{"id":27246,"date":"2024-11-08T01:51:36","date_gmt":"2024-11-08T04:51:36","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=27246"},"modified":"2024-11-10T19:38:59","modified_gmt":"2024-11-10T22:38:59","slug":"o-vestido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=27246","title":{"rendered":"O Vestido"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"621\" height=\"441\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/0.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-27247\" style=\"width:452px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/0.jpg 621w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/0-300x213.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/0-100x70.jpg 100w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/0-591x420.jpg 591w\" sizes=\"(max-width: 621px) 100vw, 621px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong><strong>Jos\u00e9 Carlos Freire<\/strong><br><strong>Professor na UFVJM, Campus de Te\u00f3filo Otoni\/MG<\/strong><\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Era a d\u00e9cima segunda entrevista desde que pegara o diploma. At\u00e9 agora de nada havia servido o curso supletivo do ensino m\u00e9dio como diziam. A manh\u00e3 fria lhe piorava o resfriado. \u201cQue isto n\u00e3o me atrapalhe!\u201d, pensou.<\/p>\n\n\n\n<p>Onze respostas negativas, onze frustra\u00e7\u00f5es. J\u00e1 n\u00e3o sabia mais como responder \u00e0s perguntas. No in\u00edcio, tentou representar um papel como se tivesse mais experi\u00eancia e fosse mais qualificado do que de fato era. Depois, mudou de estrat\u00e9gia e foi totalmente honesto. Nenhuma das formas tinha dado resultado.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas desta vez parecia realmente diferente. \u00c9 que a mo\u00e7a que agendara a conversa ligou mais duas vezes para saber informa\u00e7\u00f5es do curr\u00edculo. \u201cDuas vezes, mulher! Tenho chance\u201d. Ela o olhou com ternura. N\u00e3o queria atrapalhar o \u00e2nimo daquele que dividia com ela o prato, o teto e a luta.<\/p>\n\n\n\n<p>Tentava a todo custo evitar a frase \u201cTenho chance!\u201d, que insistia. N\u00e3o costumava contar com a galinha antes do ovo, mas n\u00e3o conseguia se conter: era o veneno da esperan\u00e7a. Ele compraria m\u00f3veis novos, brinquedos para as crian\u00e7as. O vestido para ela com o primeiro sal\u00e1rio. E um sapato para ele, se desse. Os dois pequenos n\u00e3o sabiam, mas o casal fez planos entrecortados de medo e fantasia.<\/p>\n\n\n\n<p>A mesa. Redonda. Fria. Amedrontadora. A equipe. Tr\u00eas. A chefe e dois gerentes. A empresa \u201cSa\u00fade e Felicidade\u201d era grande. O nome imponente dava a ideia do vasto campo de atua\u00e7\u00e3o: plano de sa\u00fade, cl\u00ednica de est\u00e9tica e servi\u00e7o funer\u00e1rio. \u201cTenho chance?\u201d. A frase se mudou em d\u00favida perturbadora.<\/p>\n\n\n\n<p>O cargo era de motorista, fun\u00e7\u00e3o que ele havia ocupado por muito tempo na ro\u00e7a, dirigindo caminh\u00e3o de leite. Na cidade foi servente de pedreiro at\u00e9 que precisou parar. Alergia. Problema de coluna. Mas com empenho conseguiria retomar a pr\u00e1tica ao volante.<\/p>\n\n\n\n<p>As perguntas foram curtas. Poucas. N\u00e3o p\u00f4de se expressar. Teve vontade, mas as palavras n\u00e3o vieram. Ficou com a sensa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o ter dito quase nada e o pouco que disse n\u00e3o era o que queria. Ah! Se pudesse come\u00e7ar de novo&#8230; Pediram-lhe tempo. O rel\u00f3gio seguindo lento, arrastando-se.<\/p>\n\n\n\n<p>Dez minutos depois, a resposta vinha para destruir seu castelo de sonho. Logo em seguida, podia ser visto na rua, sem rumo, sem prumo. \u201cEu tinha chance&#8230;\u201d. Os brinquedos, o vestido&#8230; Do\u00edam-lhe a cabe\u00e7a, as costas, os olhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Nove horas marcou o rel\u00f3gio. N\u00e3o sabia para onde ir; n\u00e3o queria ir a lugar algum. Torturava-se pensando em como conseguir alguma ocupa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o aguentava mais aquele supl\u00edcio de entrevistas. Precisava beber alguma coisa! Mas e a promessa que fizera a ela?<\/p>\n\n\n\n<p>Oito quadras caminhadas ao l\u00e9u, mergulhado em pensamentos desconexos. A gravata lhe incomodava n\u00e3o menos que a constata\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o iria conseguir um emprego nunca. Como chegar em casa? Como adiar os planos feitos com ela? Como suportar a vis\u00e3o dos brinquedos quebrados dos filhos?<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0s sete horas da noite podia ser visto b\u00eabado, imundo, desfalecido. A gravata havia sido trocada por uma dose, o sapato por outra. Arrumou confus\u00e3o de madrugada, por pouco n\u00e3o morre numa briga sem sentido.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0s seis da manh\u00e3 era levado para casa, pela pol\u00edcia. A esposa j\u00e1 passara por isso anos antes, nas primeiras dificuldades de moradia enfrentadas pelo casal. Desde ent\u00e3o, rezava pra que ele nunca mais voltasse a beber.<\/p>\n\n\n\n<p>Cinco meses de reca\u00edda no v\u00edcio e desespero dela. Brigas, interna\u00e7\u00f5es. A perda dos filhos. A perda dela, que seguiu bravamente a batalha pelo sustento da casa. A separa\u00e7\u00e3o. Era uma vez os quatro.<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas anos depois ele pegava as crian\u00e7as, num domingo de sol, para ir ao parque. Estava s\u00f3brio h\u00e1 tempos e era o dia de ficar com os pequenos. N\u00e3o os levaria, em hip\u00f3tese alguma, ao barraco onde vivia.<\/p>\n\n\n\n<p>Dois picol\u00e9s. Foi o que p\u00f4de. N\u00e3o houve muita conversa. \u201cSua m\u00e3e est\u00e1 bem?\u201d, perguntou. \u201cSim! Ele \u00e9 legal\u201d, disse o mais novo. \u201cComprou um vestido pra m\u00e3e!\u201d, completou o mais velho. Ele se calou. A sorte tinha sido mais generosa com ela. Bom para os meninos.<\/p>\n\n\n\n<p>Um ano depois ele era visto no carro preto de vidros escuros e com motorista. Novamente, de gravata e sapato novo. Pouca gente al\u00e9m dela, o novo marido e as crian\u00e7as. Poucos parentes, algumas velas e a chuva fina.<\/p>\n\n\n\n<p>Poucas demonstra\u00e7\u00f5es de sofrimento por ele, o acometido de cirrose. Ela pagou as despesas e deu-lhe na morte a dignidade que ele n\u00e3o encontrou em vida. E tamb\u00e9m derramou, escondida, uma l\u00e1grima, cheia de dor e ternura.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela n\u00e3o percebeu e nem poderia, mas uma coroa de flores grandes fazia parte do pacote da empresa do servi\u00e7o funer\u00e1rio. A faixa dizia: \u201cNossos mais profundos sentimentos \u00e0 fam\u00edlia \u2013 Grupo Sa\u00fade e Felicidade&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Contato: <a href=\"mailto:freire.jose@hotmail.com\">freire.jose@hotmail.com<\/a><\/strong><\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era a d\u00e9cima segunda entrevista desde que pegara o diploma. At\u00e9 agora de nada havia servido o curso supletivo do ensino m\u00e9dio como diziam. 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