{"id":22611,"date":"2023-12-22T22:21:27","date_gmt":"2023-12-23T01:21:27","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=22611"},"modified":"2023-12-22T22:21:28","modified_gmt":"2023-12-23T01:21:28","slug":"os-ciclos-se-fecham","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=22611","title":{"rendered":"Os ciclos se fecham"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Jose-Carlos.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-22612\" width=\"430\" height=\"316\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Jose-Carlos.jpg 700w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Jose-Carlos-300x221.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Jose-Carlos-80x60.jpg 80w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Jose-Carlos-696x512.jpg 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Jose-Carlos-571x420.jpg 571w\" sizes=\"(max-width: 430px) 100vw, 430px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong><em>Jos\u00e9 Carlos Freire<\/em><br><em>Professor na UFVJM, Campus de Te\u00f3filo Otoni\/MG<\/em><\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Sigo o caminho para escola. Mais uma entre as incont\u00e1veis ocasi\u00f5es de buscar as crias. Dessa vez, por\u00e9m, \u00e9 diferente: n\u00e3o apenas o \u00faltimo dia de aula do ano, mas o \u00faltimo dia nesta escola. Mudan\u00e7as da vida, ajustes que todas as fam\u00edlias fazem. Est\u00e1 tudo certo, j\u00e1 que mudar de escola \u00e9 algo comum.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 ineg\u00e1vel, por\u00e9m, o efeito do momento. Talvez por meu tra\u00e7o nost\u00e1lgico. Reparo a rua da nossa casa, as esquinas, o trajeto todo. Tento gravar cada cena com aquela sensa\u00e7\u00e3o de quem sempre viu algo, mas nunca reparou bem. \u00c9 que em dias comuns n\u00e3o pensamos assim; apenas seguimos a vida. S\u00f3 damos aten\u00e7\u00e3o maior para algo corriqueiro quando uma circunst\u00e2ncia nos leva a isso. Neste caso, uma despedida.<\/p>\n\n\n\n<p>Chego \u00e0 escola. Quantas vezes esta cena se repetiu? J\u00falia pega a mochila, chama por Lucas, v\u00eam at\u00e9 o carro, entram e eu pergunto como foi a aula, n\u00e3o sem um n\u00f3 na garganta. Ela sorri, ele sacode os ombros. N\u00e3o h\u00e1 muito o que dizer. Entendemos. Vamos para a casa.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Os-ciclos-se-fecham-Ilustracao.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-22613\" width=\"459\" height=\"326\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Os-ciclos-se-fecham-Ilustracao.jpeg 600w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Os-ciclos-se-fecham-Ilustracao-300x213.jpeg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Os-ciclos-se-fecham-Ilustracao-100x70.jpeg 100w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Os-ciclos-se-fecham-Ilustracao-592x420.jpeg 592w\" sizes=\"(max-width: 459px) 100vw, 459px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-verse\">\u00c9 curiosa a vida. S\u00e3o quase dez anos de um ciclo; agora um novo come\u00e7ar\u00e1. Em pouco tempo, essa carga emotiva que agora \u00e9 grande ser\u00e1 apenas uma doce lembran\u00e7a, como hoje acontece em rela\u00e7\u00e3o aos dias que antecederam sua entrada na vida escolar.<\/pre>\n\n\n\n<p>Em todo esse tempo, por\u00e9m, eu n\u00e3o pensava nisso. E por qu\u00ea? Acho que a ideia de calend\u00e1rio ajuda. Quando os povos antigos criaram, cada qual ao seu modo, modelos de contagem de meses e anos, a refer\u00eancia sempre foram os n\u00fameros inteiros. N\u00e3o falavam de 2,4 anos ou 38% de um m\u00eas. Falavam de 11 meses, 354 dias, 5 anos etc. Esse dado, por certo, contribuiu para o h\u00e1bito de se perceber, por exemplo, o final de um dia quando este termina; o final do m\u00eas quando faltam poucos dias para o pr\u00f3ximo; o final do ano quando o \u00faltimo m\u00eas vai se encerrando.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso o fim de um ciclo, por mais consci\u00eancia que se tenha dele durante seu decurso, somente se torna relevante quando se concretiza. Assim \u00e9, sobretudo, o final do ano. Mal se entra em dezembro e parece que as ruas se agitam, as pessoas andam mais depressa, parecem estar todas com pouco tempo para tanta coisa a ser finalizada. At\u00e9 mesmo o rel\u00f3gio parece mais acelerado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 ent\u00e3o que, naturalmente, entramos em \u201cmodo balan\u00e7o\u201d. E come\u00e7amos a avaliar o que foi e o que n\u00e3o foi feito, a reforma n\u00e3o realizada, a atividade f\u00edsica n\u00e3o levada a s\u00e9rio, amizades que ficaram sem contato e por a\u00ed vai. A \u00eanfase, quase sempre, recai sobre o que n\u00e3o conseguimos.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 uma aten\u00e7\u00e3o maior em cada coisa. Pessoas praticamente esquecidas v\u00eam \u00e0 mente. Compromissos importantes voltam \u00e0 cena. H\u00e1 quem, inclusive, retome as anota\u00e7\u00f5es feitas no dezembro passado sobre as metas para o ano que agora se encerra. Tudo isso \u00e9 natural e saud\u00e1vel. Balan\u00e7o feito, \u00e9 preciso serenidade para reconhecer os limites do que n\u00e3o foi poss\u00edvel e muita leveza para projetar o ano seguinte. De prefer\u00eancia, sem idealiza\u00e7\u00f5es, sem fantasias.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 a\u00ed que est\u00e1 a armadilha. Enredados no clima de fim de ano e maravilhados pela l\u00f3gica das compras \u2013 \u00e0 qual nunca conseguimos atender, mas cedemos \u2013 costumamos dobrar a aposta para o ano seguinte. Ent\u00e3o, projetamos tudo o que n\u00e3o conseguimos neste que se encerra e mais um tanto do pr\u00f3ximo.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o. N\u00e3o dar\u00e1 certo. O pr\u00f3ximo ano n\u00e3o ser\u00e1 a realiza\u00e7\u00e3o de tudo o que n\u00e3o foi poss\u00edvel neste; n\u00e3o ser\u00e1 o ano da minha \u201cvirada na vida\u201d; n\u00e3o emagrecerei tudo aquilo que espero; n\u00e3o aprenderei a tocar brilhantemente aquele instrumento; n\u00e3o lerei os dez livros e nem assistirei aos vinte filmes que ficaram pendentes. Sinto muito, mas ser\u00e1 apenas mais um ano. Comum e b\u00e1sico, como os demais.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, pensemos com os dois p\u00e9s no ch\u00e3o: ser\u00e1 um ano dif\u00edcil, muito dif\u00edcil. N\u00e3o h\u00e1 no horizonte pr\u00f3ximo nenhum sinal milagroso de solu\u00e7\u00e3o dos problemas sociais brasileiros; o sal\u00e1rio n\u00e3o subir\u00e1 quase nada e os pre\u00e7os continuar\u00e3o a subir demais; os problemas ambientais e clim\u00e1ticos simplesmente ser\u00e3o piores; a qualidade dos alimentos e da sa\u00fade p\u00fablica em geral vai decair. E, se n\u00e3o bastasse tudo que \u00e9 da ordem social, ainda h\u00e1 a dimens\u00e3o pessoal que cada qual de n\u00f3s sabe o quanto de desafios reserva para o ano seguinte. A come\u00e7ar de um dado simples: estarei mais velho.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cMas pensar assim \u00e9 desanimador!\u201d, voc\u00ea dir\u00e1. Por favor, n\u00e3o me condene. Quem imp\u00f5e isso n\u00e3o sou eu, mas a vida. O que me parece mais sensato seria tomar as coisas do seguinte modo: posto que o quadro geral \u00e9 esse, o que \u00e9 poss\u00edvel fazer? A\u00ed est\u00e1, penso, o princ\u00edpio de um planejamento honesto para o ano seguinte.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu, voc\u00ea e todo mundo far\u00e1 no pr\u00f3ximo ano somente o que for poss\u00edvel, na medida das condi\u00e7\u00f5es e de acordo com nosso empenho. Elas, as condi\u00e7\u00f5es, n\u00e3o dependem s\u00f3 de n\u00f3s e \u00e9 preciso aceitar isso. Lutar, batalhar ao m\u00e1ximo, mas sem ilus\u00f5es. E ele, o nosso empenho, este sim est\u00e1 no nosso controle. No entanto, sem super-hero\u00edsmo, por favor.<\/p>\n\n\n\n<p>O mundo ser\u00e1, um ano mais, palco de atrocidades e ignor\u00e2ncia; o sistema operacional geral \u2013 a l\u00f3gica mercantil e de concorr\u00eancia \u2013 ser\u00e1 ainda mais perverso. \u00c9 evidente, por\u00e9m, que sempre h\u00e1 brechas, pequenos espa\u00e7os de manobra, pequenas possibilidades. A elas nos agarremos com toda a for\u00e7a! Em todos os campos da vida social, como costuma dizer um velho amigo, pelo menos 2 % de profissionais far\u00e3o seu trabalho com compet\u00eancia e senso \u00e9tico. Fa\u00e7amos parte desse pequeno grupo com toda convic\u00e7\u00e3o!<\/p>\n\n\n\n<p>No mais, rememos a canoa, com determina\u00e7\u00e3o, paci\u00eancia e serenidade. Nada de m\u00e1gico acontecer\u00e1 na virada do ano. Ser\u00e1 apenas mais um marco no calend\u00e1rio. Mas, cada qual de n\u00f3s \u2013 assim espero \u2013 ter\u00e1 mais um trecho de vida. E isso, acaso, n\u00e3o \u00e9 muito?<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Que seja bom o pr\u00f3ximo ciclo, o quanto for poss\u00edvel.<\/strong>\u00a0<\/h3>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-verse\"><strong>Contato<\/strong>: freire.jose@hotmail.com<\/pre>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-verse\"><strong>Ilustra\u00e7\u00e3o<\/strong>: Vin\u00edcius Figueiredo<\/pre>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sigo o caminho para escola. Mais uma entre as incont\u00e1veis ocasi\u00f5es de buscar as crias. Dessa vez, por\u00e9m, \u00e9 diferente: n\u00e3o apenas o \u00faltimo dia de aula do ano, mas o \u00faltimo dia nesta escola. Mudan\u00e7as da vida, ajustes que todas as fam\u00edlias fazem. Est\u00e1 tudo certo, j\u00e1 que mudar de escola \u00e9 algo comum. 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