{"id":24000,"date":"2024-03-28T12:41:26","date_gmt":"2024-03-28T15:41:26","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=24000"},"modified":"2024-03-31T23:57:03","modified_gmt":"2024-04-01T02:57:03","slug":"manha-de-sol","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=24000","title":{"rendered":"Manh\u00e3 de sol"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"621\" height=\"441\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/0.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-24001\" style=\"width:422px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/0.jpg 621w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/0-300x213.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/0-100x70.jpg 100w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/0-591x420.jpg 591w\" sizes=\"(max-width: 621px) 100vw, 621px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong><strong>Jos\u00e9 Carlos Freire<\/strong><br><strong>Professor na UFVJM, Campus de Te\u00f3filo Otoni\/MG<\/strong><\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Movimento na pra\u00e7a, feriado prolongado. Gente, bicicleta, o carro da laranja que passa. Um dia comum. Mas o que seria o comum na parte perif\u00e9rica da cidade de um pa\u00eds perif\u00e9rico?<\/p>\n\n\n\n<p>O rel\u00f3gio do celular marca dez horas. Troca mensagem com o pai, agente de limpeza urbana como ele. A diferen\u00e7a \u00e9 que, neste s\u00e1bado, o pai trabalha; ele est\u00e1 de folga. Um churrasquinho e uma cerveja, a prosa com os amigos. Ele segue seu caminho. Sirenes. N\u00e3o \u00e9 uma opera\u00e7\u00e3o policial que vai lhe assustar, criado que foi sob sons de tiros nas madrugadas.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"531\" height=\"394\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/Ilustracao-Manha-de-sol-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-24006\" style=\"width:479px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/Ilustracao-Manha-de-sol-1.jpg 531w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/Ilustracao-Manha-de-sol-1-300x223.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/Ilustracao-Manha-de-sol-1-80x60.jpg 80w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/Ilustracao-Manha-de-sol-1-265x198.jpg 265w\" sizes=\"(max-width: 531px) 100vw, 531px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Repara, virando a esquina, que o policiamento \u00e9 feito em pequeno n\u00famero, mas com muito grito e chacoalh\u00e3o. Nunca gostou disso, ainda mais dessa forma. Tem amigos que foram para a pol\u00edcia, sabe o papel dela, por isso n\u00e3o consegue se conter e corre para o amontoado de gente em torno da \u00e1rvore central. \u00c9 que um senhor de idade havia sido abordado de forma rude.<\/p>\n\n\n\n<p>Chama o policial para conversar e este j\u00e1 saca a arma. A opini\u00e3o comum \u00e9 que numa hora dessas se deve ter a cabe\u00e7a fria e acalmar os \u00e2nimos. Exatamente. Mas a vida n\u00e3o \u00e9 previs\u00edvel, nem calcul\u00e1vel. Basta que se suba um tom de voz, um palavr\u00e3o direcionado e pronto! Ele v\u00ea, ao longe, o pai deixando o material de trabalho e vindo em sua dire\u00e7\u00e3o com movimentos enf\u00e1ticos dos bra\u00e7os. \u201cCalma! Calma\u201d, uma senhora grita.<\/p>\n\n\n\n<p>O suor lhe escorre pela face quando adverte o policial: \u201cVoc\u00ea n\u00e3o pode tratar um senhor de idade assim, rapaz! T\u00e1 l\u00f4co!\u201d. O policial visivelmente alterado impunha a arma: \u201cCala a boca! N\u00e3o t\u00f4 falando com voc\u00ea!\u201d. Os demais policiais est\u00e3o longe e s\u00e3o poucos. Era a hora de recuar? Ou a hora de avan\u00e7ar?<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 um empurra-empurra e seu corpo pesado \u00e9 lan\u00e7ado contra o policial sem que possa evitar. Muita gente reunida e agitada, tendo no meio uma pessoa com uma arma na m\u00e3o. Desde a inven\u00e7\u00e3o da p\u00f3lvora isso nunca deu certo. N\u00e3o seria agora. Um estampido seco, um calor insuport\u00e1vel no p\u00e9 esquerdo, o sangue jorra rapidamente. Do momento do tiro em diante, se fosse poss\u00edvel lhe pedir um relato detalhado, s\u00f3 conseguiria juntar fragmentos de imagens e sons. Em condi\u00e7\u00f5es normais, o procedimento policial adequado seria parar a abordagem e passar ao socorro \u00e0 v\u00edtima. Mas aquela situa\u00e7\u00e3o, de sa\u00edda, j\u00e1 n\u00e3o se enquadrava como normal.<\/p>\n\n\n\n<p>O sol \u00e9 escaldante, os sons se misturam, o pai esbraveja com o policial. Acalmar o pai ou acudir a dor no p\u00e9 que lhe dilacera? O pai leva um empurr\u00e3o do policial. Ele supera a dor do p\u00e9 e parte pra cima. Arranca a camisa, grita com toda a for\u00e7a: \u201cEstou desarmado, t\u00e1 vendo? Voc\u00ea t\u00e1 l\u00f4co? N\u00e3o empurra o Velho assim, cara!\u201d. Tentam tir\u00e1-lo dali, mas agora \u00e9 o policial quem quer passar a limpo a ofensa. A prop\u00f3sito, ofensa de quem?<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cLevanta as m\u00e3os, cidad\u00e3o!\u201d. Mal consegue ficar em p\u00e9, pela dor que j\u00e1 lhe sobe perna acima. \u201cLevanta as m\u00e3os, porra!\u201d. Ele tenta se controlar, mas \u00e9 dif\u00edcil. Encara o policial, mesmo cambaleante. S\u00e3o duas fa\u00edscas que se cruzam, s\u00f3 que uma vinda de algu\u00e9m armado e a outra de um ferido. Mais um empurr\u00e3o, mais um xingamento, a aglomera\u00e7\u00e3o se fecha. \u00c9 o caos.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa vez ele mal ouviu o estampido. Ou ouviu, mas o impacto abaixo da costela foi t\u00e3o forte que o fez desabar semiconsciente. Era um calor diferente que o primeiro no p\u00e9. Tomava-lhe o peito, a garganta.<\/p>\n\n\n\n<p>Recobre um pouco dos sentidos e v\u00ea o velho pai lhe segurando a cabe\u00e7a, aos gritos: \u201cCalma, meu filho! N\u00e3o se mexe! A ambul\u00e2ncia j\u00e1 vai chegar\u201d. Fazia mais de tr\u00eas d\u00e9cadas que n\u00e3o via o pai chorar. A \u00faltima vez foi quando caiu da bicicleta descendo o morro e quebrou o bra\u00e7o. Dentro do fusca do cunhado, l\u00e1 ia o pai segurando o menino entre bravo e desesperado. Mas agora era diferente: n\u00e3o havia braveza, s\u00f3 desespero. E muita raiva. Raiva da pol\u00edcia, raiva do mundo!<\/p>\n\n\n\n<p>Voltou \u00e0 consci\u00eancia j\u00e1 na ambul\u00e2ncia que cortava as ruas estreitas do morro. O socorrista estancando o sangramento, o pai segurando suas m\u00e3os. \u201cVelho! N\u00e3o dei conta&#8230;\u201d. A frase cortada indicava a quebra de um antigo pacto: nunca se indispor com pol\u00edcia em situa\u00e7\u00e3o desfavor\u00e1vel. Era a hora de um serm\u00e3o? Claro que n\u00e3o! O pai pediu que se calasse, com um toque suave de dedo em seus l\u00e1bios.<\/p>\n\n\n\n<p>Aquela sirene&#8230; Lembrou-se da inf\u00e2ncia. Mas como? D\u00e1 tempo de pensar tanta coisa num momento desses? Ora, a mente humana! Ela se expande sem freios nos instantes que antecedem o fim. Assim narra quem j\u00e1 passou por situa\u00e7\u00e3o de quase morte.<\/p>\n\n\n\n<p>Balan\u00e7ando naquela maca ele viu tanta coisa que nunca ser\u00e1 poss\u00edvel ningu\u00e9m saber. S\u00f3 se ele voltasse, mas aquela viagem era apenas de ida. Talvez tenha visto a saudosa m\u00e3e, o velho barraco onde nasceu, a escola, o agito do intervalo brincando de pol\u00edcia e ladr\u00e3o&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>O pai lhe ouve sussurrar. Chega mais perto para tentar ouvir. \u201cFogos&#8230;\u201d. \u201cO que, meu filho?\u201d, diz o pai com o peso de um press\u00e1gio imenso no peito. \u201cOs fogos. T\u00e1 chegando a hora pai&#8230;\u201d. Ele alucinava.<\/p>\n\n\n\n<p>De repente a represa se rompeu. O pai havia entendido: \u201cOs fogos de fim de ano!\u201d, lembrou. At\u00e9 a adolesc\u00eancia do menino, os dois sempre subiam at\u00e9 o alto do morro para ver a cidade na virada do ano. E cabia ao pequeno dizer ao pai que estava chegando a hora quando ouvia o som dos primeiros fogos.<\/p>\n\n\n\n<p>Abra\u00e7ou o filho com toda a for\u00e7a que conseguiu. Mil socorristas n\u00e3o impediriam aquele impulso. As l\u00e1grimas de toda uma vida de luta lavaram a face do filho. O motorista diminui a velocidade, desliga a sirene. Desta vez sem fogos, a hora havia chegado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Contato: <\/strong><a href=\"mailto:freire.jose@hotmail.com\"><strong>freire.jose@hotmail.com<\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ilustra\u00e7\u00e3o: Vin\u00edcius Figueiredo<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Movimento na pra\u00e7a, feriado prolongado. Gente, bicicleta, o carro da laranja que passa. Um dia comum. Mas o que seria o comum na parte perif\u00e9rica da cidade de um pa\u00eds perif\u00e9rico? O rel\u00f3gio do celular marca dez horas. Troca mensagem com o pai, agente de limpeza urbana como ele. 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