{"id":2326,"date":"2020-08-04T10:19:50","date_gmt":"2020-08-04T13:19:50","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=2326"},"modified":"2020-08-04T10:20:44","modified_gmt":"2020-08-04T13:20:44","slug":"a-gente-se-acostuma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=2326","title":{"rendered":"A gente se acostuma"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Jos\u00e9-Carlos.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2327\" width=\"387\" height=\"284\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Jos\u00e9-Carlos.jpg 700w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Jos\u00e9-Carlos-300x221.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Jos\u00e9-Carlos-80x60.jpg 80w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Jos\u00e9-Carlos-696x512.jpg 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Jos\u00e9-Carlos-571x420.jpg 571w\" sizes=\"(max-width: 387px) 100vw, 387px\" \/><figcaption><strong>Jos\u00e9 Carlos Freire<\/strong><br>Mestre em Filosofia pela Faculdade S\u00e3o Bento\/SP.<br>Professor na UFVJM, campus de Te\u00f3filo Otoni<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Recentemente correu no notici\u00e1rio a informa\u00e7\u00e3o de que houve, em plena pandemia do coronav\u00edrus, aumento da fortuna dos brasileiros que possuem mais de um bilh\u00e3o em patrim\u00f4nio. A mesma sorte dos ditos bilion\u00e1rios foi verificada nos demais pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, o que confirma o cen\u00e1rio de meses anteriores em pa\u00edses como os Estados Unidos. Os dados s\u00e3o da Forbes, revista de neg\u00f3cios que publica anualmente a lista de bilion\u00e1rios no mundo, classificados de acordo com suas fortunas. Sim. Existe uma revista especializada no assunto. O que j\u00e1 \u00e9 not\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Soube da not\u00edcia enquanto ouvia um programa matinal de r\u00e1dio. Como de costume, as manchetes v\u00e3o se sobrepondo de tal maneira que assuntos de enorme relev\u00e2ncia e outros corriqueiros formem um mosaico. Assim \u00e9 tamb\u00e9m o notici\u00e1rio televisivo. No meu caso, o que veio depois da not\u00edcia bomb\u00e1stica do aumento das fortunas dos bilion\u00e1rios foi a previs\u00e3o do tempo&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Naturaliza\u00e7\u00e3o. Esse \u00e9 o termo. \u00c9 comum sua aplica\u00e7\u00e3o aos processos sociais que de tanto se repetirem passam a ser vistos como naturais. Ent\u00e3o, assim como a chuva que molha, o vento que sopra, e a fuma\u00e7a que sobe tamb\u00e9m aspectos da vida social como a desigualdade econ\u00f4mica passam a ser concebidos como inevit\u00e1veis. Um bom indicativo de que tal processo se tenha dado est\u00e1 no senso comum, ou seja, aquela vis\u00e3o geral que vai se cristalizando no cotidiano, nas conversas e nas mensagens trocadas. A formula\u00e7\u00e3o varia, mas o seu conte\u00fado b\u00e1sico \u00e9 este: \u201c\u00c9 assim mesmo!\u201d. Por vezes, h\u00e1 um refor\u00e7o hist\u00f3rico no argumento: \u201cDesde que o mundo \u00e9 mundo foi assim!\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre as dezenas de poemas recitados pelo grande Antonio Abujamra no programa Provoca\u00e7\u00e3o, n\u00e3o me esque\u00e7o de um que me marcou de forma especial. Trata-se de \u201cEu sei, mas n\u00e3o devia\u201d, de Marina Colasanti. Convido o leitor, terminada a leitura desta cr\u00f4nica, pela qual desde j\u00e1 agrade\u00e7o imensamente, a fazer uma busca r\u00e1pida a\u00ed no seu navegador. Digite: \u201cAbujamra a gente se acostuma v\u00eddeo\u201d. O poema \u00e9 brilhante para ser lido, mas quando recitado com aquela propriedade fica soberbo.<\/p>\n\n\n\n<p>Num chamado \u00e0quilo que poder\u00edamos nomear de \u201cdesnaturaliza\u00e7\u00e3o\u201d, o poema nos desloca do senso comum para o campo da reflex\u00e3o. N\u00e3o sei como \u00e9 para voc\u00ea que j\u00e1 o leu ou voc\u00ea que o ler\u00e1 daqui a pouco, mas a minha experi\u00eancia \u00e9 sempre inquietante \u2013 ouvindo-o pelo Abujamra eu diria que \u00e9 assustadora. Volto a ele com sentimento duplo: necessito, mas tenho medo. \u00c9 verdade! A gente se acostuma demais. Com tudo o que \u00e9 mais desumanizador e perverso, com tudo o que \u00e9 aberrante.<\/p>\n\n\n\n<p>Algu\u00e9m poderia se contrapor, de forma naturalizada por sinal. Sempre houve pobreza, riqueza, desigualdade etc. N\u00e3o \u00e9 verdade. S\u00e3o in\u00fameros os relatos de experi\u00eancia ao longo da hist\u00f3ria, curtas ou mais duradoras, famosas ou quase desconhecidas, em que grupos sociais distintos e at\u00e9 mesmo povos inteiros experimentaram modos de vida coletivos, em que a l\u00f3gica n\u00e3o consistia na abund\u00e2ncia de uns sobre a mis\u00e9ria de outros e sim na vida digna de todos. Ou pelo menos na busca deste horizonte. E ainda que fosse apenas uma experi\u00eancia isolada: ela seria suficiente para mostrar que a desigualdade econ\u00f4mica \u00e9 um processo constru\u00eddo socialmente e n\u00e3o um fen\u00f4meno da natureza. \u00c9 preciso, portanto, espantar essa ladainha que diuturnamente nos \u00e9 imposta segundo a qual \u00e9 natural que haja \u2013 numa mesma com unida de, cidade ou pa\u00eds \u2013 bilion\u00e1rios e miser\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas de onde vem a normalidade com que \u00e9 tratado o assunto? Como \u00e9 poss\u00edvel que numa situa\u00e7\u00e3o de pandemia em que a maioria dos que morrem s\u00e3o pobres e outros tantos milh\u00f5es perdem empregos encaremos tamanha discrep\u00e2ncia econ\u00f4mica de forma t\u00e3o trivial? Como \u00e9 poss\u00edvel que o jornalista passe, sem nenhum problema, da not\u00edcia do enriquecimento dos bilion\u00e1rios para a previs\u00e3o do tempo? E o pior: como podemos ouvir esse procedimento jornal\u00edstico sem estranhamento?<\/p>\n\n\n\n<p>Perguntas dif\u00edceis exigem respostas complexas. N\u00e3o me proponho a uma tarefa t\u00e3o grande. Queria apenas apontar um aspecto que, junto a outros tantos, podem nos ajudar a desenrolar esse novelo. Falo do car\u00e1ter m\u00e1gico com que a vida social foi revestida h\u00e1 pelo menos duzentos anos, o que tem a ver n\u00e3o apenas com a l\u00f3gica de neg\u00f3cios pr\u00f3pria da sociedade de mercado, mas com o verniz com que fomos tingindo esta sociedade. Dito de maneira mais direta: para que haja bilion\u00e1rios, \u00e9 necess\u00e1rio que haja miser\u00e1veis. \u00c9 um jogo de for\u00e7as. Para que se diminua a mis\u00e9ria, \u00e9 preciso que o mesmo se d\u00ea com a fortuna exorbitante. Simples assim. Qualquer planejamento econ\u00f4mico decente para um pa\u00eds, estado ou munic\u00edpio passaria por reduzir os extremos. E da\u00ed seguir at\u00e9 o limite do equil\u00edbrio que for desejado e constru\u00eddo pelos cidad\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p>Ocorre que n\u00e3o \u00e9 esta a compreens\u00e3o predominante em nossos tempos, mas outra: a da concilia\u00e7\u00e3o de fortunas cada vez maiores de poucos com a mis\u00e9ria cada vez mais cruel de muitos. Evidentemente, para os bilion\u00e1rios que j\u00e1 entraram ou almejam entrar para a lista da revista Forbes a posi\u00e7\u00e3o \u00e9 confort\u00e1vel. Mas nem tanto, porque os miser\u00e1veis podem vir a reclamar. E como evit\u00e1-lo? \u00c9 preciso propagar a no\u00e7\u00e3o de que tudo isso seja natural. E contra a natureza n\u00e3o se luta, aprende-se a conviver. Uma grandiosa engenharia de ideias e valores que tentam justificar o injustific\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>As coisas poderiam ser de outro modo? Talvez. Certo \u00e9 que uma das condi\u00e7\u00f5es seria o questionamento de nossas pr\u00e1ticas e convic\u00e7\u00f5es t\u00e3o cristalizadas. Como no poema de Marina Colasanti. Por isso, refor\u00e7o o convite: corra l\u00e1 leitor! Ou\u00e7a-o na voz de Abujamra. Eu o farei agora mesmo. Antes que me acostume ainda mais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Recentemente correu no notici\u00e1rio a informa\u00e7\u00e3o de que houve, em plena pandemia do coronav\u00edrus, aumento da fortuna dos brasileiros que possuem mais de um bilh\u00e3o em patrim\u00f4nio. A mesma sorte dos ditos bilion\u00e1rios foi verificada nos demais pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, o que confirma o cen\u00e1rio de meses anteriores em pa\u00edses como os Estados Unidos. [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2327,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"rop_custom_images_group":[],"rop_custom_messages_group":[],"rop_publish_now":"initial","rop_publish_now_accounts":[],"rop_publish_now_history":[],"rop_publish_now_status":"pending","footnotes":""},"categories":[25,24],"tags":[863,864,683,75],"class_list":["post-2326","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destaque","category-opiniao","tag-a-gente-se-acostuma","tag-diario-trubuna","tag-jose-carlos-freire","tag-teofilo-otoni"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2326"}],"collection":[{"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2326"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2326\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2329,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2326\/revisions\/2329"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/2327"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2326"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2326"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2326"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}