{"id":20014,"date":"2023-05-27T20:26:47","date_gmt":"2023-05-27T23:26:47","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=20014"},"modified":"2023-05-31T20:51:15","modified_gmt":"2023-05-31T23:51:15","slug":"por-favor-nao-acelere-meu-audio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=20014","title":{"rendered":"Por favor, n\u00e3o acelere meu \u00e1udio"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Jose-Carlos.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-20015\" width=\"432\" height=\"318\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Jose-Carlos.jpg 700w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Jose-Carlos-300x221.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Jose-Carlos-80x60.jpg 80w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Jose-Carlos-696x512.jpg 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Jose-Carlos-571x420.jpg 571w\" sizes=\"(max-width: 432px) 100vw, 432px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong><em>Jos\u00e9 Carlos Freire<\/em><br><em>Professor na UFVJM, Campus de Te\u00f3filo Otoni\/MG<\/em><\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Fazia muito tempo que n\u00e3o falava com ele, j\u00e1 que desde a gradua\u00e7\u00e3o nunca mais tive not\u00edcias. Retomar seu contato foi um desses milagres que a tecnologia nos permite. De algu\u00e9m para algu\u00e9m e dessa pessoa para outra at\u00e9 que chegue naquela. Fiquei feliz de saber que est\u00e1 bem e tocando a vida, remando sua canoinha na velha cidade para onde retornou. Recordamos nossas discuss\u00f5es em sala de aula. Naquela \u00e9poca, era fervoroso o debate sobre o retorno da filosofia como disciplina regular no ensino formal e cada colega propunha sua vis\u00e3o. Para alguns, ensinar filosofia era apresentar os fil\u00f3sofos na hist\u00f3ria e ponto; para outros, o caminho seria discutir temas da atualidade; para uma turma mais contempor\u00e2nea, influenciada pela onda dos estudos Gilles Deleuze e F\u00e9lix Guattari, a filosofia teria o papel de criar conceitos. \u00c9 lament\u00e1vel que, hoje, estejamos um passo atr\u00e1s: brigando para que esta disciplina como outras n\u00e3o sejam exclu\u00eddas ou, o que \u00e9 pior, desfiguradas em seu conte\u00fado.<\/p>\n\n\n\n<p>Perguntei sobre a fam\u00edlia e me disse que est\u00e3o bem. N\u00e3o casou e nem quer. Mas mora com a irm\u00e3 e o sobrinho. \u201cAh, esse sobrinho\u2026\u201d, suspirou. \u201cVoc\u00ea acredita que o moleque tem catorze anos e acha que sabe tudo?!\u201d. Sorri, respondendo que tenho uma de treze e um de dez que n\u00e3o acham isso: eles t\u00eam certeza. \u201c\u00c9 normal, rapaz!\u201d, procurei acalm\u00e1-lo. \u201cPor isso que n\u00e3o vou ter filhos. De cada dez vezes que encontro com ele, onze ele est\u00e1 no celular. Se ao menos visse coisas interessantes&#8230;\u201d, arrematou, com uma pontinha de m\u00e1goa na voz.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Por-favor-nao-acelere-meu-audio-ILUSTRACAO.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-20018\" width=\"473\" height=\"343\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Por-favor-nao-acelere-meu-audio-ILUSTRACAO.jpg 574w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Por-favor-nao-acelere-meu-audio-ILUSTRACAO-300x217.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Por-favor-nao-acelere-meu-audio-ILUSTRACAO-324x235.jpg 324w\" sizes=\"(max-width: 473px) 100vw, 473px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o me contou o que mais o tinha deixado possesso: descobriu que dos muitos \u00e1udios que ele passava para o sobrinho indicando filmes, livros e m\u00fasicas, o que acontecia? O sobrinho os acelerava porque eram muito longos. \u201cRapaz\u201d, disse, preparando um desagravo, \u201cque diabo \u00e9 isso? Se n\u00e3o quer me ouvir, me fala que n\u00e3o mando mais. Pelo menos seria um sinal de considera\u00e7\u00e3o. Agora, acelerar o \u00e1udio porque \u00e9 longo? Ora! Longa \u00e9 a Divina Com\u00e9dia do Dante, a Odisseia de Homero. Sabe nada o moleque!\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Deixei que falasse, porque senti que a carga de educar o sobrinho adolescente lhe pesava muito e a rela\u00e7\u00e3o com a irm\u00e3 n\u00e3o era das melhores. Tentei argumentar sobre o tanto de mensagens que recebemos de an\u00fancio de cart\u00e3o, proposta de empr\u00e9stimo e coisas assim. \u201cIsso n\u00e3o tem nada a ver! Esses casos a\u00ed n\u00e3o tem nem que ouvir; \u00e9 cortar mesmo, sem ser grosso, \u00e9 claro. Mas n\u00e3o sou vendedor de nada, eu sou o Tio dele, rapaz!\u201d. Ap\u00f3s um tempo, mudamos de assunto. Falamos de desimport\u00e2ncias, criticamos a pol\u00edtica, essas coisas. E me despedi, dizendo que pensaria melhor sobre esse lance do \u00e1udio. Fiquei at\u00e9 de mandar uma mat\u00e9ria de jornal que havia lido h\u00e1 alguns meses sobre o tema, sem dar tanta import\u00e2ncia na \u00e9poca.<\/p>\n\n\n\n<p>E n\u00e3o \u00e9 que achei diversas reportagens? A conversa com ele, seguida da leitura, me fez levar a s\u00e9rio a no\u00e7\u00e3o de pressa ou o tal \u201ctempo acelerado\u201d de que tanto falamos. Acelerado por qu\u00ea? N\u00e3o tinha me atentado para o fato de que \u00e9 comum o uso de tal recurso nos v\u00eddeos e no quanto j\u00e1 \u00e9 tido como normal a pessoa acelerar epis\u00f3dios de uma s\u00e9rie, por exemplo, para chegar logo ao \u00faltimo. Isso \u00e9 assustador. Funciona, usando os termos presentes nas tais reportagens, como gatilho para o aumento da ansiedade. O resultado \u00e9 tr\u00e1gico para a sa\u00fade mental. Gente do s\u00e9culo passado como eu costuma enviar \u00e1udios gigantes ou ent\u00e3o o famoso \u201ctext\u00e3o\u201d. \u00c9 que ainda peguei a \u00e9poca das cartas com duas ou tr\u00eas p\u00e1ginas cada uma e que demoravam dias para ir e at\u00e9 meses para a resposta chegar. Quando o telefone se popularizou, ainda no pr\u00e9-hist\u00f3rico orelh\u00e3o de fichas, a conversa durava o m\u00e1ximo poss\u00edvel. Falar com algu\u00e9m a dist\u00e2ncia era um acontecimento m\u00e1gico.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde esse contato que fiz com o ex-colega de faculdade, tenho procurado me justificar quando envio \u00e1udio a algu\u00e9m. Geralmente aviso: \u201cOlha, ficou meio longo o \u00e1udio. Foi mal\u2026\u201d. Fico pensando o que se passa na cabe\u00e7a de quem pr\u00e9-visualiza uma mensagem com um \u201caudi\u00e3o\u201d. Mas precisava mesmo me justificar? Sinceramente, como meu amigo, preferia que me pedissem para ser mais breve do que, sem ser avisado, sofrer uma acelera\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica da minha fala. Um calafrio me passa ao constatar que muitos \u00e1udios meus j\u00e1 devem ter sido adiantados.<\/p>\n\n\n\n<p>Fato \u00e9 que s\u00e3o outros tempos e \u00e9 a eles que temos de responder. A pergunta que fica \u00e9: onde se quer chegar t\u00e3o r\u00e1pido que uma mensagem de alguns minutos vai atrapalhar? Para quais compromissos ou atividades inadi\u00e1veis se est\u00e1 atrasado a ponto de se ter de acelerar o \u00e1udio de algu\u00e9m? Aquela voz rob\u00f3tica, alterada\u2026 Como alertam os estudiosos do assunto, a pressa constante, esse estilo de vida em alta rota\u00e7\u00e3o tem a ver com a din\u00e2mica da sociedade atual. Ocorre que os recursos tecnol\u00f3gicos de acelera\u00e7\u00e3o de conte\u00fado, associados a stories, shorts e tantos outros, acabam por contribuir para um estado mental de urg\u00eancia que n\u00e3o encontra correspond\u00eancia na vida real: enquanto no dispositivo eu aumento a velocidade do roteiro, no filme da vida as cenas se passam sem que eu possa aceler\u00e1-las. \u00c9 o terreno perfeito para transtornos, fobias, s\u00edndromes de variadas express\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Fico pensando, que lugar teriam em nossos dias aquelas velhas figuras contadoras de causo que conheci na inf\u00e2ncia. At\u00e9 hoje me lembro de quando algu\u00e9m tentava adiantar o final de uma hist\u00f3ria que, em geral, durava dez minutos, ou mais: \u201cVai escutando\u201d, dizia pacientemente o velho contador, exigindo que o ritual da escuta fosse respeitado. Sem ouvintes n\u00e3o h\u00e1 lugar para o narrador, j\u00e1 nos ensinava Walter Benjamin. Tal l\u00f3gica de coisas r\u00e1pidas implica uma contradi\u00e7\u00e3o gritante: desenvolvemos a tecnologia para, entre outras coisas, ampliar nossa capacidade de comunica\u00e7\u00e3o; no entanto, a mesma tecnologia dificulta que nos comuniquemos com as pessoas. Meu velho camarada, em sua luta pela educa\u00e7\u00e3o do sobrinho, est\u00e1 correto: temos que repensar urgentemente nossa rela\u00e7\u00e3o com dispositivos eletr\u00f4nicos. Caso contr\u00e1rio, o que era para ser uma ponte para o contato interpessoal, superando a dist\u00e2ncia, vai se tornar cada vez mais um muro que nos separa e isola.<\/p>\n\n\n\n<p>Acho que um sinal de alerta poderia ser este: quando a conversa com algu\u00e9m, por texto ou \u00e1udio, come\u00e7ar a se estender a ponto de nos incomodar; isso pela sensa\u00e7\u00e3o de que, nesse meio tempo, nova notifica\u00e7\u00e3o poder\u00e1 ter chegado. Precisaremos, ent\u00e3o, nos perguntar se o que nos atrai nos aplicativos de contato \u00e9, de fato, a rela\u00e7\u00e3o com as pessoas ou apenas o pr\u00f3prio dispositivo, sua sedu\u00e7\u00e3o luminosa e o universo de coisas que nos oferece \u2013 coisas cujas pessoas nos atrapalham de acessar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Contato<\/strong>: freire.jose@hotmail.com<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ilustra\u00e7\u00e3o<\/strong>: Vin\u00edcius Figueiredo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fazia muito tempo que n\u00e3o falava com ele, j\u00e1 que desde a gradua\u00e7\u00e3o nunca mais tive not\u00edcias. Retomar seu contato foi um desses milagres que a tecnologia nos permite. De algu\u00e9m para algu\u00e9m e dessa pessoa para outra at\u00e9 que chegue naquela. 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