{"id":30047,"date":"2025-05-30T16:15:24","date_gmt":"2025-05-30T19:15:24","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=30047"},"modified":"2025-05-30T16:17:06","modified_gmt":"2025-05-30T19:17:06","slug":"tornar-se-dispensavel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=30047","title":{"rendered":"Tornar-se dispens\u00e1vel"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"621\" height=\"481\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/0.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-30048\" style=\"width:458px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/0.jpg 621w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/0-300x232.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/0-542x420.jpg 542w\" sizes=\"(max-width: 621px) 100vw, 621px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong><strong><em>Jos\u00e9 Carlos Freire<\/em><\/strong><br><strong>Professor na UFVJM, Campus de Te\u00f3filo Otoni\/MG<\/strong><\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>O poeta Vin\u00edcius de Morais tematizou bem a dial\u00e9tica de se ter filhos: para nosso sossego, melhor n\u00e3o os ter; mas se n\u00e3o os temos, como sab\u00ea-los? \u00c9 verdade; mas n\u00e3o toda. D\u00e1, sim, para \u201csab\u00ea-los\u201d mesmo sem ser pai ou m\u00e3e. Conviver com crian\u00e7as na fam\u00edlia ou com filhos de amigos \u00e9 tamb\u00e9m um modo de participar desta aventura. H\u00e1 quem exer\u00e7a a paternidade ou a maternidade de um modo lindo, com crian\u00e7as que n\u00e3o s\u00e3o suas.<\/p>\n\n\n\n<p>Seja como for, \u00e9 mesmo uma aventura. O engra\u00e7ado \u2013 e, por vezes, assustador \u2013 \u00e9 que eles crescem. Parece trivial esta constata\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o \u00e9. O envolvimento que temos com o seu processo de desenvolvimento \u00e9 de tal profundidade que facilmente perdemos de vista o quanto \u00e9 passageira cada fase. E tiramos fotos, e filmamos momentos, talvez na ilus\u00e3o de eternizar uma situa\u00e7\u00e3o, um momento.<\/p>\n\n\n\n<p>Em casa, desde que nossas crias eram pequenas, fazemos essa brincadeira: \u201cTem certeza que vai crescer mesmo?\u201d. \u00c9 evidente que v\u00e3o. Mais ainda: elas querem crescer, como cada um de n\u00f3s tamb\u00e9m quis um dia. Por essa raz\u00e3o, cada anivers\u00e1rio \u00e9 nova constata\u00e7\u00e3o da passagem do tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Recentemente, nossa mais velha fez quinze anos. Foi tudo simples e muito bonito, cheio de mem\u00f3rias afetivas. Foi do jeito dela e o mais importante \u00e9 que ela ficou feliz. Talvez pelo simbolismo da data redonda, o anivers\u00e1rio me fez refletir de modo especial sobre este fato: n\u00f3s, pais, m\u00e3es ou quem quer que acompanhe o crescimento de algu\u00e9m, vamos ficando gradativamente dispens\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto aponta para uma das muitas transforma\u00e7\u00f5es pelas quais passamos ao criar filhos: no come\u00e7o somos absolutamente importantes e, portanto, indispens\u00e1veis; depois, nos tornamos relativamente importantes e ainda um pouco indispens\u00e1veis; at\u00e9 que se evidencia que somos apenas importantes e, por isso, dispens\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>Que n\u00e3o se confunda, portanto, ser \u201cdispens\u00e1vel\u201d com \u201cn\u00e3o ser importante\u201d. Para nosso consolo, os filhos continuam nos amando, ainda que a adolesc\u00eancia seja essa fase cheia de idas e vindas. Eles nos ouvem, mesmo que a custo. Acatam nossa orienta\u00e7\u00e3o, mesmo que resmungando. S\u00f3 que j\u00e1 sabem, melhor que n\u00f3s, que est\u00e3o de sa\u00edda, ainda que possam ficar mais alguns anos em casa. J\u00e1 come\u00e7aram a se virar sozinhos, mais do que imaginamos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 a\u00ed que entra o desafio de ser adulto diante de adolescentes. Desafio do qual eu n\u00e3o tenho sequer ideia de como enfrentar. Mas suspeito que uma condi\u00e7\u00e3o seja fundamental: aceitar que precisamos nos tornar dispens\u00e1veis. \u00c9 o que a sabedoria popular cunhou no ditado \u201cfilho \u00e9 para o mundo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Penso que esta li\u00e7\u00e3o que o cuidado de filhos nos imp\u00f5e extrapola em muito a rela\u00e7\u00e3o entre adultos e suas crias: \u00e9 a pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o humana. \u00c9 o que mostram as t\u00edpicas situa\u00e7\u00f5es fortes da vida: um anivers\u00e1rio, um vel\u00f3rio, uma aposentadoria, um fim de rela\u00e7\u00e3o. \u00c9 quando descobrimos o \u00f3bvio: tudo passa. E n\u00f3s tamb\u00e9m passamos.<\/p>\n\n\n\n<p>O filho que agora amarra os pr\u00f3prios cadar\u00e7os; a filha que arruma o pr\u00f3prio cabelo; a tarefa de escola que j\u00e1 fazem sem nossa ajuda; o lanche que preparam sem que estejamos em casa; a festa a que v\u00e3o sem precisar que os levemos. S\u00e3o os sucessivos pequenos fatos que v\u00e3o nos dispensando aos poucos at\u00e9 que chegue um ponto em que seremos para eles o que nossos pais se tornaram para n\u00f3s: uma retaguarda, um porto seguro ao qual se acorre quando preciso e desejado; importantes, sem a menor d\u00favida, mas n\u00e3o mais indispens\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>Um outro velho o ditado diz que o bom mestre \u00e9 aquele que forma os seus disc\u00edpulos para que o superem. Bonito em teoria, mas poucos educadores se orientam deste modo. Assim como pais e m\u00e3es que sofrem por perder sua centralidade, n\u00f3s educadores tamb\u00e9m facilmente ca\u00edmos na ilus\u00e3o de que os estudantes dependem de n\u00f3s. \u00c9 este, ali\u00e1s, um bom crivo de distin\u00e7\u00e3o entre educa\u00e7\u00e3o tradicional e educa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica: na primeira, o professor \u00e9 o centro; na segunda, ele \u00e9 instrumento para que o estudante crie asas e voe por si.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse ponto, ter filho \u00e9 uma forma de se aprender a viver. Eu diria mais: \u00e9 uma forma de se aprender a morrer. Desde a antiguidade grega, a filosofia debate o tema da finitude. Lidar com a passagem do tempo, aceitar as perdas inevit\u00e1veis, acatar com serenidade o fechamento de cada ciclo. Pequenos, m\u00e9dios e grandes lutos durante a vida que v\u00e3o nos preparando, se bem vividos, para o fechamento definitivo de nossa fr\u00e1gil exist\u00eancia que cedo ou tarde vir\u00e1. Um modo s\u00e1bio de se encarar a morte, inevit\u00e1vel fim de todos n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p>Termina a festinha de quinze anos da nossa filha. E um leve calafrio me vem ao perceber que, daqui a pouco, ser\u00e1 o ca\u00e7ula a passar por isso. E vir\u00e3o tantas outras despedidas e partidas! Recolhemos os enfeites, guardamos as coisas, vamos para casa.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela mal se aguenta nas pernas de cansa\u00e7o. Logo vai para a cama. Com a casa aquietada, invento de ir \u00e0 cozinha s\u00f3 para constatar se ela j\u00e1 dorme. \u00c9 um sono bom, de quem come\u00e7a um novo ciclo. A inf\u00e2ncia ficou de vez para traz e um futuro a ser constru\u00eddo se abre.<\/p>\n\n\n\n<p>Nossa pequena cresceu. Que ela aprenda os melhores caminhos. Que nos tenha sempre como importantes, assim desejamos, mas que dependa cada vez menos de n\u00f3s. E, de nossa parte, que nos tornemos o quanto poss\u00edvel a retaguarda, seu porto seguro. Mas sem esquecer a dura li\u00e7\u00e3o que a vida nos ensina: tornarmo-nos dispens\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Contato: <\/strong><a href=\"mailto:freire.jose@hotmail.com\"><strong>freire.jose@hotmail.com<\/strong><\/a><strong><\/strong><\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O poeta Vin\u00edcius de Morais tematizou bem a dial\u00e9tica de se ter filhos: para nosso sossego, melhor n\u00e3o os ter; mas se n\u00e3o os temos, como sab\u00ea-los? \u00c9 verdade; mas n\u00e3o toda. D\u00e1, sim, para \u201csab\u00ea-los\u201d mesmo sem ser pai ou m\u00e3e. 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