{"id":2694,"date":"2020-08-14T09:46:05","date_gmt":"2020-08-14T12:46:05","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=2694"},"modified":"2020-08-14T09:52:50","modified_gmt":"2020-08-14T12:52:50","slug":"vida-singular","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=2694","title":{"rendered":"Vida singular"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/f9718fac-dbb2-45bc-ab17-a6cc5a19a494.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2695\" width=\"364\" height=\"301\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/f9718fac-dbb2-45bc-ab17-a6cc5a19a494.jpg 839w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/f9718fac-dbb2-45bc-ab17-a6cc5a19a494-300x248.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/f9718fac-dbb2-45bc-ab17-a6cc5a19a494-768x634.jpg 768w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/f9718fac-dbb2-45bc-ab17-a6cc5a19a494-696x575.jpg 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/f9718fac-dbb2-45bc-ab17-a6cc5a19a494-508x420.jpg 508w\" sizes=\"(max-width: 364px) 100vw, 364px\" \/><figcaption><strong>An\u00edbal Gon\u00e7alves &#8211; Pedagogo<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>J\u00e1 passa das quatro da madrugada desta quarta-feira, dia 12 de Agosto. A hora passa por mim quase sem deixar nenhum vest\u00edgio, t\u00e3o discreta como um padre ouvindo as confiss\u00f5es dos fi\u00e9is no confession\u00e1rio. Quase todos dormem, agasalhados confortavelmente pelos repousantes desejos de seus inconscientes. Um sil\u00eancio quase total e absoluto domina inteiramente a casa. Pois \u00e9, todos dormem, menos eu, que permane\u00e7o insone com meus olhos de coruja arregalados diante da tela do computador. Afora isso, restam em mim todos os sonhos do mundo, todos os desejos que jamais concretizei, seja l\u00e1 em Coroaci ou aqui em Te\u00f3filo Otoni. Ou porque n\u00e3o pude, n\u00e3o me foi poss\u00edvel por in\u00fameras raz\u00f5es e matizados motivos que nem mesmo valeria a pena enumerar em um in\u00fatil rol de omiss\u00f5es e de frustra\u00e7\u00f5es sem conta. Melhor guard\u00e1-los s\u00f3 para mim em algum rec\u00f4ndito v\u00e3o das gavetas da mem\u00f3ria deste matuto.<\/p>\n\n\n\n<p>O telefone permanece em deliciosa mudez, pelo menos at\u00e9 agora. Confesso que, por ora, encontro-me mergulhado num profundo t\u00e9dio. N\u00e3o, de forma alguma posso afirmar que esteja dominado por um t\u00e9dio da vida. Claro que, vez ou outra, o existir me parece t\u00e3o tedioso quanto um longo discurso de pol\u00edtico, um filme chato passando na TV, um jogo reprisado da sele\u00e7\u00e3o brasileira. Longe de mim sentir t\u00e9dio da vida. Mais que sessent\u00e3o n\u00e3o posso mais me dar a este luxo. Sentir t\u00e9dio da exist\u00eancia \u00e9 para os jovens, que ilusoriamente pensam j\u00e1 haverem vivido tudo, mas na verdade n\u00e3o viveram nada, porque o tempo conspira sempre a favor da juventude. Depois dos sessenta, quando se est\u00e1 do meio dia para a tarde, v\u00ea-se que o buraco \u00e9 muito mais embaixo do que a gente costumava pensar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 nesses momentos de noturna e incompartilh\u00e1vel solid\u00e3o que me vem mais forte e mais intensa a vontade de escrever. Ali\u00e1s, eu tenho que escrever, mesmo se n\u00e3o me der vontade. Apesar de tantos anos de cotidiana conviv\u00eancia, eu ainda n\u00e3o consegui dominar os vastos e incont\u00e1veis segredos da palavra. E nem seria verdadeiro dizer que n\u00e3o tentei. Os mist\u00e9rios da palavra, que misturam o sagrado com o profano, permanecem os mesmos desde quando comecei a descobrir os seus insond\u00e1veis, indefin\u00edveis caminhos. Ah, como queria eu ser o rei do palavreado e escrever, para mim, fosse uma tarefa mais f\u00e1cil do que voar \u00e9 para os pardais. Entanto, se voar \u00e9 com os pardais, escrever deve ser comigo. Ou n\u00e3o ser\u00e1? A pergunta fica pairando no ar carente de respostas que n\u00e3o tenho para dar com toda a clareza do meu pensamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Escuto o bater violento da porta de um carro se fechando, depois partindo em alta velocidade pela rua Epaminondas Otoni afora. Pronto. Quebrada foi a calma da noite \u00e0 minha revelia. A perturba\u00e7\u00e3o da ordem enfim parou. A noite voltou a ficar silenciosa e calma n\u00e3o sei at\u00e9 quando. A vida \u00e9 singular, penso. E recome\u00e7o a dedilhar, sem pressa, as teclas do computador.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>An\u00edbal Gon\u00e7alves<\/strong> \u00e9 pedagogo, graduado em Administra\u00e7\u00e3o Escolar, ex-diretor da Escola Estadual de Coroaci &#8211; MG [hoje Dona Sinhaninha Gon\u00e7alves] e professor de Filosofia, Sociologia e Hist\u00f3ria da Educa\u00e7\u00e3o. Foi chefe do Departamento de Educa\u00e7\u00e3o Cooperativista da CLTO. Atualmente, jornalista e radialista da 98 FM (Te\u00f3filo Otoni).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 passa das quatro da madrugada desta quarta-feira, dia 12 de Agosto. A hora passa por mim quase sem deixar nenhum vest\u00edgio, t\u00e3o discreta como um padre ouvindo as confiss\u00f5es dos fi\u00e9is no confession\u00e1rio. Quase todos dormem, agasalhados confortavelmente pelos repousantes desejos de seus inconscientes. Um sil\u00eancio quase total e absoluto domina inteiramente a casa. 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