{"id":21605,"date":"2023-09-28T22:08:06","date_gmt":"2023-09-29T01:08:06","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=21605"},"modified":"2023-10-02T17:38:17","modified_gmt":"2023-10-02T20:38:17","slug":"o-sequestro-da-leitura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=21605","title":{"rendered":"O sequestro da leitura"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Jose-Carlos.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-21606\" width=\"433\" height=\"318\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Jose-Carlos.jpg 700w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Jose-Carlos-300x221.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Jose-Carlos-80x60.jpg 80w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Jose-Carlos-696x512.jpg 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Jose-Carlos-571x420.jpg 571w\" sizes=\"(max-width: 433px) 100vw, 433px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong><em>Jos\u00e9 Carlos Freire<\/em><br><em>Professor na UFVJM, Campus de Te\u00f3filo Otoni\/MG<\/em><\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Recentemente reassisti ao document\u00e1rio Maioria Absoluta (Leon Hirszman, 1964). O curta-metragem apresenta a situa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o pobre brasileira articulando a estrutura agr\u00e1ria e o analfabetismo. Os depoimentos de camponeses, as tomadas de c\u00e2mera destacando os rostos sofridos, a narrativa feita pelo poeta Ferreira Gullar, os dados estat\u00edsticos da mis\u00e9ria, tudo no filme nos impacta e provoca.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 uma daquelas p\u00e9rolas do Cinema Novo na sua primeira fase, pr\u00e9-Golpe de 1964, onde a arte alcan\u00e7a um equil\u00edbrio not\u00e1vel entre beleza est\u00e9tica e profundidade tem\u00e1tica. O narrador termina por nos recordar que o filme acaba, mas a nossa vida, fora da tela, continua, assim como a daquela popula\u00e7\u00e3o sem-terra, sem direitos, sem rumo. Era um cinema pensado como processo educativo, como experi\u00eancia transformadora. S\u00e3o quase sessenta anos e tudo mudou muito. Mas a desigualdade social insiste em se manter, o que torna o document\u00e1rio, incomodamente, atual.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/O-sequestro-da-leitura-Ilustracao.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-21607\" width=\"464\" height=\"323\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/O-sequestro-da-leitura-Ilustracao.jpg 677w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/O-sequestro-da-leitura-Ilustracao-300x209.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/O-sequestro-da-leitura-Ilustracao-100x70.jpg 100w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/O-sequestro-da-leitura-Ilustracao-604x420.jpg 604w\" sizes=\"(max-width: 464px) 100vw, 464px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Do ponto de vista estat\u00edstico \u00e9 evidente que o quadro hoje \u00e9 muito menos grave que naquele contexto. Num pa\u00eds de 80 milh\u00f5es de pessoas \u00e0 \u00e9poca, mais de 50% eram analfabetas, das quais 25 milh\u00f5es sequer votavam. Hoje somos mais de 200 milh\u00f5es e o analfabetismo, segundo dados dos \u00faltimos anos do IBGE, encontra-se entre 5 e 6%. Parece pouco, mas n\u00e3o \u00e9. Falamos de cerca de 10 milh\u00f5es de pessoas com 15 anos ou mais que n\u00e3o sabem ler e escrever. A coisa se complica ainda mais se completamos esses dados com os do chamado analfabetismo funcional, que se refere \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de quem, embora saiba reconhecer n\u00fameros e letras, n\u00e3o consegue compreender textos ou opera\u00e7\u00f5es matem\u00e1ticas. Pelos dados do INEP, nos anos recentes a m\u00e9dia nacional fica na casa dos 18%, com algumas regi\u00f5es superando os 25%.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O impacto dessa chaga brasileira \u2013<\/strong> pa\u00eds no qual, como dizia Darcy Ribeiro a crise da educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma crise, mas sim um programa \u2013 \u00e9 enorme. Isso \u00e9 tr\u00e1gico, para o campo da literatura, forma pela qual, bem lembrava Paulo Freire, completamos a leitura do mundo pela leitura de textos, hist\u00f3rias, f\u00e1bulas. No nosso caso, para uma parte significativa da popula\u00e7\u00e3o nem a leitura do texto e nem a do mundo se efetivam. Fracassamos como civiliza\u00e7\u00e3o. Ou melhor, lembrando Darcy: o programa permanece um sucesso!<\/p>\n\n\n\n<p>As pesquisas do Instituto Pr\u00f3-Livro evidenciam isso. A edi\u00e7\u00e3o de 2015 de \u201cRetratos da Leitura no Brasil\u201d mostrava que apenas 12% eram leitores de romances ou contos; 42% dos brasileiros afirmam n\u00e3o ler porque n\u00e3o compreende ou tem dificuldades para ler; 44% n\u00e3o leu nem mesmo um trecho de um livro. De l\u00e1 pra c\u00e1 os dados pioram, evidentemente, em raz\u00e3o da pandemia, cujos impactos educacionais e culturais s\u00e3o enormes.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, a maioria absoluta, para inverter a abordagem do document\u00e1rio de Leon Hirszman, tem um dispositivo eletr\u00f4nico nas m\u00e3os. Na vida de mais de 80% dos brasileiros, pelos dados recentes do mesmo IBGE, o celular est\u00e1 l\u00e1, a cumprir seu m\u00faltiplo papel de informar, educar e entreter. Com que conte\u00fado? Eis a quest\u00e3o. Com que autonomia de opini\u00e3o por parte dos sujeitos que s\u00e3o bombardeados por todo tipo de informa\u00e7\u00e3o? Eis o n\u00f3. Se a televis\u00e3o era o grande vil\u00e3o h\u00e1 algumas d\u00e9cadas com seu fasc\u00ednio e manipula\u00e7\u00e3o de cora\u00e7\u00f5es e mentes, hoje ela reduziu de tamanho, ficou mais potente e foi parar no bolso das pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ant\u00f4nio Candido, grande estudioso da sociedade e da literatura no Brasil, defendia que ela, a literatura, \u00e9 um direito. A obviedade aparente de tal posi\u00e7\u00e3o \u00e9 contrastada pela realidade brasileira, no qual predominou, por longos s\u00e9culos, baix\u00edssimo n\u00edvel de acesso a bens culturais como a literatura. E as causas s\u00e3o muitas: do ponto de vista estrutural, a debilidade cultural de pa\u00edses de passado colonial se sustenta na falta de meios de difus\u00e3o como editoras, bibliotecas, revistas, jornais etc. Tais meios existem, de fato, sobretudo ap\u00f3s os primeiros esbo\u00e7os de na\u00e7\u00e3o p\u00f3s-independ\u00eancia. Mas n\u00e3o s\u00e3o acess\u00edveis \u00e0 maioria.<\/p>\n\n\n\n<p>Do ponto de vista da forma\u00e7\u00e3o social brasileira a coisa ainda fica pior, posto que as classes que nos comandam desde o Imp\u00e9rio nunca quiseram, de fato, um pa\u00eds, mas sim um parque agr\u00edcola-industrial de produ\u00e7\u00e3o de riquezas, quase sempre para fins de exporta\u00e7\u00e3o; projeto esse no qual o fomento \u00e0 vida cultural sequer se configura como relevante.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas trilhas de Ant\u00f4nio Candido, saltamos, por assim dizer, de uma fase de predom\u00ednio do analfabetismo em nosso passado colonial para a era moderna dos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa, em especial a televis\u00e3o \u2013 hoje superada, em grande medida, pelos dispositivos de celulares e redes sociais. Ou seja, n\u00e3o houve a devida media\u00e7\u00e3o que caberia a um sistema educacional organizado e a uma democratiza\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0 leitura e \u00e0s artes. Manteve-se, portanto, um fosso que separa a maioria da popula\u00e7\u00e3o e uma pequena elite cultural.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 certo que mudan\u00e7as houve significativas, sobretudo na expans\u00e3o do ensino. Mas ainda \u00e9 pouco. Pelos dados mais recentes, pouco mais da metade da popula\u00e7\u00e3o acima de 25 anos completou o ensino b\u00e1sico; o funil permanece, j\u00e1 que a evas\u00e3o no ensino m\u00e9dio \u00e9 grande e o total que completa o ensino superior n\u00e3o chega a 20%. A isso se junta o j\u00e1 referido analfabetismo funcional. Era boa a formula\u00e7\u00e3o de Monteiro Lobato segundo a qual um pa\u00eds se faz de pessoas e livros; n\u00f3s os temos, o dif\u00edcil \u00e9 junt\u00e1-los.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto permanecemos um pa\u00eds da gambiarra, que n\u00e3o universaliza os direitos sociais, a leitura fica \u00e0 espera, sequestrada. Com isso, recordando uma vez mais Ant\u00f4nio Candido, permanece tamb\u00e9m atrofiada a fun\u00e7\u00e3o da literatura como forma de conhecimento e o seu papel humanizador de organiza\u00e7\u00e3o de significado do mundo e da vida, de express\u00e3o e canaliza\u00e7\u00e3o das emo\u00e7\u00f5es de indiv\u00edduos e grupos. Tudo isso fica adiado para quando, de fato, formos um povo que l\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p>Por ora, formamo-nos por memes, \u00e1udios e v\u00eddeos question\u00e1veis que nos chegam a toda hora, mensagens vagas que pouco distinguem verdade e falsidade \u2013 repetindo sempre, refletindo pouco. Fosse outro o nosso processo hist\u00f3rico educativo-cultural tais fen\u00f4menos n\u00e3o seriam problema, pois ter\u00edamos elementos consolidados para question\u00e1-los e selecionar o que vale, e, o que n\u00e3o vale. A pr\u00e1tica de leitura de romances, poesias e contos n\u00e3o salvaria o pa\u00eds, por certo, mas nos ajudaria a criar bagagem m\u00ednima. Na aus\u00eancia de leitura, a maioria absoluta segue, para usar uma express\u00e3o de nossos dias, sem filtro.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Contato: freire.jose@hotmail.com<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Ilustra\u00e7\u00e3o: Vin\u00edcius Figueiredo<\/strong><\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Recentemente reassisti ao document\u00e1rio Maioria Absoluta (Leon Hirszman, 1964). O curta-metragem apresenta a situa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o pobre brasileira articulando a estrutura agr\u00e1ria e o analfabetismo. 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