{"id":24842,"date":"2024-06-08T22:50:54","date_gmt":"2024-06-09T01:50:54","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=24842"},"modified":"2024-06-11T11:59:58","modified_gmt":"2024-06-11T14:59:58","slug":"o-bilhete","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=24842","title":{"rendered":"O bilhete"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"621\" height=\"441\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/0.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-24843\" style=\"width:420px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/0.jpg 621w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/0-300x213.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/0-100x70.jpg 100w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/0-591x420.jpg 591w\" sizes=\"(max-width: 621px) 100vw, 621px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong><strong>Jos\u00e9 Carlos Freire<\/strong><br><strong>Professor na UFVJM, Campus de Te\u00f3filo Otoni\/MG<\/strong><\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>8 horas.<\/strong> Esta\u00e7\u00e3o Santa Cruz. Um vai-e-vem incans\u00e1vel de pessoas. A entrevista marcada para 8h30. Devia ter chegado antes, mas o tr\u00e2nsito&#8230; Do Terminal Capelinha at\u00e9 ali foi uma longa viagem. Era descer depressa e pegar o metr\u00f4 para Vila Mariana. Bolsas se enroscando na escada, o povo embolado, esbarr\u00f5es. Entrava, enfim, na esta\u00e7\u00e3o. J\u00e1 via a catraca. Daria tempo! Suspirou.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mas aquele papel&#8230; Chamou-lhe a aten\u00e7\u00e3o.<\/strong> Ele o viu cair da bolsa da senhora de blusa azul que saia. Um instante cruel de d\u00favida. Parecia um bilhete de passagem. Pegar o papel e correr atr\u00e1s da mulher podia lhe atrasar. Mas n\u00e3o o fazer parecia desonestidade. Se ningu\u00e9m mais tivesse visto? Ele sabia o que era ter dinheiro contado para transporte. Ele tinha seus valores.<\/p>\n\n\n\n<p>A pior d\u00favida \u00e9 a que n\u00e3o permite tempo para se pensar. Relutante, pegou o papel. Olhou depressa: era mesmo uma passagem de \u00f4nibus, o que lhe confirmou o acerto da decis\u00e3o. E se a mulher estivesse indo \u00e0 rodovi\u00e1ria para embarcar? Uma viagem de emerg\u00eancia para o interior?<\/p>\n\n\n\n<p>Mas havia a entrevista de emprego&#8230; Dobrou o papel na m\u00e3o. Um frio lhe atravessou a espinha. Aquele trabalho era a sua chance de sair da lama. Porteiro de pr\u00e9dio por quinze anos. Agora desempregado. Tinha que dar certo!<\/p>\n\n\n\n<p>Ele via a senhora, mas n\u00e3o podia alcan\u00e7\u00e1-la. Multid\u00e3o inversa, escada rolante. Gritar ele podia, mas n\u00e3o devia. Guardas de esta\u00e7\u00e3o n\u00e3o gostam disso. Acelerou o passo o quanto pode. Depois de uma maratona estafante a alcan\u00e7ou. Finalmente!<\/p>\n\n\n\n<p><strong>8 horas. <\/strong>Esta\u00e7\u00e3o Santa Cruz. Ela sai do vag\u00e3o com sua bolsa. Segue a andar com tranquilidade. Mas em S\u00e3o Paulo pode algu\u00e9m andar tranquilo? Que seja. A escada rolante com sua lentid\u00e3o n\u00e3o lhe incomoda tanto. Agrada-lhe estar de volta. A passagem que havia colocado no meio do livro cai, no esbarrar de bolsas e pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>Do nada, surge aquele homem, de tra\u00e7os simples. Sua afoba\u00e7\u00e3o a assustou demais da conta. O papel que ele traz na m\u00e3o ela nem reparou, evitando-o como a um pedinte. A insist\u00eancia dele a perturba. Parecia querer lhe tocar. Apressou o passo. At\u00e9 que ele, j\u00e1 com ares de desespero, tenta lhe enfiar a m\u00e3o no bolso da blusa. Um grito! O homem foge aos empurr\u00f5es entre as pessoas curiosas. Os guardas&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>8h05.<\/strong> Ele corre por entre carros, motos e gente at\u00e9 sair na Rua Borges Lagoa. N\u00e3o tinha sido boa ideia tentar enfiar a bendita passagem no bolso da mulher. O que ele podia fazer? Ele tentou explicar, mas ela o ignorou. Sua boa a\u00e7\u00e3o havia se transformado, de repente, em amea\u00e7a. Ladr\u00e3o! A palavra ainda ecoava nos seus ouvidos. Contornou o quarteir\u00e3o. Parou para respirar um pouco. Tudo aparentemente normal. Volta a esta\u00e7\u00e3o evitando ser visto pelos seguran\u00e7as. Na multid\u00e3o, um homem n\u00e3o \u00e9 ningu\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>8h10.<\/strong> O primeiro trem passa lotado. Ele empurra. \u00c9 empurrado. A camisa j\u00e1 apresenta marcas de suor, o que lhe d\u00e1 um aspecto desfavor\u00e1vel. O segundo trem ele pega.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>8h15.<\/strong> Depois de ser ouvida pelos seguran\u00e7as e liberada, ela entra no pr\u00e9dio que fica a um quarteir\u00e3o da esta\u00e7\u00e3o. Quando comenta sobre a tentativa de assalto, o porteiro lhe \u00e9 solid\u00e1rio. Ele maldiz esse tipo de gente que vive a roubar pessoas de bem.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>8h20.<\/strong> O trem ainda parado, entre Santa Cruz e Vila Mariana. Problemas na linha vermelha. \u201cOs trens circulam com velocidade reduzida e maior tempo de parada&#8230;\u201d. Devia ter ido a p\u00e9! Que raiva! De que adiantava essa ideia agora&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>8h25.<\/strong> Ela toma seu banho, ap\u00f3s beijar as filhas. O cansa\u00e7o da viagem lhe deixa aos poucos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>8h30.<\/strong> Ele corre desesperadamente com o endere\u00e7o na m\u00e3o, amassado, molhado pelo suor. Maldito metr\u00f4! Maldita mulher! Confunde-se com o n\u00famero do pr\u00e9dio. Para, volta, segue. \u00c9 l\u00e1!<\/p>\n\n\n\n<p><strong>8h32.<\/strong> Finalmente chega o local, mas est\u00e1 fechado. Bate com insist\u00eancia. Voz seca ao interfone lhe revela a fatalidade: os candidatos foram chamados pontualmente no hor\u00e1rio. Era o primeiro item da avalia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>8h40.<\/strong> Desolado. Segue passo lento de volta ao metr\u00f4. \u00c9 \u00f3dio o que sente? Ele n\u00e3o sabe dizer. Faltam-lhe as for\u00e7as. Ele tamb\u00e9m n\u00e3o sabe que para a vaga de emprego ser\u00e1 contratado algu\u00e9m com menos experi\u00eancia; e que ele, entre todos, era o melhor candidato. Tamb\u00e9m n\u00e3o sabe o que o futuro lhe reserva. Que oscilar\u00e1 entre o desemprego e o trabalho informal pelos pr\u00f3ximos sete anos. At\u00e9 pressente, mas n\u00e3o sabe. N\u00e3o sabe que ser\u00e1 preso por homic\u00eddio de uma jovem no primeiro assalto que inauguraria sua curta carreira criminal.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>8h45.<\/strong> Ela toma caf\u00e9, com as filhas. Desconhece a teia de acontecimentos. Ningu\u00e9m \u00e9 capaz de conhec\u00ea-la. N\u00e3o sabe que dali a alguns anos ter\u00e1 uma das jovens morta num assalto. N\u00e3o reconhecer\u00e1 aquele homem, mesmo sendo na sa\u00edda do mesmo metr\u00f4 Santa Cruz. Naquele domingo \u00e0 noite que, de in\u00e1bil e nervoso, o ladr\u00e3o disparar\u00e1 a arma sem querer. Tamb\u00e9m n\u00e3o entender\u00e1 aquele olhar que ele lhe lan\u00e7ar\u00e1, misto de desespero e \u00f3dio, como se a reconhecesse de outra vida. Um \u00f3dio s\u00f3 n\u00e3o t\u00e3o grande como o que ela ter\u00e1 dele, para sempre<strong>.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>9h15.<\/strong> Toca o telefone. \u00c9 o servi\u00e7o de informa\u00e7\u00f5es do metr\u00f4. Um bilhete de passagem com os dados dela na ficha de identifica\u00e7\u00e3o havia sido entregue, h\u00e1 pouco, por um senhor na administra\u00e7\u00e3o. A data do dia anterior, com sa\u00edda de Belo Horizonte e chegada a S\u00e3o Paulo. Quem teria recolhido esse bilhete usado se nem ela se lembrava mais? Agradeceu ao servi\u00e7o e pediu que jogassem fora o papel. Ele n\u00e3o tinha nenhuma import\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Contato: <\/strong><a href=\"mailto:freire.jose@hotmail.com\"><strong>freire.jose@hotmail.com<\/strong><\/a><\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>8 horas. Esta\u00e7\u00e3o Santa Cruz. Um vai-e-vem incans\u00e1vel de pessoas. A entrevista marcada para 8h30. Devia ter chegado antes, mas o tr\u00e2nsito&#8230; Do Terminal Capelinha at\u00e9 ali foi uma longa viagem. Era descer depressa e pegar o metr\u00f4 para Vila Mariana. Bolsas se enroscando na escada, o povo embolado, esbarr\u00f5es. Entrava, enfim, na esta\u00e7\u00e3o. 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