{"id":26122,"date":"2024-09-04T22:38:37","date_gmt":"2024-09-05T01:38:37","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=26122"},"modified":"2024-09-04T22:38:38","modified_gmt":"2024-09-05T01:38:38","slug":"as-tres-revoltas-de-jovelino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=26122","title":{"rendered":"As tr\u00eas revoltas de Jovelino"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"621\" height=\"441\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/0.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-26123\" style=\"width:439px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/0.jpg 621w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/0-300x213.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/0-100x70.jpg 100w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/0-591x420.jpg 591w\" sizes=\"(max-width: 621px) 100vw, 621px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong><strong>Jos\u00e9 Carlos Freire<\/strong><br><strong>Professor na UFVJM, Campus de Te\u00f3filo Otoni\/MG<\/strong><\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A primeira foi aos nove anos. Ele resmungou qualquer coisa quando seu pai, Francisco, avisou que a fam\u00edlia devia se mudar para o outro lado do cafezal. O pai de Jovelino vivia ali desde menino; ficou na casa depois que os pais morreram e ali seguia com sua prole. Continuava a rela\u00e7\u00e3o que vinha de longa data como agregado nas terras de Seu Serafim, grande propriet\u00e1rio que fundou o Bom Jesus, trouxe gente, padre e venda.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m nas imedia\u00e7\u00f5es sabia dizer desde quando a fam\u00edlia daquele parrudo fazendeiro de bigode fino havia ali fincado suas posses. Tudo quanto era morador da regi\u00e3o, assim como Francisco, trabalhava para ele, na colheita do caf\u00e9, na lida do gado, na destoca ou na planta\u00e7\u00e3o. Seu Serafim foi o primeiro a ter autom\u00f3vel, depois o r\u00e1dio. Assim seria tamb\u00e9m, mais adiante, com a televis\u00e3o e o trator.<\/p>\n\n\n\n<p>Foram quatro verg\u00f5es nas pernas deixados pela vara de marmelo. Francisco preferia castigar assim os filhos, j\u00e1 que chicotear as costas lhe parecia excessivo. \u201cNa sua idade, seu bisav\u00f4 apanhava era no tronco!\u201d, gritou a Jovelino. O menino n\u00e3o entendia por que tinham que sair da casinha onde havia crescido. Calou-se e aceitou; \u00fanica op\u00e7\u00e3o que restava. Os irm\u00e3os mais novos, diante da cena, desistiram de qualquer resmungo.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Seu Serafim, retirar a fam\u00edlia de Francisco da casinha era t\u00e3o natural quanto substituir um mour\u00e3o da cerca. O a\u00e7ude iria alagar grande parte do descampado e a velha casa seria encoberta. A mudan\u00e7a foi feita de carro\u00e7a: pratos e panelas, os var\u00f5es da cama, os velhos colch\u00f5es de palha, mesa e cadeiras e algumas miudezas.<\/p>\n\n\n\n<p>A segunda revolta foi quando Jovelino j\u00e1 era rapazinho. A enchente tinha arrebentado o a\u00e7ude, alagando toda a baixada da fazenda. Ali, al\u00e9m da casinha de adobe para onde a fam\u00edlia havia sido deslocada, ficava o curral, a meia l\u00e9gua da sede da propriedade.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de sair correndo com a fam\u00edlia e tirar o que foi poss\u00edvel da casa, Francisco voltou para abrir a porteira do curral onde estavam os bezerros. Conseguiu salvar todos, mas se embara\u00e7ou no velho arame farpado. A infec\u00e7\u00e3o dos graves ferimentos n\u00e3o lhe deu mais que dois meses de vida. Nem os rem\u00e9dios de Dr. Valfredo, que passava pela regi\u00e3o de tempos em tempos no seu Ford Rural azul, nem o emplastro de folhas da velha Luzia deram resultado.<\/p>\n\n\n\n<p>Aquela foi uma revolta silenciosa, engolida a seco. Jovelino n\u00e3o soube bem com quem e nem como se rebelar diante da morte do pai. Mesmo com sua rigidez, aquele homem era sua refer\u00eancia e lhe parecera sempre imortal. Agora, era fazer nova mudan\u00e7a pra outra casinha, assumir o lugar do pai no trabalho com o gado, cuidar da m\u00e3e de sa\u00fade desgastada e introduzir os irm\u00e3os na labuta.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi bem depois, quando Jovelino j\u00e1 tinha seus tr\u00eas filhos e uma filha, a terceira vez que se revoltou. O mais velho havia brigado por motivo besta com o neto de Seu Serafim na visita quinzenal que o futuro herdeiro da fazenda costumava fazer com a fam\u00edlia, vindo de S\u00e3o Rom\u00e3o. Jovelino arrastou o menino pelas orelhas at\u00e9 a casa enquanto esbravejava. Era exatamente o filho que havia dado para Seu Serafim batizar. Fez o menino pedir desculpas ao padrinho e garantiu que isso nunca mais aconteceria.<\/p>\n\n\n\n<p>E cuidou das cercas, curou o gado, reformou as porteiras do curral, refor\u00e7ou o a\u00e7ude, aparou a grama da sede e passou a seguir as ordens do filho de Seu Serafim quando este morreu. Casou filhos e filha com filhas e filho de outros moradores do Bom Jesus. Ganhou cabelos brancos; enterrou a m\u00e3e e, passado n\u00e3o muito, tamb\u00e9m a esposa depois de longa enfermidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A casinha de adobe se desgastou com o tempo, assim como o seu morador. Tr\u00eas dos filhos ficaram pela regi\u00e3o, seguindo a sina que vinha de longa data de trabalhar na fazenda em troca de onde morar. Apenas a mais nova n\u00e3o quis ficar na ro\u00e7a e se mudou para S\u00e3o Rom\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi ela quem acolheu o velho Jovelino, mesmo a contragosto, depois que a fazenda foi toda refeita. Novos rebanhos e amplas pastagens mudaram a paisagem e, como um menino que apaga o desenho de um papel, fizeram sumir a mata, a planta\u00e7\u00e3o e todas as casinhas de adobe, espalhando pelo mundo seus moradores como formigas que t\u00eam o formigueiro destru\u00eddo. Ordenhadeiras mec\u00e2nicas e grandes resfriadores anunciavam novos tempos.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi numa manh\u00e3 chuvosa que Jovelino apeou do \u00f4nibus no p\u00e9 do morro onde morava a filha com marido e dois pequenos. Toda sua mudan\u00e7a na mala herdada do pai. Restou-lhe o quartinho dos fundos do qual saia pouco. A cidade lhe parecia uma selva, com barulho e movimento que tiravam o seu sossego. Dias e meses se arrastaram.<\/p>\n\n\n\n<p>Jovelino n\u00e3o chegou a ver manh\u00e3 do dia em que se revoltaria pela quarta vez. Filha e genro haviam combinado de coloc\u00e1-lo no asilo municipal, j\u00e1 que n\u00e3o tinham condi\u00e7\u00f5es de mant\u00ea-lo mais. Na sua \u00faltima madrugada, Jovelino n\u00e3o sonhou com o pai, nem com a casinha da inf\u00e2ncia, nem com sua esposa. Foi uma noite como outra qualquer. Morreu silenciosamente ao raiar do dia.<\/p>\n\n\n\n<p>Naquela hora, na fazenda do herdeiro de Seu Serafim, nenhum passarinho cantou diferente, nenhum vento soprou, o gado gordo n\u00e3o mugiu, as \u00e1guas do a\u00e7ude n\u00e3o se agitaram. Nada alterou o dia do herdeiro de Seu Serafim que, como sempre, saiu em sua caminhonete para ver o extenso rebanho.<\/p>\n\n\n\n<p>No vel\u00f3rio, apenas a fam\u00edlia da filha, o padre e algum curioso. Os demais filhos de Jovelino n\u00e3o puderam comparecer, labutando que estavam pela vida no trabalho pesado de algum canavial a muitos quil\u00f4metros dali. Continuavam, assim, uma tradi\u00e7\u00e3o que vinha de longa data.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A primeira foi aos nove anos. Ele resmungou qualquer coisa quando seu pai, Francisco, avisou que a fam\u00edlia devia se mudar para o outro lado do cafezal. O pai de Jovelino vivia ali desde menino; ficou na casa depois que os pais morreram e ali seguia com sua prole. 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