{"id":20912,"date":"2023-08-11T11:47:18","date_gmt":"2023-08-11T14:47:18","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=20912"},"modified":"2023-08-15T10:03:15","modified_gmt":"2023-08-15T13:03:15","slug":"que-as-criancas-cantem-livres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=20912","title":{"rendered":"Que as crian\u00e7as cantem livres"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Jose-Carlos.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-20914\" width=\"421\" height=\"310\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Jose-Carlos.jpg 700w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Jose-Carlos-300x221.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Jose-Carlos-80x60.jpg 80w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Jose-Carlos-696x512.jpg 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Jose-Carlos-571x420.jpg 571w\" sizes=\"(max-width: 421px) 100vw, 421px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong><em>Jos\u00e9 Carlos Freire<\/em><br><em>Professor na UFVJM, Campus de Te\u00f3filo Otoni\/MG<\/em><\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><em><strong>(Dedicado a Vin\u00edcius Figueiredo)<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Como todas as pessoas que se preparam para ter filhos, sejam biol\u00f3gicos ou n\u00e3o, na nossa casa n\u00e3o foi diferente: ajustes no quarto, expectativa, ansiedade. E, claro, uma sele\u00e7\u00e3o de m\u00fasicas para ninar, para inspirar, para receber as crias. Nos nossos pr\u00e9-hist\u00f3ricos CD\u2019s tinha de tudo: m\u00fasica instrumental para o sono, cantigas de roda, coisas da Palavra Cantada e do D\u00e9rcio Marques que come\u00e7\u00e1vamos a conhecer, entre outras. Passados os anos, nas viagens, quando as crian\u00e7as dormiam, era comum que n\u00f3s, m\u00e3e e pai emotivos, segu\u00edssemos ouvindo as can\u00e7\u00f5es, n\u00e3o raro com l\u00e1grimas nos olhos. O fato \u00e9 que essas can\u00e7\u00f5es chamadas infantis s\u00e3o, na verdade, m\u00fasicas para adultos. N\u00e3o digo as comerciais, da moda, que tamb\u00e9m ouv\u00edamos. Do meu tempo de pai novo, \u00e9 prov\u00e1vel que saiba de cor os discos da Galinha Pintadinha ou do Patati e Patat\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Falo mesmo \u00e9 de outras, feitas com intensidade e poesia, tentando captar o mist\u00e9rio de uma vida que se torna, para sempre, ligada \u00e0 sua. Ter filho\/a, dizia um amigo, \u00e9 perder para sempre o direito ao des\u00e2nimo. \u00c9 um ponto sem retorno. Fora os casos de abandono e descaso \u2013 e s\u00e3o tantos! \u2013 quem de fato pode e resolve encarar a experi\u00eancia tem sua vida totalmente redimensionada e, mesmo no limite da precariedade, redescobre a beleza das coisas simples e exerce um sentimento t\u00e3o nobre que \u00e9 o cuidado.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Ilustracao-Que-as-criancas-cantem-livres.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-20913\" width=\"543\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Ilustracao-Que-as-criancas-cantem-livres.jpg 700w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Ilustracao-Que-as-criancas-cantem-livres-300x221.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Ilustracao-Que-as-criancas-cantem-livres-80x60.jpg 80w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Ilustracao-Que-as-criancas-cantem-livres-696x513.jpg 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Ilustracao-Que-as-criancas-cantem-livres-570x420.jpg 570w\" sizes=\"(max-width: 543px) 100vw, 543px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Isso n\u00e3o torna quem tem filho\/a melhor e nem pior do que as pessoas que n\u00e3o t\u00eam. Estas ter\u00e3o outro ponto de vista e seus motivos leg\u00edtimos. Ali\u00e1s, tenho profundo respeito por quem, conscientemente, escolhe n\u00e3o ter filhos. E nem sempre \u00e9 apenas por estilo; muita gente o faz pela incerteza do futuro, sobretudo em tempos de crise ambiental e decad\u00eancia civilizat\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 parte essas diferen\u00e7as, creio que a crian\u00e7a, ao existir, toca um elemento universal do humano: a novidade. Isso vale para qualquer tipo de pessoa ou n\u00facleo familiar. Sei que falo uma obviedade, mas, por vezes, \u00e9 preciso. Volto \u00e0s m\u00fasicas das quais falava para refor\u00e7ar meu argumento. Veja o que, na m\u00fasica \u201cCrian\u00e7a\u201d, diz Dani Lassalvia: \u201cQuando eu era crian\u00e7a e andava pela estrada\/ Eu criava fantasias como vis\u00e3o encantada\/ Tudo eu mudava com varinha de cond\u00e3o\/ Com um toque de magia\/ Tinha o mundo em minha m\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A magia, o encanto, o desejo de tudo mudar, a capacidade de inventar&#8230; S\u00e3o caracter\u00edsticas que nos definem, mas em raz\u00e3o dos afazeres e do corre- -corre da vida de adulto as deixamos de lado e n\u00e3o s\u00e3o poucas as pessoas que desaprendem isso tudo. Salvas est\u00e3o as que se tornam artistas, porque a arte \u00e9 uma forma de continuar crian\u00e7a. Isso aponta para algo muito grave: o mundo \u00e9 carrancudo e s\u00e9rio demais, j\u00e1 que obriga aquele serzinho, que todo mundo j\u00e1 foi um dia, a deixar tudo no seu ba\u00fa e tornar-se pessoa adulta, respons\u00e1vel. H\u00e1 um problema nessa engrenagem. A educa\u00e7\u00e3o \u00e9, quase sempre, uma deseduca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Interessante o fato de que a ideia mesma de inf\u00e2ncia seja muito recente em nossa hist\u00f3ria; isso tem pouco mais de dois s\u00e9culos. Ocorre que inventamos a inf\u00e2ncia, por\u00e9m, mesmo reconhecendo sentimentos pr\u00f3prios e direitos dessas pessoinhas, restringimos o que lhes \u00e9 caracter\u00edstico a uma fase inicial da vida. Depois, parou! Chega de brincar!<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o dever\u00edamos parar. Por isso \u00e9 t\u00e3o comum a saudade. \u00c9 o que canta o D\u00e9rcio Marques: \u201cQue vontade voltar, de ser crian\u00e7a\/ E ver a natureza bem perto de mim\/ S\u00f3 pra ver passarinhos dar pulo nos galhos\/ E ver mangas ca\u00eddas, perdidas no ch\u00e3o\/ Sentir o que sou, ver o sol nascer\/ Depois nadar e brincar de amor\/ Esse sou eu, esse sou eu&#8221;. Sentir o que sou&#8230; Levamos uma vida inteira de adultos para reaprender o que, na inf\u00e2ncia, sab\u00edamos espontaneamente.<\/p>\n\n\n\n<p>A prop\u00f3sito, n\u00e3o faz muito tempo, um amigo que \u00e9 apaixonado pela Col\u00f4mbia, indicou-me um texto que fala de educa\u00e7\u00e3o e comp\u00f4s a chamada Miss\u00e3o de Ci\u00eancia, Educa\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento que, no in\u00edcio dos anos 1990, propunha solu\u00e7\u00f5es para aquele pa\u00eds, na \u00e9poca, cortado pelo narcotr\u00e1fico. Entre os intelectuais estava Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez, j\u00e1 reconhecido como um dos maiores escritores da Am\u00e9rica Latina e do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 profundo o texto de Gabo, como era conhecido, resgatando toda a heran\u00e7a colonial que marca o pa\u00eds. Demonstra com primor que a conjuntura s\u00f3 se explica por um processo hist\u00f3rico de longa dura\u00e7\u00e3o. O mais instigante, por\u00e9m, \u00e9 sua tese, que est\u00e1 no t\u00edtulo do texto: \u201cUm pa\u00eds ao alcance das crian\u00e7as\u201d. O autor vai ao ponto: \u201cnossa educa\u00e7\u00e3o conformista e repressiva parece concebida para que as crian\u00e7as se adaptem \u00e0 for\u00e7a a um pa\u00eds que n\u00e3o era para eles, em vez de colocar o pa\u00eds ao seu alcance para que eles o transformem e o engrande\u00e7am\u201d. Direto como uma flecha!<\/p>\n\n\n\n<p>Esse pa\u00eds seria, indubitavelmente, melhor que o dos adultos que \u201crestringe a criatividade e a intui\u00e7\u00e3o\u201d, de tal forma que \u201cas crian\u00e7as esque\u00e7am o que sem d\u00favida sabem desde o nascimento\u201d, entre outras coisas, que \u201ca vida seria mais longa e mais feliz se cada um pudesse trabalhar naquilo que gosta, e apenas nisso\u201d. Est\u00e1 aqui, resumida, o que pensadores e ativistas, h\u00e1 pelo menos dois s\u00e9culos, entendem por revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando Milton Nascimento cantava que queria ver os meninos no poder, n\u00e3o estava brincando. Est\u00e1 na mesma sintonia de Gabo. Evidentemente, n\u00e3o se trata de colocar as crian\u00e7as naquele aparato formal, frio e impessoal de nossas institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Seria preciso reinvent\u00e1-las totalmente. S\u00f3 num pa\u00eds novo seria poss\u00edvel, como diz o escritor colombiano, \u201cuma educa\u00e7\u00e3o, do ber\u00e7o at\u00e9 a tumba, inconformista e reflexiva, que nos inspire uma nova forma de pensar\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Entre o hoje e o amanh\u00e3 h\u00e1 muito ch\u00e3o. Mas seria menos complicado, provavelmente, se desaprend\u00eassemos a adultice e recuper\u00e1ssemos a meninice sapeca e criativa. Tom\u00e1ssemos nossa varinha de cond\u00e3o para criar coisas novas. Por andarmos t\u00e3o s\u00e9rios, o mundo virou o que \u00e9. Lugar de gente chata e triste.<\/p>\n\n\n\n<p>Precisamos ouvir mais \u2013 e de verdade \u2013 as can\u00e7\u00f5es infantis. Cantar para n\u00f3s mesmos, n\u00e3o s\u00f3 para as crian\u00e7as, uma cantiga como a de Jura\u00edldes da Cruz: \u201cN\u00e3o sou tanajura, mas eu crio asa\/ com os vaga-lumes eu quero voar\/ Um c\u00e9u estrelado, hoje \u00e9 minha casa\/ fica mais bonito quando tem luar\/ Quero acordar com os passarinhos\/ cantar uma can\u00e7\u00e3o com o sabi\u00e1\u201d. Isso n\u00e3o muda o mundo, diria um adulto t\u00edpico. Tem raz\u00e3o. N\u00e3o muda. Ao contr\u00e1rio, cria um mundo. Ao alcance das crian\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Contato<\/strong>: freire.jose@hotmail.com<\/h3>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Ilustra\u00e7\u00e3o<\/strong>: Vin\u00edcius Figueiredo<\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Dedicado a Vin\u00edcius Figueiredo) Como todas as pessoas que se preparam para ter filhos, sejam biol\u00f3gicos ou n\u00e3o, na nossa casa n\u00e3o foi diferente: ajustes no quarto, expectativa, ansiedade. E, claro, uma sele\u00e7\u00e3o de m\u00fasicas para ninar, para inspirar, para receber as crias. 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