{"id":20383,"date":"2023-07-06T22:51:07","date_gmt":"2023-07-07T01:51:07","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=20383"},"modified":"2023-07-11T00:49:23","modified_gmt":"2023-07-11T03:49:23","slug":"os-outros-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=20383","title":{"rendered":"Os outros"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Jose-Carlos.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-20384\" width=\"432\" height=\"318\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Jose-Carlos.jpg 700w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Jose-Carlos-300x221.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Jose-Carlos-80x60.jpg 80w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Jose-Carlos-696x512.jpg 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Jose-Carlos-571x420.jpg 571w\" sizes=\"(max-width: 432px) 100vw, 432px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong><em>Jos\u00e9 Carlos Freire<\/em><br><em>Professor na UFVJM, Campus de Te\u00f3filo Otoni\/MG<\/em><\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>H\u00e1 cenas que desejar\u00edamos n\u00e3o ter assistido. Um lugar errado na hora errada, um evento constrangedor. \u00c9 desagrad\u00e1vel. Lembro-me da primeira vez que fui a S\u00e3o Paulo e, extasiado pela imensid\u00e3o daquele lugar, tomava um lanche na Pra\u00e7a da S\u00e9 quando, sem querer, acabei por contemplar uma agressiva abordagem policial feita a um homem embriagado. J\u00e1 se v\u00e3o mais de vinte anos e a imagem n\u00e3o se apaga da mente.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro dia passei por algo desconcertante, ainda que com muito menos viol\u00eancia. Costumo dar uma volta no entorno da escolinha de futebol do meu filho enquanto espero a aula. J\u00e1 dobrava a esquina quando me vi a poucos metros de uma discuss\u00e3o entre vizinhos. O assunto era o lixo na cal\u00e7ada e descontavam em um dos moradores que ali n\u00e3o estava toda a sua raiva compartilhada. Era um simb\u00f3lico tribunal de inquisi\u00e7\u00e3o, sem direito \u00e0 apela\u00e7\u00e3o. \u201cA gente faz o que \u00e9 certo, o problema \u00e9 que os outros atrapalham!\u201d, sentenciou um deles. N\u00e3o podendo voltar, s\u00f3 me restou baixar a cabe\u00e7a e apertar o passo para sair logo daquele campo de irradia\u00e7\u00e3o de nervos.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Os-outros-ILUSTRACAO.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-20385\" width=\"500\" height=\"340\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Os-outros-ILUSTRACAO.jpg 600w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Os-outros-ILUSTRACAO-300x204.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Os outros.<\/strong> Foi um gatilho que me remonta aos primeiros anos de professor. Rec\u00e9m sa\u00eddo da gradua\u00e7\u00e3o em filosofia, o desejo era de retirar todas as pessoas da caverna para a luz do conhecimento como fizera S\u00f3crates na Gr\u00e9cia Antiga. Mas professores novos, de qualquer \u00e1rea, al\u00e9m de acreditar que possuem super poderes, costumam, invariavelmente, cometer alguns vacilos. E os de filosofia acabam, muitas vezes, acreditando que o choque de ideias \u00e9 o melhor caminho para despertar a consci\u00eancia cr\u00edtica. Por vezes isso equivale a soltar um elefante numa loja de cristal. Hoje, mais vivido, penso diferente.<\/p>\n\n\n\n<p>O fato se deu nos meus tempos de Belo Horizonte em uma aula de Filosofia do Direito em uma faculdade de Brumadinho \u2013 sem saber que aquela cidade ficaria conhecida nacionalmente anos depois de forma tr\u00e1gica. N\u00e3o me recordo qual o tema propriamente, mas sei que o debate estava morno quando uma das alunas levantou algo sobre o estranhamento que as pessoas t\u00eam diante de quem discorda de uma ideia ou possui opini\u00f5es diferentes. Os outros. Era a quest\u00e3o central do seu argumento.<\/p>\n\n\n\n<p>A\u00ed o \u00edmpeto de professor novo veio \u00e0 tona e joguei no ar a provoca\u00e7\u00e3o: \u201c\u00c9 como diz o fil\u00f3sofo Sartre, o inferno s\u00e3o os outros\u201d. Salvei a aula. Uma explos\u00e3o! Seguiu-se uma sequ\u00eancia de depoimentos de incompreens\u00f5es sofridas, de diferen\u00e7as familiares, etc. Mais de meia hora e eu converteria todo mundo ao existencialismo! Mal deu tempo, ao final da aula, de explicar que essa frase de Jean-Paul Sartre est\u00e1 numa pe\u00e7a de teatro que discute a necessidade que temos de conv\u00edvio. As cenas se passam em um quarto fechado e sem espelhos, representando o inferno, e os tr\u00eas personagens se veem obrigados a ouvir uns aos outros eternamente. Tempo esgotado, bolsas agitadas, a aula j\u00e1 era. Dei o caso por encerrado.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao final do semestre aquela aluna me procurou para dizer que havia repassado a minha ideia ao seu av\u00f4. \u201cA frase n\u00e3o \u00e9 minha, \u00e9 de Sartre\u201d, argumentei j\u00e1 prevendo o estrago. \u201cSim!\u201d, continuou, \u201c\u00c9 que meu av\u00f4 \u00e9 muito ranzinza e reclama de todo mundo. Ent\u00e3o falei pra ele daquele lance, sabe, que os outros s\u00e3o o inferno e ele gostou demais!\u201d. E l\u00e1 fui eu refor\u00e7ar que a ideia da pe\u00e7a n\u00e3o \u00e9 a de fomentar a intoler\u00e2ncia ou coisa do tipo, mas sim a necessidade que temos das rela\u00e7\u00f5es sociais; que ningu\u00e9m \u00e9 uma ilha e tal. Tarde demais. O av\u00f4 n\u00e3o s\u00f3 continuava ranzinza como agora havia encontrado na neta um apoio para suas ideias e, na filosofia, uma comprova\u00e7\u00e3o!<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA gente faz o que \u00e9 certo, o problema \u00e9 que os outros atrapalham!\u201d, aquela frase ressoava na cabe\u00e7a enquanto caminhava de volta \u00e0 escolinha de futebol. N\u00e3o \u00e9 verdade. Pelo menos, n\u00e3o toda a verdade. Nem sempre fazemos o certo e nem sempre os outros atrapalham. E mais: os outros s\u00e3o exatamente os n\u00e3o-eu, aquelas pessoas diferentes de mim; mas se eu mudo o ponto de observa\u00e7\u00e3o para outra pessoa, ent\u00e3o eu estarei no grupo dos outros. Eu sou o outro dos outros. Ser\u00edamos, ent\u00e3o, todos, o inferno de todos?<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 curiosa a pe\u00e7a de Sartre. Hoje n\u00e3o jogaria, sem media\u00e7\u00e3o alguma, aquela frase de efeito na sala de primeiro ano de gradua\u00e7\u00e3o com jovens que ainda constru\u00edam suas identidades na diferen\u00e7a com pais, fam\u00edlia e todos&#8230; os outros. Na pe\u00e7a, o inferno n\u00e3o aparece como um local terr\u00edvel de dores atrozes e fogo por todos os lados como nos retratos medievais ou como se apresenta na teologia crist\u00e3 tradicional. Ele \u00e9, na verdade, um estado de coisas, uma aus\u00eancia, um vazio, uma ocasi\u00e3o de intensa reflex\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, \u00e9 sugestiva a discuss\u00e3o dos personagens que acaba por revelar o car\u00e1ter de cada um, suas fraquezas e seus medos. Isso porque, se refletirmos a partir do enredo, o outro me enxerga, por vezes, mais do que eu a mim mesmo. Na aus\u00eancia de espelhos no quarto retratado na pe\u00e7a, cada personagem s\u00f3 consegue se ver pelos olhos dos outros. O outro \u00e9 uma figura que me desinstala, obriga-me a romper as m\u00e1scaras. O outro me instiga a ver o que de fato sou.<\/p>\n\n\n\n<p>Um mundo sem os outros, para lembrar a discuss\u00e3o dos vizinhos sobre o lixo fora do lugar, n\u00e3o seria a perfei\u00e7\u00e3o. Deus me livre! Imagina um mundo em que n\u00e3o haja os outros?! Ou, seria a minha total solid\u00e3o, ou ent\u00e3o um conv\u00edvio com infinitos \u201ceus\u201d. Seria insuport\u00e1vel. Portanto, h\u00e1 uma dualidade na pe\u00e7a de Sartre: por um lado, os outros s\u00e3o fator de meu desconforto, o meu inferno; por outro lado s\u00e3o tamb\u00e9m a condi\u00e7\u00e3o para que eu seja quem sou ou ao menos busque ser o que entendo que seja. O inferno, nesse sentido, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o ruim. O sofrimento que o outro me causa, dentro de limites aceit\u00e1veis, evidentemente, n\u00e3o s\u00f3 pode ser redimensionado como tamb\u00e9m serve para que eu, que sou o outro do outro, seja mais livre, isto \u00e9, um outro melhor.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao pegar meu filho no futebol perguntei sobre como foi o jogo. E ele me disse, desapontado, que n\u00e3o havia marcado nenhum gol porque os colegas n\u00e3o passavam a bola. Disse a ele que precisava conversar com os colegas na pr\u00f3xima vez, porque esporte \u00e9 coletivo, \u00e9 um trabalho em equipe. Ele concordou. Seria a hora perfeita para eu dizer: \u201cFutebol \u00e9 bom, o que atrapalha s\u00e3o os outros!\u201d. Mas n\u00e3o, n\u00e3o era. Seguimos para casa em sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Contato<\/strong>: freire.jose@hotmail.com<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ilustra\u00e7\u00e3o<\/strong>: Vin\u00edcius Figueiredo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 cenas que desejar\u00edamos n\u00e3o ter assistido. Um lugar errado na hora errada, um evento constrangedor. \u00c9 desagrad\u00e1vel. Lembro-me da primeira vez que fui a S\u00e3o Paulo e, extasiado pela imensid\u00e3o daquele lugar, tomava um lanche na Pra\u00e7a da S\u00e9 quando, sem querer, acabei por contemplar uma agressiva abordagem policial feita a um homem embriagado. 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