{"id":19699,"date":"2023-04-28T13:48:54","date_gmt":"2023-04-28T16:48:54","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=19699"},"modified":"2023-05-01T23:37:13","modified_gmt":"2023-05-02T02:37:13","slug":"um-prego-no-meio-do-caminho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=19699","title":{"rendered":"Um prego no meio do caminho \u00a0"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Jose-Carlos-3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-19700\" width=\"456\" height=\"335\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Jose-Carlos-3.jpg 700w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Jose-Carlos-3-300x221.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Jose-Carlos-3-80x60.jpg 80w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Jose-Carlos-3-696x512.jpg 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Jose-Carlos-3-571x420.jpg 571w\" sizes=\"(max-width: 456px) 100vw, 456px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong><em>Jos\u00e9 Carlos Freire<\/em><br><em>Professor na UFVJM, Campus de Te\u00f3filo Otoni\/MG<\/em><\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>A borracharia estava ainda vazia, apenas um servi\u00e7o no pneu de uma moto. Em seguida, seria a minha vez. Vendo a agilidade do borracheiro relaxei um pouco. J\u00e1 abrandava o estresse causado pela correria de trocar o pneu de manh\u00e3zinha para n\u00e3o atrasar a rotina do dia. Permitia-me, agora, observar o entorno. A rodovia com seu vai e vem; a \u00e1gua turva no pneu velho a juntar mosquito da dengue; aquela constru\u00e7\u00e3o do outro lado que se iniciou h\u00e1 cerca de uma d\u00e9cada e at\u00e9 hoje n\u00e3o saiu do lugar. O sol dava sinais do calor que faria.<\/p>\n\n\n\n<p>Pude perceber seu cansa\u00e7o quando come\u00e7ou a mexer no meu pneu. Salvando-me da dificuldade de escolher o que dizer, ele se adiantou: \u201c\u00c9 rapaz! Esse \u00e9 o \u00faltimo\u201d. \u201cDescansar, n\u00e9?, arrisquei. Ent\u00e3o ele se abriu, contando que desde \u00e0s sete da manh\u00e3 do dia anterior estava de plant\u00e3o. Vinte e quatro horas no trampo. Perguntei-lhe sobre a madrugada e ele se mostrou tranquilo. \u201cMedo? Que horas o senhor acha que n\u00e3o precisa ter medo?\u201d. Sem resposta, fingi uma urg\u00eancia no celular, a estrat\u00e9gia moderna em qualquer situa\u00e7\u00e3o desconfort\u00e1vel. N\u00e3o existe mais, por exemplo, a conversa do elevador. Cada um no seu dispositivo, protegido dos outros e do mundo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"350\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/unnamed-file.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-19701\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/unnamed-file.jpeg 600w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/unnamed-file-300x175.jpeg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>O servi\u00e7o demoraria. Tinha que lixar, colocar o remendo, esperar. Paci\u00eancia. De repente, o sossego da manh\u00e3 foi quebrado: um motoqueiro chegou nervoso, sentado sobre o tanque da moto para n\u00e3o estragar o pneu de traz j\u00e1 vazio. O entregador de aplicativo, sem que ningu\u00e9m perguntasse, soltou os cachorros. O pneu havia furado na sa\u00edda de casa. Justo naquele dia, que tinha tanta entrega pra fazer. A culpa? Claro, do maldito prego que a essa altura, enquanto aguardava o meu pneu colar, o borracheiro j\u00e1 localizara.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de uma sequ\u00eancia de improp\u00e9rios que n\u00e3o conv\u00e9m reproduzir, o borracheiro, com a paci\u00eancia de J\u00f3, disse: \u201cMas mo\u00e7o, a\u00ed voc\u00ea me quebra\u201d. O entregador mudou de express\u00e3o; eu, com cara de vaso de planta, onde estava fiquei. \u201cEsse que voc\u00ea t\u00e1 xingando \u00e9 meu brother, velho!\u201d. Ent\u00e3o, tranquilamente come\u00e7ou a filosofar sobre a import\u00e2ncia do prego na vida do borracheiro. Sem um, o outro n\u00e3o tem trabalho, n\u00e3o sustenta a fam\u00edlia. S\u00e3o normais, ele nos levou a pensar, esses problemas que acontecem ao acaso, que a gente n\u00e3o controla. \u201cN\u00e3o pode \u00e9 perder a cabe\u00e7a. Furou, colou, seguiu\u201d, disse, fechando a conversa.<\/p>\n\n\n\n<p>Voc\u00eas j\u00e1 viram crian\u00e7a quando se avisa que n\u00e3o vai ter jil\u00f3 no almo\u00e7o? Pois \u00e9, foi a cara do motoqueiro. A raiva foi cedendo lugar a um semblante sereno. Ele largou at\u00e9 o celular e come\u00e7ou a trocar ideia com o borracheiro. Falaram do jogo do Atl\u00e9tico, da crise econ\u00f4mica, do feriado que estava pra chegar. E o tempo correu leve. Meu pneu ficou pronto e, quase com pesar, fui embora, deixando os dois que pareciam nem se lembrar mais de pneu, entregas e cansa\u00e7o. Haviam conclu\u00eddo o \u00f3bvio: a vida \u00e9 assim.<\/p>\n\n\n\n<p>Fiquei matutando aquilo o dia todo. E n\u00e3o \u00e9 que o borracheiro tem raz\u00e3o? Sem prego, n\u00e3o h\u00e1 borracharia. At\u00e9 h\u00e1, mas aquelas sofisticadas. Borracharia raiz, essas de beira de rodovia, precisam de prego na estrada, na rua, na garagem. Um prego. \u00c9 o tipo de coisa sobre a qual n\u00e3o compensa perder os cabelos, resta acatar a for\u00e7a incontorn\u00e1vel do acaso.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a raiva existe. Ela est\u00e1 l\u00e1, ou melhor, aqui, ali, em todo lugar. Sentimos raiva do bolo que queima no forno, da tampa da manteiga que cai virada para baixo, da torneira que pingou a noite toda. Raiva por todos os lados. Sobre isso os antigos tinham uma vis\u00e3o interessante, em especial uma escola filos\u00f3fica grega que chega at\u00e9 Roma e \u00e9 conhecida como Estoicismo. Em geral, essa turma, na qual est\u00e3o figuras como S\u00eaneca, tem em vista a busca do equil\u00edbrio, a \u201ctranquilidade da alma\u201d, por assim dizer.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o devemos nos perturbar pelo que n\u00e3o se justifica. \u201cRaiva do prego?\u201d, perguntaria S\u00eaneca ao motoqueiro. \u201cOra!\u201d. O borracheiro, que a vida de trabalho tornou-se est\u00f3ico, foi o terapeuta daquele jovem entregador numa manh\u00e3 dif\u00edcil. Ajudou-o a dissipar um afeto t\u00e3o nocivo que em nada ajuda, apenas envenena e atrapalha nossa capacidade de pensar. Basta, na maioria dos casos, que respiramos fundo e organizamos as ideias para entender o que nos deixou irados. Bolos queimam, torneiras pingam, tampas caem, pregos furam pneus. Ali\u00e1s, n\u00e3o apenas furam, mas s\u00e3o parceiros dos borracheiros.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso n\u00e3o quer dizer, no entanto, que n\u00e3o devemos nos enraivecer por nada. Ficar tranquilos como \u00e1gua de po\u00e7o, como diriam os ga\u00fachos. A raiva surge de um acontecimento ao qual damos certa interpreta\u00e7\u00e3o. A quest\u00e3o \u00e9 o que fazer com eventos como a guerra, a injusti\u00e7a, o descaso dos servi\u00e7os p\u00fablicos? Aceit\u00e1-los e seguir a vida? N\u00e3o \u00e9 isso que diriam os mesmos est\u00f3icos. O ponto central para eles era o modo como lidamos com a raiva, o que a futura psicologia exploraria com profundidade. Agir sob raiva \u00e9 risco na certa. Mas isso n\u00e3o quer dizer que a causa da raiva deva ser simplesmente aceita: ela precisa ser refletida para que, sobre ela, tome-se a melhor decis\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma coisa, portanto, \u00e9 o prego que acidentalmente cai na rua e fura o pneu do carro. Isso me ensinou o borracheiro naquela manh\u00e3: \u201cFurou, colou, seguiu\u201d. Mas outra coisa \u00e9, por exemplo, o buraco na rua ou na rodovia que causa a quebra do carro. \u201cCulpa do excesso de chuvas\u201d, dir\u00e1 um desses pragm\u00e1ticos governantes. N\u00e3o! Chuva chove, governos administram. Se algu\u00e9m se acidentar em raz\u00e3o da chuva \u00e9 uma coisa; se algu\u00e9m se machuca em raz\u00e3o da conserva\u00e7\u00e3o das estradas \u00e9 outra bem diferente.<\/p>\n\n\n\n<p>Parece ser esse um dos grandes desafios da nossa vida pessoal e social: investigar as causas de nossos afetos, em especial, a raiva. Ela pode simplesmente ser um modo desnecess\u00e1rio de tornar o dia ruim; mas ela pode tamb\u00e9m ser a alavanca para que nos indignemos com algo que est\u00e1 errado e busquemos algum modo de reparar uma injusti\u00e7a. Nem brigar com o que \u00e9 normal, nem naturalizar o que n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Bolo que se esquece no forno \u00e9 uma coisa, crian\u00e7a sem alimento \u00e9 outra; a torneira que pinga \u00e9 uma coisa; casa sem \u00e1gua encanada na periferia \u00e9 outra; o prego na rua \u00e9 uma coisa, buraco na estrada \u00e9 outra. Saber distinguir tais situa\u00e7\u00f5es \u00e9 fundamental. Para que busquemos entender o que nos causa raiva. E, o mais importante, saber o que fazer com ela.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Contato<\/strong>: freire.jose@hotmail.com<\/h3>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Ilustra\u00e7\u00e3o<\/strong>: J\u00falia Freire Dias <\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A borracharia estava ainda vazia, apenas um servi\u00e7o no pneu de uma moto. Em seguida, seria a minha vez. Vendo a agilidade do borracheiro relaxei um pouco. 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