{"id":24488,"date":"2024-05-09T00:51:08","date_gmt":"2024-05-09T03:51:08","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=24488"},"modified":"2024-05-11T00:05:29","modified_gmt":"2024-05-11T03:05:29","slug":"a-curva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=24488","title":{"rendered":"A curva"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"621\" height=\"441\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/0.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-24489\" style=\"width:419px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/0.jpg 621w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/0-300x213.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/0-100x70.jpg 100w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/0-591x420.jpg 591w\" sizes=\"(max-width: 621px) 100vw, 621px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong><strong>Jos\u00e9 Carlos Freire<\/strong><br><strong>Professor na UFVJM, Campus de Te\u00f3filo Otoni\/MG<\/strong><\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Foi somente no hospital que ele recobrou de vez a consci\u00eancia. Tinha alguns relances de mem\u00f3ria. Lembrava-se de estar ao volante e de ter sentido o carro derrapar, mas n\u00e3o se recordava do impacto. Depois disso, trocava palavras com a filha, para saber como ela e o irm\u00e3o estavam. A esposa estava ferida, mas bem. Eram meio misturadas as cenas. O pessoal abrindo a porta, ajeitando suas pernas para tir\u00e1-lo do ve\u00edculo.<\/p>\n\n\n\n<p>O restante da hist\u00f3ria s\u00f3 conseguiu montar depois, aos poucos, juntando peda\u00e7os de lembran\u00e7as pr\u00f3prias, dados do boletim de ocorr\u00eancia e relatos dos filhos. Nos meses que se seguiram se acostumou a narrar os acontecimentos. O cuidado do seu pai ao buscar as crian\u00e7as no hospital, os exames, o apoio de amigos e amigas que tanto lhes ajudaram, a volta para casa, a lenta recupera\u00e7\u00e3o, a fisioterapia. Era comum que, ap\u00f3s contar a hist\u00f3ria, fechasse com a frase: \u201cNascemos de novo!\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A vida seguiu seu rumo e, depois de meses, um ano, dois, tr\u00eas, o que restava, al\u00e9m da mem\u00f3ria, eram pequenas sequelas no ombro e no joelho. Estava vivo! Era o que importava. De algum modo, era como se uma segunda chance de viver lhe fosse dada. \u201cUm b\u00f4nus!\u201d, pensou certa feita. \u201cEu tive um b\u00f4nus de vida!\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dia, conversando com um amigo, revelou algo que o inquietava: \u201cDe vez em quando eu penso: e se tudo isso aqui for apenas um sonho? Um filme que est\u00e1 passando na minha cabe\u00e7a? E se, na verdade, eu estou ainda naquele carro desacordado?\u201d. Essa ideia logo passava. A rotina se impunha. Um filme.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cFoi isso!\u201d, um dia pensou, lembrando-se de Vanila Sky, filme que tinha um personagem com traumas de um acidente e confus\u00e3o de mem\u00f3ria. Era evidente que ele, semelhante ao personagem, havia criado um roteiro fict\u00edcio para o seu caso e passou at\u00e9 a se valer disso para um autoaprendizado. Com amigos, costumava comentar sua teoria, sempre arrematando a conversa com esta senten\u00e7a: \u201cTemos que aproveitar cada instante de vida! Poder\u00edamos n\u00e3o estar aqui mais!\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 se haviam passado v\u00e1rios anos do acidente. Os filhos grandes, o trabalho, a fam\u00edlia. Tudo seguia seu fluxo. Mas aquela ideia sempre ressurgia: \u201cE se isso \u00e9 apenas um sonho?\u201d. Soprava o pensamento para longe e seguia.<\/p>\n\n\n\n<p>Ocorre que, em certa altura, ela passou a se repetir com mais frequ\u00eancia. Chegou a comentar com o mesmo amigo, que lhe tranquilizou: \u201cRelaxa, rapaz! \u00c9 sua mania de ficar filosofando sobre tudo\u201d. Concordava, mas sem muita convic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Certa manh\u00e3, a quest\u00e3o mudou de qualidade. Passando pela rua em frente ao mercado, seu trajeto de quase todos os dias, teve a n\u00edtida impress\u00e3o de que os cones que via n\u00e3o estavam daquele jeito antes. Eram seis: dois inteiros, quatro quebrados. Todos desalinhados. \u201cQue besteira!\u201d, pensou. Mas a estranheza era real. Era como se algu\u00e9m, entre um ato e outro da pe\u00e7a, mudasse o cen\u00e1rio. Ao se reabrirem as cortinas, o contraste se mostrava.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cOutro filme!\u201d, tranquilizou-se, lembrando de Matrix. Neste cl\u00e1ssico do cinema, que mostra a vida como uma grande proje\u00e7\u00e3o de imagens, havia momentos em que o protagonista percebia falhas na programa\u00e7\u00e3o. Adotou, ent\u00e3o, essa ideia para os momentos de estranhamento.<\/p>\n\n\n\n<p>O muro de uma das casas do morro em frente \u00e0 sua desabara. No ponto de t\u00e1xi o assunto era esse. Diziam que fazia tempo, das chuvas de janeiro. Mas j\u00e1 era abril! Como ele n\u00e3o havia percebido? Respondia para si mesmo, com solenidade: \u201cOutra falha da Matrix!\u201d. A torre da caixa d\u00b4\u00e1gua em frente \u00e0 escola que antes n\u00e3o existia. \u201cFalha da Matrix!\u201d. A explica\u00e7\u00e3o era boa, mas o assustava mais e mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Come\u00e7ou a perceber certos apag\u00f5es de lembran\u00e7a. Algumas coisas que os filhos contavam de meses atr\u00e1s ele n\u00e3o havia percebido. Era como se o tempo fosse dando saltos e ele n\u00e3o conseguisse ver alguns trechos. \u201cOutro filme&#8230;\u201d, balbuciou certo dia, recordando de uma hist\u00f3ria em que o personagem possu\u00eda um controle remoto m\u00e1gico que fazia o tempo acelerar, saltando etapas.<\/p>\n\n\n\n<p>Era evidente que aquilo crescia. As coisas se juntavam em sua cabe\u00e7a: \u201cS\u00f3 pode ser um filme! Por isso esses cortes!\u201d. J\u00e1 n\u00e3o usava mais o velho m\u00e9todo de aproveitar cada instante como se fosse \u00fanico, posto que poderia ter morrido; ao contr\u00e1rio, passava a olhar cada momento com um sentimento de despedida, como algu\u00e9m que, tendo um sonho bonito, percebesse que est\u00e1 sonhando e come\u00e7asse a se preparar para o momento de acordar.<\/p>\n\n\n\n<p>Certa noite, essa sensa\u00e7\u00e3o foi t\u00e3o forte, mas t\u00e3o forte, que ele resolveu fazer tudo como num ritual: olhou da varanda com calma a lua crescente, fechou as janelas da casa com leveza, trancou o port\u00e3o, colocou comida para a gatinha, beijou a filha e o filho demoradamente e, contendo as l\u00e1grimas, disse a eles as palavras mais ternas que conseguiu.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, j\u00e1 na cama, beijou a esposa com carinho e virou-se para o canto. Sentia-se leve como pluma ao vento. \u201cA vida \u00e9 um espet\u00e1culo t\u00e3o curto e t\u00e3o maravilhoso!\u201d, o pensamento lhe veio suavemente, junto com um sutil calafrio.<\/p>\n\n\n\n<p>De repente, viu-se na mesma estrada daquela viagem. Agora era tudo n\u00edtido! Sente o carro derrapando. O impacto, vidros quebrados, desmaia. Recobra os sentidos, troca palavras com a filha. Ela, o irm\u00e3o e a esposa est\u00e3o bem.<\/p>\n\n\n\n<p>Pessoas for\u00e7am a porta do carro, ajeitando suas pernas para lhe tirar do ve\u00edculo. Na urg\u00eancia, elas n\u00e3o percebem, no seu rosto ensanguentado, um leve sorriso. \u201cEnt\u00e3o foi isso!\u201d, ele pensa. \u201cFoi um belo filme\u201d, conclui. E com a calma de quem agora tudo entende, fecha os olhos pela \u00faltima vez.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Contato: <\/strong><a href=\"mailto:freire.jose@hotmail.com\"><strong>freire.jose@hotmail.com<\/strong><\/a><strong><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi somente no hospital que ele recobrou de vez a consci\u00eancia. Tinha alguns relances de mem\u00f3ria. Lembrava-se de estar ao volante e de ter sentido o carro derrapar, mas n\u00e3o se recordava do impacto. Depois disso, trocava palavras com a filha, para saber como ela e o irm\u00e3o estavam. A esposa estava ferida, mas bem. [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":24489,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_editorskit_title_hidden":false,"_editorskit_reading_time":0,"_editorskit_is_block_options_detached":false,"_editorskit_block_options_position":"{}","rop_custom_images_group":[],"rop_custom_messages_group":[],"rop_publish_now":"initial","rop_publish_now_accounts":[],"rop_publish_now_history":[],"rop_publish_now_status":"pending","footnotes":""},"categories":[24],"tags":[6274,42,683,75],"class_list":["post-24488","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao","tag-a-curva","tag-diario-tribuna","tag-jose-carlos-freire","tag-teofilo-otoni"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/24488"}],"collection":[{"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=24488"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/24488\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":24490,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/24488\/revisions\/24490"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/24489"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=24488"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=24488"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=24488"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}