{"id":26673,"date":"2024-09-27T17:46:04","date_gmt":"2024-09-27T20:46:04","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=26673"},"modified":"2024-09-27T17:46:54","modified_gmt":"2024-09-27T20:46:54","slug":"cuba-de-2024-nao-e-mais-cuba-de-2015-diario-de-viagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=26673","title":{"rendered":"Cuba de 2024 n\u00e3o \u00e9 mais Cuba de 2015: di\u00e1rio de viagem"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"700\" height=\"942\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Juliana-Lemes-2-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-26674\" style=\"width:308px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Juliana-Lemes-2-1.jpg 700w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Juliana-Lemes-2-1-223x300.jpg 223w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Juliana-Lemes-2-1-696x937.jpg 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Juliana-Lemes-2-1-312x420.jpg 312w\" sizes=\"(max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong><strong>Juliana Lemes da Cruz.<\/strong><br><strong>Doutora em Pol\u00edtica Social (UFF).<\/strong><br><strong>Conselheira do F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica.<\/strong><br><strong>Contato: <\/strong><a href=\"mailto:lemes.jlc@gmail.com\">lemes.jlc@gmail.com<\/a><strong> | @julianalemesoficial<\/strong><\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>No final do m\u00eas de agosto, viajei para Cuba com os meus pais. Foi a primeira vez deles a bordo de um avi\u00e3o. Afinal, al\u00e9m de n\u00e3o terem tido as oportunidades que tive, eles n\u00e3o se enxergavam nesse lugar de viajante a\u00e9reo. O assento na janela n\u00e3o simboliza menos que a possibilidade de mudan\u00e7a de consci\u00eancia sobre os lugares que podemos ocupar no mundo. T\u00ednhamos um bom motivo: cumprir o combinado de visitar amigos cubanos, fruto do Programa Mais M\u00e9dicos, criado em 2013 e que mantinha por cerca de 3 anos sob contrato de trabalho, m\u00e9dicos estrangeiros. Meus pais sempre se mostraram resistentes quando o assunto era viagem de avi\u00e3o. A celebra\u00e7\u00e3o dos 40 anos de casamento deles em 2024 seria o momento ideal. Lancei a ideia e surpreendentemente, eles toparam viajar. Para n\u00e3o recuarem, rapidamente, agilizei as burocracias.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando j\u00e1 est\u00e1vamos por l\u00e1, percebi que muita coisa havia mudado desde que eu havia visitado o pa\u00eds em 2015. Pois bem, nesses nove anos de intervalo, aconteceram nada menos que a pandemia de Covid-19, que afetou gravemente mesmo os pa\u00edses mais desenvolvidos, al\u00e9m da tens\u00e3o\/guerra entre R\u00fassia e Ucr\u00e2nia. Vale lembrar que a R\u00fassia coopera com o governo cubano desde quando ainda era Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica (1922-1991), tendo sido o esteio do pa\u00eds p\u00f3s-revolu\u00e7\u00e3o de 1959, per\u00edodo em que o governo dos Estados Unidos, que n\u00e3o conseguiu o dom\u00ednio da ilha caribenha, estabeleceu um bloqueio econ\u00f4mico que fez com que Cuba, praticamente, parasse no tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Afinal, o pa\u00eds al\u00e9m de n\u00e3o ser autorizado a usar tecnologia norte-americana ou comercializar com a pot\u00eancia, sofreu embargo que afetou\/impediu rela\u00e7\u00f5es comerciais com outros pa\u00edses, sob pena do estabelecimento de medidas restritivas tamb\u00e9m aos pa\u00edses que insistissem em comercializar com Cuba. Para come\u00e7ar, ao chegar no aeroporto internacional Jos\u00e9 Mart\u00ed, na capital Havana, meu pacote de dados de internet funcionou normalmente usando o chip do Brasil. O \u201cchofer\u201d enviado pelo dono da habita\u00e7\u00e3o que alugamos para descansarmos nas primeiras horas da manh\u00e3, j\u00e1 estava nos esperando na sa\u00edda. No caminho, notei muitos postos policiais em funcionamento, mesmo sendo madrugada.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir daquele momento j\u00e1 comecei a perceber que Cuba de 2024 n\u00e3o \u00e9 mais que Cuba que visitei em 2015. Ficou evidente os impactos, tanto da pandemia, quanto do aprofundamento da tens\u00e3o geopol\u00edtica no cen\u00e1rio que encontramos naquele pa\u00eds entre os dias 19 e 24 de agosto. Para qualquer brasileiro, um verdadeiro interc\u00e2mbio cultural. Diferente do que vivenciei na minha primeira visita a Cuba, encontrei um pa\u00eds com uma economia devastada. O calor continuava intenso, mas, vimos poucos turistas pelas ruas e baixa movimenta\u00e7\u00e3o de \u201calmedrones\u201d (carros de passeio) \u00f4nibus e outros transportes de passageiros.<\/p>\n\n\n\n<p>Senti falta da m\u00fasica t\u00edpica ao vivo, dos vendedores de amendoim e de charuto, e das enormes tendas de livros ao longo das cal\u00e7adas. As ruas j\u00e1 n\u00e3o estavam atrativas. Problemas associados \u00e0 limpeza urbana e saneamento b\u00e1sico eram realidade na capital. O cen\u00e1rio era de ambiente descuidado e povo em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade e\/ou risco social. O ambiente tranquilo e seguro de 2015 deu lugar a um retrato que percebi logo no primeiro dia. As portas das habita\u00e7\u00f5es tinham grades. Nem parecia aquele lugar que eu caminhava por 4 quarteir\u00f5es ap\u00f3s as 22 horas, sozinha, com meu notebook embaixo do bra\u00e7o, do local onde havia WiFi (Hotel Habana Libre), at\u00e9 a habita\u00e7\u00e3o que eu e um casal de amigos ficamos durante alguns dias de um evento acad\u00eamico, em 2015.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar do contraste gigante, apresentei aos meus pais tudo que consegui mostrar de agrad\u00e1vel e bonito do pa\u00eds. O paralelo que fa\u00e7o aqui entre os dois per\u00edodos, s\u00e3o a cargo das minhas observa\u00e7\u00f5es particulares. Ficamos tr\u00eas dias nos arredores da capital e um dia, tiramos para almo\u00e7ar e trocar um dedo de prosa com os amigos do interior, distantes 300 km de Havana. Fomos at\u00e9 a Prov\u00edncia de Villa Clara, mas, sem demora. L\u00e1, ouvimos que a crise n\u00e3o chegou ao interior com a intensidade percebida em Havana. Crise que se estendeu aos combust\u00edveis. Assim, fretamos um \u00fanico t\u00e1xi para ida e volta. Foram produtivas e animadas 3 horas de ida e 3 horas de volta trocando informa\u00e7\u00f5es sobre nossas fam\u00edlias e ouvindo sobre a vida em Cuba, como o pa\u00eds mudou ap\u00f3s a pandemia, a introdu\u00e7\u00e3o da internet via dispositivos m\u00f3veis, al\u00e9m da dimens\u00e3o da crise econ\u00f4mica pela qual os cubanos passam.<\/p>\n\n\n\n<p>No campo da educa\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 foi refer\u00eancia global, h\u00e1 crian\u00e7as sem estudar por falta de pagamento dos professores. A caderneta para acesso mensal a alimentos (como se fosse uma cesta b\u00e1sica), est\u00e1 em desuso h\u00e1 um bom tempo, pois as \u201cbodegas\u201d (onde se retira os produtos), est\u00e3o desabastecidas de alimentos essenciais. Nos hospitais, faltam insumos, medicamentos e at\u00e9 anest\u00e9sicos. Entre 2022 e 2023, apenas rumo aos Estados Unidos, mais de meio milh\u00e3o de cubanos deixaram a ilha. \u00c9 o maior \u00eaxodo desde a revolu\u00e7\u00e3o de 59. Como a autoriza\u00e7\u00e3o governamental n\u00e3o \u00e9 simples ou por n\u00e3o terem como custear a viagem, muitos acabam se arriscando na travessia via mar.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2015, Ra\u00fal Castro presidia o pa\u00eds. Fidel havia se afastado, tendo morrido no ano seguinte. Em 2024, o governo \u00e9 de Miguel D\u00edaz-Canel, que parece n\u00e3o estar lidando bem com a situa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, que tinha como base da economia, o turismo. Pelo que ouvi, no per\u00edodo de Fidel Castro a popula\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m tinha problemas, mas, seu governo sempre dava um jeito de n\u00e3o deixar o povo em apuros, atendendo as necessidades b\u00e1sicas. J\u00e1 o atual presidente, n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m foi algo crucial para a compreens\u00e3o dos cubanos sobre a lideran\u00e7a do regime (de partido \u00fanico). A escalada da crise gerou manifesta\u00e7\u00f5es populares, que foram reprimidas pela for\u00e7a nacional. Com a infla\u00e7\u00e3o nas alturas, 1 d\u00f3lar equivale a cerca de 300 pesos cubanos, quando o sal\u00e1rio-m\u00ednimo mensal est\u00e1 em 3.000 pesos. Ou seja, 10 d\u00f3lares ou, o equivalente a 56 reais\/m\u00eas. Em 2015, quando se fazia menos uso de d\u00f3lar, mais de euro e em Cuba circulavam duas moedas (peso e CUC), 24 pesos era o equivalente a 1 real. 1 CUC corresponde a 1 euro, a mais usada pelos turistas. Hoje, 1 real vale quase 60 pesos cubanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse cen\u00e1rio, h\u00e1 escassez de alimentos ou alto custo deles. Para exemplificar, uma cartela de ovos custa por l\u00e1 3.100 pesos. Assim, se por um lado, \u201cturistar\u201d nos poucos dias que reservamos ficou bem caro pela dificuldade de transporte, por outro, ficou relativamente barato no que se refere \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o. Para meus pais, como eu j\u00e1 imaginava, tudo era muito diferente. Desde a culin\u00e1ria (lagosta, o \u201ccongr\u00ed\u201d \u2013 feij\u00e3o cozido com arroz \u2013, abacate em todas as refei\u00e7\u00f5es do dia, e \u201cchicharrita\u201d &#8211; banana verde frita), at\u00e9 a surpreendente alegria das pessoas do lugar, apesar das limita\u00e7\u00f5es que vivem. Por l\u00e1, o idioma n\u00e3o foi um problema. Pelo contr\u00e1rio, foi motivo de boas gargalhadas. Sobre as praias, dispensam coment\u00e1rios. Sobre os cubanos, gentis e prestativos, assim como a maior parte dos brasileiros.<\/p>\n\n\n\n<p>Enfim, foi uma imers\u00e3o cultural, que, s\u00f3 vivenciando de perto para que se produza a cr\u00edtica particular sobre como \u00e9 o mundo desde aquela ilha, marcada por um sistema pol\u00edtico t\u00e3o diferente do que estamos habituados no Brasil. Lembro-me de uma conversa que tive com um taxista cubano em 2015. Ele reclamava do fato de alguns que trabalham e pagam seus impostos terem que custear o sustento de outros que n\u00e3o trabalham e n\u00e3o pagam impostos. Dizia n\u00e3o concordar com aquele sistema, apesar de o governo [Fidel] n\u00e3o deixar as pessoas desamparadas. Aquele senhor, t\u00e3o bem esclarecido sobre a geopol\u00edtica global, afirmou: \u201cno mundo, nem o capitalismo, nem o socialismo deu certo. H\u00e1 que se pensar novas formas de se viver\u201d.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"648\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/SD-JUALIANA-648x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-26675\" style=\"width:632px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/SD-JUALIANA-648x1024.jpg 648w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/SD-JUALIANA-190x300.jpg 190w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/SD-JUALIANA-696x1101.jpg 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/SD-JUALIANA-266x420.jpg 266w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/SD-JUALIANA.jpg 700w\" sizes=\"(max-width: 648px) 100vw, 648px\" \/><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No final do m\u00eas de agosto, viajei para Cuba com os meus pais. 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