{"id":2836,"date":"2020-08-17T09:19:03","date_gmt":"2020-08-17T12:19:03","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=2836"},"modified":"2020-09-02T17:54:09","modified_gmt":"2020-09-02T20:54:09","slug":"e-se-voltassemos-a-escrever-cartas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=2836","title":{"rendered":"E se volt\u00e1ssemos a escrever cartas?"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Jos\u00e9-Carlos-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2837\" width=\"342\" height=\"251\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Jos\u00e9-Carlos-1.jpg 700w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Jos\u00e9-Carlos-1-300x221.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Jos\u00e9-Carlos-1-80x60.jpg 80w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Jos\u00e9-Carlos-1-696x512.jpg 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Jos\u00e9-Carlos-1-571x420.jpg 571w\" sizes=\"(max-width: 342px) 100vw, 342px\" \/><figcaption><strong>Jos\u00e9 Carlos Freire &#8211;<\/strong> Mestre em Filosofia pela Faculdade S\u00e3o Bento\/ SP. Professor na UFVJM, campus de Te\u00f3filo Otoni<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>H\u00e1 dias tenho pensado em cartas. Sim, aquele g\u00eanero textual t\u00e3o antigo. O leitor mais jovem pode achar engra\u00e7ado ou mesmo um sinal de saudosismo. Diante de tantas formas mais r\u00e1pidas e eficientes de transmiss\u00e3o de mensagens que sentido h\u00e1 em falar de cartas? At\u00e9 mesmo o nosso velho carteiro j\u00e1 quase n\u00e3o as entrega mais!<\/p>\n\n\n\n<p>O estranhamento \u00e9 compreens\u00edvel. Temos encurtado cada vez mais a comunica\u00e7\u00e3o, as frases, as palavras. As coisas mudam. A pergunta do t\u00edtulo tem algo de ret\u00f3rico: n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel voltar no tempo. Mas pergunto: a mudan\u00e7a n\u00e3o teria feito desaparecer aspectos importantes que a carta continha? N\u00e3o falo da efici\u00eancia \u2013 os s\u00edmbolos e imagens hoje utilizados est\u00e3o a\u00ed para provar que a mensagem passa, a informa\u00e7\u00e3o chega. Falo do processo, do tempo que se gastava em conceber uma carta, por vezes um rascunho at\u00e9 chegar \u00e0 escrita, o que supunha uma imers\u00e3o afetiva. Depois, a ida ao correio, a espera pelo envio, a recep\u00e7\u00e3o e a leitura. Tudo isso imaginado, porque n\u00e3o havia c\u00f3digo de rastreamento. Ao final, a expectativa da resposta ou do efeito causado pela mensagem. Eram dias ou at\u00e9 semanas entre o in\u00edcio e o final do ciclo de uma simples carta. Ocorria aquilo que Rubem Alves muito bem sintetizou: aquela folha de papel, ao ser lida, acabava por unir m\u00e3os que estavam distantes. O capricho dos enamorados em colocar uma p\u00e9tala de flor ou ent\u00e3o borrifar perfume no papel elevava essa uni\u00e3o a um plano m\u00e1gico.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m das cartas pessoais, vale a pena lembrar das muitas modalidades de carta. Carta instrutiva, carta aberta, carta p\u00fablica, carta \u00e0 reda\u00e7\u00e3o de jornais. Os exemplos seriam in\u00fameros. P\u00fablicas ou pessoais, sempre uma condi\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel: reflex\u00e3o, matura\u00e7\u00e3o do assunto pelo emissor, escolha das palavras. A carta como exerc\u00edcio de di\u00e1logo. Chamem-me antiquado, sem problemas, mas suspeito que o modo de comunica\u00e7\u00e3o r\u00e1pido e urgente que hoje cultivamos, a impaci\u00eancia com os \u201ctext\u00f5es\u201d, a incapacidade patente de suportar mais de tr\u00eas par\u00e1grafos, tudo isso indica um empobrecimento da arte comunicativa. O leitor que chegou at\u00e9 aqui j\u00e1 \u00e9, por sinal, um sobrevivente dessa onda avassaladora. \u00c9 preciso compor uma comitiva de especialistas para dar conta do tema. Comunicadores, estudiosos da tecnologia, linguistas, pesquisadores do comportamento humano etc. Deixo aqui apenas indaga\u00e7\u00f5es. E duas experi\u00eancias, uma antiga e uma recente.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o faz muito tempo um grande amigo fez algo inusitado. Escreveu uma carta \u00e0 m\u00e3o, foi ao correio, depositou e aguardou que o ciclo se realizasse, tal como antigamente. Dispondo de todos os recursos tecnol\u00f3gicos modernos, achou por bem que a mensagem deveria ser enviada por carta. Acompanhei de longe o processo e fiquei pensando: talvez n\u00e3o seja o caso de atribuir \u00e0quele velho g\u00eanero um valor elevado, mas sim de constatar que os nossos diversos meios de hoje nem sempre se mostram adequados. Como explicar a um adolescente empapu\u00e7ado de aplicativos que, ao receber uma mensagem, n\u00e3o precisa responder imediatamente, podendo deixar para faz\u00ea-lo depois, com tempo para meditar e sondar os pr\u00f3prios sentimentos e a\u00ed saber o que deseja de fato dizer? Como lhe mostrar que a vida n\u00e3o se mede em n\u00fameros de caracteres e que \u2013 sim! \u2013 muitas vezes precisamos falar muito para que, carreando palavras, n\u00f3s mesmos nos deparemos o com o que de fato quer\u00edamos dizer e no in\u00edcio n\u00e3o sab\u00edamos?<\/p>\n\n\n\n<p>A segunda experi\u00eancia \u00e9 de d\u00e9cadas passadas. Uma briga por coisas do cotidiano havia distanciado meu pai e seu irm\u00e3o mais velho. Todos percebemos a amargura que aquela situa\u00e7\u00e3o causava a ambos. Ap\u00f3s alguns dias, meu pai resolveu escrever uma carta. Das coisas que fiz na vida esta \u00e9 uma das que mais me d\u00e1 orgulho: fui o respons\u00e1vel por levar uma mensagem que reaproximou dois irm\u00e3os. Um embaixador da paz com menos de dez anos naquele microcosmo rural. Aquela era uma situa\u00e7\u00e3o em que a conversa pessoal estava interditada. A carta foi a \u00fanica forma de quebrar a inimizade.<\/p>\n\n\n\n<p>Como pensar situa\u00e7\u00f5es semelhantes no nosso cotidiano tendo em vista os instrumentos dos quais hoje dispomos? Uma boa hip\u00f3tese: damos novos significados! O correio eletr\u00f4nico, o popular e-mail, teria substitu\u00eddo a carta; o \u00e1udio por aplicativo, o telefonema. N\u00e3o sei se \u00e9 t\u00e3o simples assim. O pobre e-mail j\u00e1 parece obsoleto; o \u00e1udio n\u00e3o pode passar de trinta, quarenta segundos&#8230; A impress\u00e3o que d\u00e1 \u00e9 que quanto mais ferramentas temos, menos falamos.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o abusarei da paci\u00eancia do leitor que at\u00e9 aqui se manteve firme. Encerro com a refer\u00eancia a Eduardo Galeano, grande escritor uruguaio cujos textos se parecem cartas escritas a cada um de n\u00f3s. No \u201cLivro dos Abra\u00e7os\u201d, em que recolhe pequenas hist\u00f3rias de partes distintas da Am\u00e9rica Latina e mesmo de outras regi\u00f5es, Galeano narra o que se passou com um velho que morava num povoado nos arredores da cidade de Montevid\u00e9u. Criou-se a lenda de que ele havia juntado um grande tesouro em casa ao longo da vida. Certa feita, em uma de suas sa\u00eddas para a cidade, a casa foi invadida por assaltantes que, ap\u00f3s vasculhar sem sucesso os c\u00f4modos, s\u00f3 encontraram um pequeno ba\u00fa de madeira, trancado a cadeado. Levaram-no e quando puderam finalmente abri-lo se depararam com o conte\u00fado: estava cheio de cartas. O tesouro eram as cartas de amor que o velhinho havia recebido ao longo da vida&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Fernando Pessoa dizia que as cartas de amor s\u00e3o rid\u00edculas. Mas mais rid\u00edculas seriam, para ele, as pessoas que nunca as escreveram. Se n\u00e3o h\u00e1 mais espa\u00e7o para cartas, certamente ainda temos necessidade de falar para algu\u00e9m do amor, da amizade, da afei\u00e7\u00e3o, da saudade que sentimos. A pergunta que fica \u00e9: como tratar de sentimentos t\u00e3o grandiosos com t\u00e3o poucos caracteres?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 dias tenho pensado em cartas. Sim, aquele g\u00eanero textual t\u00e3o antigo. O leitor mais jovem pode achar engra\u00e7ado ou mesmo um sinal de saudosismo. Diante de tantas formas mais r\u00e1pidas e eficientes de transmiss\u00e3o de mensagens que sentido h\u00e1 em falar de cartas? At\u00e9 mesmo o nosso velho carteiro j\u00e1 quase n\u00e3o as entrega [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2837,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"rop_custom_images_group":[],"rop_custom_messages_group":[],"rop_publish_now":"initial","rop_publish_now_accounts":[],"rop_publish_now_history":[],"rop_publish_now_status":"pending","footnotes":""},"categories":[25,24],"tags":[42,1073,1074,683,75],"class_list":["post-2836","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destaque","category-opiniao","tag-diario-tribuna","tag-e-se-votassemos","tag-escrever-carta","tag-jose-carlos-freire","tag-teofilo-otoni"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2836"}],"collection":[{"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2836"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2836\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3604,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2836\/revisions\/3604"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/2837"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2836"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2836"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2836"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}