o de pedras preciosas.<\/p>\n\n\n\n<p>Fato \u00e9 que o projeto inicial de mais de um s\u00e9culo tem se cumprido, com raros, mas, louv\u00e1veis esfor\u00e7os em contr\u00e1rio. Temos perdido nossas mem\u00f3rias. Sem clareza sobre minha pr\u00f3pria hist\u00f3ria e de meus antepassados, muita coisa foi sepultada junto de quem as viveu. S\u00f3 sei que ouvi que minha bisav\u00f3 foi \u201capanhada no la\u00e7o\u201d \u2013 uma refer\u00eancia \u00e0 captura de crian\u00e7as ind\u00edgenas.<\/p>\n\n\n\n<p>Na minha inf\u00e2ncia, as turmalinas que meu av\u00f4 guardava na gaveta chamaram minha aten\u00e7\u00e3o. A combina\u00e7\u00e3o do cigarro com o insalubre ambiente da mina que ele cuidava, destruiu seus pulm\u00f5es. V\u00f4 Nelson era preto, negro retinto e analfabeto. Foi um dos tantos que extraindo riqueza, n\u00e3o ficou rico. Morreu pobre e administrando o sal\u00e1rio m\u00ednimo da aposentadoria por invalidez. Ainda assim, n\u00e3o se cansava de me dizer: \u201cEstuda minha filha, estuda! O estudo \u00e9 a \u00fanica coisa que ningu\u00e9m te toma\u201d. Cresci com esse conselho como um mantra. E, errado, o velho Nelson n\u00e3o estava. Hoje, imagino quanta rasteira o caboclo deve ter levado por n\u00e3o ter sido sujeito letrado ou, no m\u00ednimo, malandro.<\/p>\n\n\n\n<p>Nasci e vivi pouco mais de uma d\u00e9cada da minha inf\u00e2ncia em Itambacuri. Segui os passos da fam\u00edlia que honrava a tradi\u00e7\u00e3o da conhecida cidade franciscana, de tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica e marcante para religiosos de toda regi\u00e3o. Passei pela catequese e sonhava em estudar no Col\u00e9gio Santa Clara. No passado, a reconhecida escola de meninas, administrada por freiras. Jamais estudei no \u201cColej\u00e3o\u201d, mas sim, no antigo Gin\u00e1sio. Hoje, na escola CEPI. Minha primeira inf\u00e2ncia passei na Escola Frei Gaspar de M\u00f3dica. L\u00e1 foi onde estudei com colegas de mundos muito diferentes. De um lado, a menina rebelde, \u00f3rf\u00e3 de m\u00e3e, abandonada pelo pai e criada com a av\u00f3 em um barraco de dois c\u00f4modos com mais tr\u00eas irm\u00e3os menores. De outro, filhos das fam\u00edlias mais tradicionais da cidade, comportados, ou, mimados demais, herdeiros das refer\u00eancias de latifundi\u00e1rios e pol\u00edticos locais.<\/p>\n\n\n\n<p>Morei fora de Itambacuri de 1997 a 2005. Retornando, atestei alguns avan\u00e7os e a persist\u00eancia da pol\u00edtica de apagamento das mem\u00f3rias pouco convenientes para alguns que documentavam os fatos hist\u00f3ricos. Eu, como itambacuriense, alfabetizada e iniciada nos estudos fundamentais na cidade, n\u00e3o conhecia vers\u00f5es n\u00e3o romantizadas da hist\u00f3ria de forma\u00e7\u00e3o da minha gente. S\u00f3 lia sobre gl\u00f3rias, conquistas, riqueza e beleza. Um mundo paralelo que se chocava com a dura realidade da \u00e9poca. Somente na faculdade tive acesso ao que nunca havia imaginado. Conhecer a hist\u00f3ria de onde somos e\/ou de onde vivemos nos ajuda a interpretar as rela\u00e7\u00f5es em sociedade. Sabendo onde pisamos, elaboramos as perguntas e chegamos \u00e0s respostas.<\/p>\n\n\n\n<p>Conhecer a hist\u00f3ria nos permite a compreens\u00e3o de quest\u00f5es hist\u00f3ricas aos munic\u00edpios interioranos, como em \u201cIty\u201d: a viol\u00eancia em raz\u00e3o da polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-partid\u00e1ria; a camuflagem da pobreza como vergonha individual; os conflitos agr\u00e1rios, com avan\u00e7o dos grandes sobre os pequenos; a intensa migra\u00e7\u00e3o populacional (irregular) para o exterior, especialmente Portugal e Estados Unidos; a nega\u00e7\u00e3o da desigualdade socioecon\u00f4mica por parte dos pr\u00f3prios marginalizados\/pobres; e a cultura clientelista, que naturaliza a troca de favores, misturando o que \u00e9 privado com o que \u00e9 p\u00fablico. Desmontar o que ainda persiste sob nova roupagem n\u00e3o parece t\u00e3o simples. Mas, reconhecer as lacunas j\u00e1 constitui um passo importante para que, ao menos, possamos romantizar uma Itambacuri melhor para se viver ao longo dos pr\u00f3ximos 150 anos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em tempos de reflex\u00e3o sobre as implica\u00e7\u00f5es de epis\u00f3dios do passado para o desenvolvimento das gera\u00e7\u00f5es futuras, celebrar os 150 anos do munic\u00edpio de Itambacuri n\u00e3o deve estar limitado \u00e0s comemora\u00e7\u00f5es festivas de 13 de abril. 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