{"id":20173,"date":"2023-06-13T15:58:03","date_gmt":"2023-06-13T18:58:03","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=20173"},"modified":"2023-06-13T15:58:04","modified_gmt":"2023-06-13T18:58:04","slug":"da-cabo-1993-a-tenente-2022-o-percurso-de-ilmara-lopes-como-mulher-policial-militar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=20173","title":{"rendered":"Da cabo (1993) \u00e0 tenente (2022): o percurso de Ilmara Lopes como mulher policial militar"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Juliana-Lemes-2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-20174\" width=\"341\" height=\"459\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Juliana-Lemes-2.jpg 700w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Juliana-Lemes-2-223x300.jpg 223w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Juliana-Lemes-2-696x937.jpg 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Juliana-Lemes-2-312x420.jpg 312w\" sizes=\"(max-width: 341px) 100vw, 341px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong><strong>Juliana Lemes da Cruz.<\/strong><\/strong><br><strong><strong>Doutoranda em Pol\u00edtica Social \u2013 UFF.<\/strong><\/strong><br><strong><strong>Pesquisadora GEPAF\/UFVJM.<\/strong><\/strong><br><strong><strong>Coordenadora do Projeto MLV.<\/strong><\/strong><br><strong><strong>Contato: <\/strong><a href=\"mailto:julianalemes@id.uff.br\"><strong>julianalemes@id.uff.br<\/strong><\/a><\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>De longe, a hist\u00f3ria da Tenente Ilmara, que j\u00e1 pendurou o sapato branco, foi a que mais demorei para organizar em um texto. Seu relato diz sobre sua experi\u00eancia frente \u00e0 nobre miss\u00e3o de desbravar espa\u00e7os de trabalho vi\u00e1veis \u00e0s mulheres policiais que chegariam depois dela, em uma das estruturas estatais mais masculinizadas que se tem not\u00edcia na sociedade contempor\u00e2nea: a Pol\u00edcia Militar. Em raz\u00e3o disso, este texto representa apenas a primeira parte de uma longa e desafiante hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso da PM de Minas Gerais, o ingresso da mulher ocorreu no ano de 1981, ap\u00f3s duzentos anos de corpora\u00e7\u00e3o 100% masculina. Nessa atmosfera de transi\u00e7\u00e3o, j\u00e1 em 1993, Ilmara Lopes ingressou nas fileiras da PMMG. Do N\u00facleo de Sa\u00fade onde atuou durante as \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas de servi\u00e7o ativo na sua cidade natal, Te\u00f3filo Otoni \u2013 Minas Gerais, foi a \u00fanica profissional da enfermagem a realizar todas as transfer\u00eancias via a\u00e9rea, acompanhando militares.<\/p>\n\n\n\n<p>Na minha vis\u00e3o de mulher que ingressou na mesma institui\u00e7\u00e3o quase 20 anos depois, sua hist\u00f3ria foi impactante. Por isso, no texto que ilustrar\u00e1 a segunda parte desse percurso, ao passo que descreverei o relato da militar, cumprirei o importante dever de informar ao leitor que muitas das situa\u00e7\u00f5es vivenciadas pela policial \u00e0 \u00e9poca, j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o admiss\u00edveis nas institui\u00e7\u00f5es brasileiras, embora tenham sido naturalizadas naquele momento hist\u00f3rico. Constituir\u00e1, sem d\u00favidas, somado a este, um importante registro hist\u00f3rico para o campo da seguran\u00e7a p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p>O rico depoimento submete-se aos contornos hist\u00f3rico e sociocultural de um munic\u00edpio do interior de Minas, bem como, \u00e0 resposta institucional \u00e0 presen\u00e7a feminina nos quart\u00e9is, em plena d\u00e9cada de 90. De fato, uma mulher policial era uma grande novidade e n\u00e3o existiam normas e condi\u00e7\u00f5es laborais inclusivas para ela naquele universo t\u00e3o masculino.<\/p>\n\n\n\n<p>No campo hist\u00f3rico-pol\u00edtico nacional, destacava-se o momento de redemocratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, quando ocorreram mudan\u00e7as muito importantes em decorr\u00eancia da promulga\u00e7\u00e3o da CF de 1988. As reivindica\u00e7\u00f5es contidas na Carta das Mulheres aos constituintes foi um dos marcos no sentido da garantia da dignidade das brasileiras, que sofriam, em todos os espa\u00e7os da vida social, discrimina\u00e7\u00f5es e viol\u00eancias pela condi\u00e7\u00e3o de ser mulher, como se a subservi\u00eancia fosse um destino natural delas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao chegar ao munic\u00edpio, rec\u00e9m-formada no curso de 1993, a cabo Ilmara se tornou a atra\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de ser, at\u00e9 ent\u00e3o (2023), a 1\u00aa e \u00fanica policial feminino, natural de Te\u00f3filo Otoni, a servir no munic\u00edpio por 30 anos. Mesmo sendo do quadro da sa\u00fade, Ilmara, ocasionalmente, trabalhava nas ruas. N\u00e3o raro, era confundida com uma profissional da marinha, por trajar farda branca.<\/p>\n\n\n\n<p>No ambiente de caserna, Ilmara notou que os colegas utilizavam um linguajar sem trato frente a uma mulher. Na \u00e9poca, a alimenta\u00e7\u00e3o se fazia no pr\u00f3prio batalh\u00e3o, em um espa\u00e7o chamado de \u201crancho\u201d. Os ranchos eram separados: 1) rancho dos cabos e soldados; 2) rancho dos sargentos e subtenentes; e 3) rancho dos oficiais. Durante as refei\u00e7\u00f5es, a cabo Ilmara sentia que sua presen\u00e7a incomodava os colegas e atrapalhava o momento de \u201clazer\u201d deles. L\u00e1, costumavam tecer os coment\u00e1rios \u201cproibid\u00f5es\u201d e fazer brincadeiras.<\/p>\n\n\n\n<p>A irrever\u00eancia, assertividade e habilidade para se posicionar eram caracter\u00edsticas facilmente identific\u00e1veis na policial Ilmara. Um homem n\u00e3o costumava ousar \u201cgracejos\u201d, porque ela inverteria o jogo antes. Sempre foi um marcante personagem do 19\u00ba Batalh\u00e3o. De personalidade, conquistou dos policiais masculinos o respeito, e das policiais, a admira\u00e7\u00e3o. Por meio do seu relato, percebi as poss\u00edveis raz\u00f5es pelas quais ela se moldou t\u00e3o expansivamente. A meu ver, usou a postura permanentemente no \u201cmodo ataque\u201d como estrat\u00e9gia de defesa em um espa\u00e7o que ainda n\u00e3o cabia \u00e0 mulher com todas suas particularidades.<\/p>\n\n\n\n<p>Felizmente, tive a satisfa\u00e7\u00e3o de testemunhar a sua autenticidade enquanto ainda estava na ativa da PMMG. Com ou sem farda, sempre foi o reflexo de alto astral, alegria e comprometimento com seu pr\u00f3ximo. Seu n\u00edvel de acolhimento com os colegas era tamanho que se sentiam, de certo, como se \u201cdebaixo de grandes asas protetoras\u201d. Um alento em um ambiente, n\u00e3o raro, t\u00e3o hostil.<\/p>\n\n\n\n<p>Ilmara, que tamb\u00e9m \u00e9 graduada em Servi\u00e7o Social, sabia bem que a fun\u00e7\u00e3o policial militar nas ruas \u00e9 de media\u00e7\u00e3o ou resolu\u00e7\u00e3o de conflitos individuais e\/ou coletivos em todas as escalas, desde os mais simples aos complexos. Por esta raz\u00e3o, sempre teve a no\u00e7\u00e3o de que tal condi\u00e7\u00e3o projetava sobre os policiais toda sorte de negatividade humana, o que poderia se transformar em m\u00e9dio ou longo prazos, adoecimento mental e f\u00edsico. Sua sensibilidade ao tratar profissionais aparentemente insens\u00edveis, cativava tanto os policiais acolhidos como seus familiares.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de mais nada, prestar esta singela homenagem \u00e0 Ilmara mulher e profissional, significa dizer a outras mulheres policiais que \u00e9 poss\u00edvel desbravar espa\u00e7os no sentido da garantia do lugar feminino, necess\u00e1rio e de direito. E para, al\u00e9m disso, \u00e9 poss\u00edvel faz\u00ea-lo sem deixar de lado sua ess\u00eancia. Isso porque, Ilmara n\u00e3o foi uma policial da ativa convencional. Ela sempre foi diferente. Suas atitudes eram consideradas ousadas para o campo profissional em que eram reproduzidas, mas, no limite da legalidade, hierarquia e disciplina, elementos basilares da corpora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse universo, embora legitimada por seus pares (colegas de profiss\u00e3o) e muito admirada por eles, \u201cprego que se destaca, toma martelada\u201d. Ainda mais quando se \u00e9 um prego jovem e destacado em um momento p\u00f3s-regime militar, onde as mulheres eram apenas as rec\u00e9m inseridas como sujeitos de direitos no texto constitucional. \u00c0 \u00e9poca, o que chamamos de \u201cSistema\u201d, protagonizou as marteladas na tentativa de retirar o destaque de determinados pregos, rebaixando-os \u00e0 r\u00e9gua que nivelava os demais.<\/p>\n\n\n\n<p>Ousados e em respeito \u00e0 pr\u00f3pria natureza, alguns pregos n\u00e3o admitiam o nivelamento rasteiro, e acabavam por serem machucados. A seu modo, Ilmara foi um \u201cprego em destaque\u201d, em permanente destaque eu diria. Daqueles que al\u00e9m de se destacarem pela altivez profissional, brilhavam em virtude de sua ess\u00eancia. Em raz\u00e3o disso, Ilmara coleciona epis\u00f3dios dif\u00edceis que marcaram seu percurso, os quais, ser\u00e3o alvo nesta coluna na segunda parte desta hist\u00f3ria. Para ilustrar, como subt\u00edtulos: 1) a graduada e um subordinado; 2) a gestante prisioneira; 3) a sargento que quase n\u00e3o foi; 4) o crescimento das asas podadas.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/8d15aab6-70d5-4d56-b6a7-866d0a1eed1a.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-20175\" width=\"498\" height=\"699\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/8d15aab6-70d5-4d56-b6a7-866d0a1eed1a.jpg 700w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/8d15aab6-70d5-4d56-b6a7-866d0a1eed1a-214x300.jpg 214w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/8d15aab6-70d5-4d56-b6a7-866d0a1eed1a-696x976.jpg 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/8d15aab6-70d5-4d56-b6a7-866d0a1eed1a-299x420.jpg 299w\" sizes=\"(max-width: 498px) 100vw, 498px\" \/><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De longe, a hist\u00f3ria da Tenente Ilmara, que j\u00e1 pendurou o sapato branco, foi a que mais demorei para organizar em um texto. 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