{"id":22147,"date":"2023-11-10T10:13:13","date_gmt":"2023-11-10T13:13:13","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=22147"},"modified":"2023-11-11T22:54:07","modified_gmt":"2023-11-12T01:54:07","slug":"o-tempo-que-foge","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=22147","title":{"rendered":"O tempo que foge"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Jose-Carlos.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-22148\" width=\"429\" height=\"316\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Jose-Carlos.jpg 700w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Jose-Carlos-300x221.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Jose-Carlos-80x60.jpg 80w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Jose-Carlos-696x512.jpg 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Jose-Carlos-571x420.jpg 571w\" sizes=\"(max-width: 429px) 100vw, 429px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong><em>Jos\u00e9 Carlos Freire<\/em><br><em>Professor na UFVJM, Campus de Te\u00f3filo Otoni\/MG<\/em><\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Mais uma vez me cai sobre a cabe\u00e7a o poema \u201cO tempo\u201d, de M\u00e1rio Quintana. Um amigo me enviou, sabendo que este \u00e9 um dos temas mais fascinantes para mim. Mas o requinte de crueldade foi a forma escolhida: em v\u00eddeo e lido por Ant\u00f4nio Abujamra. Isso quebra qualquer pessoa! Imposs\u00edvel n\u00e3o se sentir tocado ao v\u00ea-lo recitar: \u201cQuando se v\u00ea, j\u00e1 terminou o ano&#8230; Quando se v\u00ea passaram cinquenta anos\u201d. \u00c9 curioso como que, depois de tanto tempo que o poema me persegue, esse trecho me parece, agora, mais forte que nunca.<\/p>\n\n\n\n<p>Est\u00e1 certo o Quintana, como de costume. N\u00e3o se pode perder tempo com o que n\u00e3o vale a pena, tampouco desprez\u00e1-lo, muito menos esquec\u00ea-lo. \u00c9 preciso sempre lembrar de que ele est\u00e1 passando, est\u00e1 fugindo, est\u00e1-se esvaindo. Tempo \u00e9 vento, que de gra\u00e7a vem e vai. Indelevelmente r\u00e1pido, \u00fanico. Deve-se colh\u00ea-lo a cada manh\u00e3, como se faz com o milho, a uva, a ma\u00e7\u00e3. Mas como? Eis a quest\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/O-tempo-que-foge-Ilustracao.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-22149\" width=\"452\" height=\"305\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/O-tempo-que-foge-Ilustracao.jpg 600w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/O-tempo-que-foge-Ilustracao-300x203.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 452px) 100vw, 452px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-verse\"><strong>Tempo \u00e9 \u2013 ou deveria ser \u2013<\/strong> para se viver com pessoas queridas, no namoro, vendo um bom filme ou, ent\u00e3o, na solid\u00e3o de si, fecundamente. Com a leveza de um canto gregoriano, com o som de um violino ou um bom rock, ou uma boa dan\u00e7a, ou um bom aconchego de um colo, melhor ainda se for \u00e0 beira do lago quando as estrelas se acendem no c\u00e9u. Mas e o jogo duro da vida? Seria poss\u00edvel que o trabalho, esse grande ladr\u00e3o de nosso tempo, fosse algo de realiza\u00e7\u00e3o e n\u00e3o apenas de sofrimento? Eis outra quest\u00e3o.<\/pre>\n\n\n\n<p>Mas voltemos ao plano ideal. Tempo \u00e9 para ser curtido, apreciado como um bom vinho ou um bom caf\u00e9, relembrado como um bom livro, recebido como um filho ou uma filha ap\u00f3s meses de aus\u00eancia. Tempo \u00e9 algo sagrado que n\u00e3o se vende nem se compra, apenas se nos d\u00e1, suave e docemente. Mas, afinal, por que nem todos o t\u00eam se ele \u00e9 gratuito? Pois \u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>O poema de M\u00e1rio Quintana n\u00e3o trata desses pormenores sociol\u00f3gicos. Que os estudiosos e militantes das causas humanistas tratem de responder a essas inquieta\u00e7\u00f5es. O que o poeta apresenta \u00e9 algo diferente ou, se quisermos, algo sobre o tempo visto por outro \u00e2ngulo. Penso que ele trata da batalha com o tempo como a mais antiga de cada pessoa \u2013 a mais \u00e1rdua e a mais encantadora. Ele nos faz pensar nas tardes e noites desperdi\u00e7adas, nas manh\u00e3s n\u00e3o vividas, nas refei\u00e7\u00f5es n\u00e3o saboreadas.<\/p>\n\n\n\n<p>E eis que tudo se acaba. \u00c0 beira do fim apenas a comum exclama\u00e7\u00e3o: \u201cDevia ter aproveitado melhor&#8230;\u201d. Talvez um bom peda\u00e7o da sabedoria consista nisso: n\u00e3o deixar para dizer o quanto o tempo \u00e9 valioso apenas no vel\u00f3rio \u2013 \u00e0 beira de um caix\u00e3o ou dentro dele. Ao contr\u00e1rio, diz\u00ea-lo no auge da pot\u00eancia f\u00edsica e intelectual, quando ainda se tem sa\u00fade, quando o vigor permite caminhar estradas, cheirar flores, saborear sorvetes, tocar espumas, vislumbrar cores, sentir amores ou dores.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro peda\u00e7o de sabedoria: amar, cuidar, cultivar virtudes, tudo isso n\u00e3o porque algu\u00e9m disse que \u00e9 bonito ou porque algum dogma religioso nos obriga, mas sim por escolha. Fazer coisas boas de forma livre \u00e9 a \u00fanica maneira de nos parecermos com o mar que se d\u00e1 \u00e0 praia ou com a rosa que entrega seu n\u00e9ctar ao beija-flor, ou com a brisa que toca os corpos, fazendo-os sorrir de prazer.<\/p>\n\n\n\n<p>O sol que nos toca o cora\u00e7\u00e3o ao surgir no horizonte, a lua que encanta amantes quando varia sua luminosidade, a \u00e1gua que nos sacia e descansa. Tudo isso \u00e9 simples e n\u00e3o exige riqueza, diploma ou qualquer forma de distin\u00e7\u00e3o social. O que nos faz pensar que a natureza \u00e9 menos complicada do que o modo de vida que inventamos e supomos civilizado. Modo de vida, este, que n\u00e3o integra fauna e flora, muito menos o tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Suponho que se aprend\u00eassemos algo com o que os antigos chamavam de cosmo e sua grandeza, ent\u00e3o entender\u00edamos melhor aquelas pessoas, muitas vezes m\u00e1rtires de regimes ou sistemas pol\u00edticos nefastos, que viveram exclusivamente para a humanidade e esqueceram de si mesmas. A causa, a humanidade, o todo eram algo mais importante. Por consequ\u00eancia, estranhar\u00edamos cada vez mais atitudes e pr\u00e1ticas egoc\u00eantricas.<\/p>\n\n\n\n<p>Se formos bons aprendizes na escola da vida, tendo o tempo como professor, veremos, quem sabe, que coisas como a falta de respeito, a falta de cuidado, a falta de amor s\u00e3o intervalos, s\u00e3o rasgos, s\u00e3o v\u00e1cuos, s\u00e3o rasuras que surgiram quando nos afastamos de nossa humanidade e nos deslocamos para as terras estranhas do desumano, do desnatural, do desterrado, do desligado.<\/p>\n\n\n\n<p>Seguindo as li\u00e7\u00f5es do Mestre Tempo repudiaremos, talvez, o que nos atrapalha a sa\u00fade e a das pessoas que amamos, tudo o que tira a liberdade, tudo o que afasta, tudo o que divide, tudo o que separa. Cultivaremos o que une e re\u00fane, o que sincroniza. Algo pr\u00f3ximo do que prop\u00f5em as filosofias da unidade com o Todo do Universo, nossa casa m\u00e3e, nossa m\u00e3e terra, nossa fam\u00edlia-humanidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas talvez n\u00e3o tenhamos tanto sucesso na empreitada \u2013 o normal \u00e9 que n\u00e3o consigamos, pelo exato motivo que nos faz refletir sobre tudo isso: o tempo, que \u00e9 curto. Mas algo se pode fazer, ou melhor, pode-se come\u00e7ar por algum ponto: lembrar-se pelo menos uma vez no dia que se est\u00e1 vivendo. N\u00e3o \u00e9 tudo, mas j\u00e1 \u00e9 muita coisa.<\/p>\n\n\n\n<p>De passo em passo, aprenderemos um pouco mais sobre a arte de atravessar a ponte do tempo. Ou ao menos estaremos tentando. J\u00e1 \u00e9 um modo de evitar que ele n\u00e3o escorra em v\u00e3o. A quem, como diz o poema de Quintana, j\u00e1 tem os cinquenta ou mais, uma coisa \u00e9 certa: a n\u00e3o ser que finja para si, a verdade sobre o tempo se imp\u00f5e implacavelmente. E tudo o que foi dito nas linhas acima deixa de ser mera reflex\u00e3o e passa a ser uma busca di\u00e1ria. Verdade maior: na batalha com o tempo \u00e9 ele nosso maior advers\u00e1rio e o nosso mais fiel companheiro.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Contato<\/strong>: freire.jose@hotmail.com<\/h3>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Ilustra\u00e7\u00e3o<\/strong>: Vin\u00edcius Figueiredo<\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mais uma vez me cai sobre a cabe\u00e7a o poema \u201cO tempo\u201d, de M\u00e1rio Quintana. Um amigo me enviou, sabendo que este \u00e9 um dos temas mais fascinantes para mim. Mas o requinte de crueldade foi a forma escolhida: em v\u00eddeo e lido por Ant\u00f4nio Abujamra. Isso quebra qualquer pessoa! 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