{"id":23575,"date":"2024-02-27T01:13:15","date_gmt":"2024-02-27T04:13:15","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=23575"},"modified":"2024-02-27T01:16:59","modified_gmt":"2024-02-27T04:16:59","slug":"encontro-de-fantasmas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=23575","title":{"rendered":"Encontro de fantasmas"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"621\" height=\"441\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/0-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-23576\" style=\"width:407px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/0-1.jpg 621w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/0-1-300x213.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/0-1-100x70.jpg 100w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/0-1-591x420.jpg 591w\" sizes=\"(max-width: 621px) 100vw, 621px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong><strong><em>Jos\u00e9 Carlos Freire<\/em><\/strong><br><strong>Professor na UFVJM, Campus de Te\u00f3filo Otoni\/MG<\/strong><\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>O primeiro estranhamento foi na chegada. Ela preferia que as crian\u00e7as ficassem cal\u00e7adas, mas sua m\u00e3e, que os recebera no port\u00e3o, j\u00e1 foi logo dizendo aos netos para arrancarem os sapatos. Ela se lembrou que, quando crian\u00e7a, tamb\u00e9m corria pelo quintal de p\u00e9 no ch\u00e3o. Mas agora pensava diferente. Vencida, pegou a bagagem e entrou.<\/p>\n\n\n\n<p>Filhos, sobrinhos que ali j\u00e1 estavam passando as f\u00e9rias, amigos dos amigos&#8230; um furd\u00fancio pela casa. A m\u00e3e parecia adorar aquela bagun\u00e7a e os incentivava: \u201cV\u00e3o l\u00e1 na goiabeira! Vejam se tem fruta pra voc\u00eas!\u201d. Ela n\u00e3o se op\u00f4s. Chegar ao final do primeiro dia em paz era a meta. Lembrou-se de uma can\u00e7\u00e3o que a acalmava e foi para o quarto cantarolando. Tinha que desfazer as malas.<\/p>\n\n\n\n<p>A fotografia desbotada permanecia sobre a penteadeira: ela, os tr\u00eas irm\u00e3os do meio e a irm\u00e3 mais nova. Todos com as roupas de festa junina na varanda da velha casa. H\u00e1 quanto tempo n\u00e3o ligava para eles? Soprou esse pensamento para longe. Lembrou-se do av\u00f4, de quem conheceu apenas uma face afetuosa e do qual tanto gostava. Um sentimento d\u00fabio a invadiu: aquilo tudo era uma recorda\u00e7\u00e3o boa, mas, ao mesmo tempo, parecia ser uma outra vida, de uma outra pessoa.<\/p>\n\n\n\n<p>O segundo estranhamento n\u00e3o demorou. Agora a m\u00e3e e o pai davam balas para a meninada. Ela interrompeu a farra dizendo que j\u00e1 haviam comido doce demais na viagem. \u201cCada parada do \u00f4nibus era uma coisa!\u201d. O pai a olhou desapontado, a m\u00e3e fingiu arrumar a blusa do netinho mais novo que amea\u00e7ava chorar. Era ceder ou entrar pra hist\u00f3ria como uma m\u00e3e cruel. Voltou ao quarto e a farra seguiu.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"700\" height=\"493\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Ilustracao-Encontro-de-fantasmas.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-23578\" style=\"width:472px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Ilustracao-Encontro-de-fantasmas.jpg 700w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Ilustracao-Encontro-de-fantasmas-300x211.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Ilustracao-Encontro-de-fantasmas-100x70.jpg 100w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Ilustracao-Encontro-de-fantasmas-696x490.jpg 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Ilustracao-Encontro-de-fantasmas-596x420.jpg 596w\" sizes=\"(max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-verse\">\u00c0 noite, as hist\u00f3rias de assombra\u00e7\u00e3o que ela sempre detestou. Nunca contava essas coisas aos dois filhos. Mas por que a garotinha e o menino agora se deliciavam ao ouvir o av\u00f4? N\u00e3o eram eles os medrosos, que at\u00e9 hoje acordavam com pesadelos? Por que ficavam diferentes na casa dos av\u00f3s?<\/pre>\n\n\n\n<p>O dia seguinte amanheceu nublado. A m\u00e3e, depois do caf\u00e9, chamou-a para ajudar com o preparo da dobradinha, prato que, por sinal, ela tamb\u00e9m detestava. \u201cPor que voc\u00ea \u00e9 t\u00e3o severa com as crian\u00e7as?\u201d, disse a m\u00e3e, com ares de interrogat\u00f3rio. Ela respirou. \u201cN\u00e3o sou severa, apenas tento educ\u00e1-los bem!\u201d. O restante da frase ela n\u00e3o disse, mas ressoou no seu cora\u00e7\u00e3o: \u201c&#8230; voc\u00ea \u00e9 que era severa com a gente!\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto ela se debatia com frases contidas, a m\u00e3e, do seu lado, tamb\u00e9m se desassossegava. A dificuldade em dialogar com a sua filha mais velha lhe fazia ressurgir um remorso imenso por ter sido t\u00e3o dura com os cinco filhos. Mas n\u00e3o tinha coragem de assumi-lo. Calou-se. Abrir aquela porta da mem\u00f3ria era arriscado; poderia vir tudo junto, sua inf\u00e2ncia, as duras repreens\u00f5es do velho pai. Tem coisas que precisam ficar no por\u00e3o. Para sempre.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 noite os av\u00f3s quiseram levar os netos \u00e0 igreja, fi\u00e9is que eram da tradi\u00e7\u00e3o Metodista. Mas ela havia se convertido ao catolicismo do marido quando se casou. Aquilo era um problema agora. Depois de v\u00e1rias fa\u00edscas, frases ditas e muitas silenciadas, resolveram que a menina iria com os av\u00f3s e primos, enquanto o filho seguiria com a m\u00e3e. Na sa\u00edda, como forma de protesto final, ela lembrou do anivers\u00e1rio de quatro anos de morte do marido e, n\u00e3o sem maldade, disse que o que todos deveriam fazer era ir \u00e0 missa por aquele motivo. \u201cQuarto estranhamento\u201d, pensou, enquanto fechava o port\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Da\u00ed em diante parou de contar. Foram tantas desaven\u00e7as que, ao final de cinco dias, ela apenas queria que o tempo passasse, para logo voltar \u00e0 cidade onde vivia com as crian\u00e7as. No apartamento, pelo menos, estaria protegida daquelas coisas. Poderia, ent\u00e3o, deixar tudo na gaveta uma vez mais. Assim como quando sa\u00edra de casa, \u00e0 revelia dos pais e dos irm\u00e3os, para cursar psicologia. \u201cGrande coisa!\u201d, pensou, lembrando-se que amigos dela de \u00e1reas totalmente diferentes eram mais bem resolvidos com suas fam\u00edlias. \u201cEu quis fazer psicologia por que tinha problema ou arrumei problema por que fiz psicologia?\u201d. Essa frase besta, pela en\u00e9sima vez, voltava-lhe. Deu de ombros. Seguiu arrumando as malas.<\/p>\n\n\n\n<p>No \u00f4nibus, um suspiro de al\u00edvio ao se despedirem com acenos pela \u00faltima vez. A manobra a fez bater a cabe\u00e7a no vidro: \u201cMais essa?!\u201d, deixou escapar com raiva. A filhinha n\u00e3o entendeu; o mais velho j\u00e1 jogava no celular. Na rotat\u00f3ria de sa\u00edda da cidade, deixando o joguinho de lado, o menino assumiu o que seria lugar da m\u00e3e e perguntou \u00e0 irm\u00e3zinha: \u201cE a\u00ed, gostou do passeio na casa da Vov\u00f3?\u201d. \u201cDemais da conta!\u201d, respondeu a pequena, com olhos brilhando.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela permanecia calada. O n\u00f3 na garganta lhe era quase insuport\u00e1vel. O m\u00e1ximo que conseguiu dizer foi: \u201cVamos pra casa, meus amores!\u201d. E adormeceu profundamente. Sonhou que era de novo crian\u00e7a e passeava por um lindo jardim. Sentia-se leve e feliz. Pegou duas flores e correu para dar aos pais que a olhavam de longe. Quando ia entregar \u00e0 sua m\u00e3e, esta desapareceu e a flor se transformou numa abelha furiosa que picou seu dedo. Chorando, ia pedir socorro ao pai, mas este agora era apenas um tronco seco de \u00e1rvore.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Contato: <a href=\"mailto:freire.jose@hotmail.com\">freire.jose@hotmail.com<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ilustra\u00e7\u00e3o: Vin\u00edcius Figueiredo<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O primeiro estranhamento foi na chegada. Ela preferia que as crian\u00e7as ficassem cal\u00e7adas, mas sua m\u00e3e, que os recebera no port\u00e3o, j\u00e1 foi logo dizendo aos netos para arrancarem os sapatos. Ela se lembrou que, quando crian\u00e7a, tamb\u00e9m corria pelo quintal de p\u00e9 no ch\u00e3o. Mas agora pensava diferente. Vencida, pegou a bagagem e entrou. 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