{"id":30695,"date":"2025-07-30T23:47:57","date_gmt":"2025-07-31T02:47:57","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=30695"},"modified":"2025-07-30T23:47:58","modified_gmt":"2025-07-31T02:47:58","slug":"o-armazem-de-memorias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=30695","title":{"rendered":"O armaz\u00e9m de mem\u00f3rias"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"621\" height=\"481\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/0-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-30696\" style=\"width:436px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/0-1.jpg 621w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/0-1-300x232.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/0-1-542x420.jpg 542w\" sizes=\"(max-width: 621px) 100vw, 621px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong><strong><em>Jos\u00e9 Carlos Freire<\/em><\/strong><br><strong>Professor na UFVJM, Campus de Te\u00f3filo Otoni\/MG<\/strong><\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Entro no recinto \u00e0 procura de um pente daqueles antigos, de marca Flamengo, com a metade mais grossa e a outra mais fina. Lembram-me a inf\u00e2ncia:&nbsp; alguns eram amarronzados, outros dourados. Geralmente vinham em embalagem de pl\u00e1stico transparente. Foi a desculpa que eu encontrei para ir ao Armaz\u00e9m do C\u00edcero, depois de saber, desapontado, que estava para ser fechado. Era o \u00fanico lugar que ainda se poderia achar um item desses. Mas n\u00e3o precisava de pente, precisava estar ali.<\/p>\n\n\n\n<p>Armaz\u00e9ns, emp\u00f3rios, vendas. Variam os nomes, mas t\u00eam em comum a caracter\u00edstica de funcionar como pronto-socorro para todas as horas: o que se precisa, geralmente ali se acha. Em geral, carregam o nome dos donos. Armaz\u00e9m do Armando, Emp\u00f3rio da Tereza, Venda do Seu Lidirico. Toda pequena cidade teve ou ainda conserva como rel\u00edquia esses espa\u00e7os m\u00e1gicos. S\u00e3o como portais do tempo por onde se viaja ao passado.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi com a vontade de reviver um pouco disso, enquanto ainda era poss\u00edvel, que inventei a necessidade do pente. Merinho procurou, procurou, como quem revira um monte de areia. A cada gaveta ou local que ele olhava, eu tinha a impress\u00e3o de que saltavam cenas, pessoas, momentos. N\u00e3o iria submet\u00ea-lo a essa busca sem fim. Disse a ele: \u201cPode deixar, mo\u00e7o! Tranquilo. Tem isqueiro?\u201d. Eu j\u00e1 tinha visto o pacotinho. O importante era realizar o ritual de pedir algo no balc\u00e3o. Coisa que tanta gente fez desde a \u00e9poca do Velho C\u00edcero, quando, segundo contam, ele dava balas para as crian\u00e7as quando voltavam da escola.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas quase cinco d\u00e9cadas de funcionamento, passou por ali muita gente que contou e ouviu hist\u00f3rias, porque o Armaz\u00e9m do C\u00edcero foi ao longo desse tempo o lugar da conversa, do bate-papo, onde se ia comprar pequenas coisas: um arroz que estava acabando, um pacote de feij\u00e3o, um caf\u00e9 para uma visita inesperada, um litro de \u00f3leo que estava no final. Mas o motivo era, sobretudo, este: \u201cir ao Armaz\u00e9m do C\u00edcero\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto o Merinho procura, observo o local. Tudo indica um final de ciclo. Ao centro, a bancada de madeira envolta com panos de renda fixados com grampo \u2013 sinal de coisa antiga, mas tamb\u00e9m de muito zelo. Ali, h\u00e1 alguns meses, ficavam as sacas de arroz, de farinha, de feij\u00e3o, de alpiste para passarinho. Agora, s\u00f3 a marca da madeira envelhecida e a poeira.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo das paredes, estantes de a\u00e7o; algumas com marcas de ferrugem, outras j\u00e1 bastante tortas, mas todas iguaizinhas, formando um conjunto, sinal tamb\u00e9m de muito capricho de quando foram montadas. Nas prateleiras, pouca mercadoria: um balde, uma mangueira para quintal, dois rolos de corda para la\u00e7o, colher de pedreiro, enxada, linhas de pesca, algumas cartelas de ovos. Do outro lado, produtos de limpeza escassos: papel higi\u00eanico, sab\u00e3o em p\u00f3, alguns detergentes e um solit\u00e1rio gal\u00e3o de amaciante. \u00c0 direita, caixas de leite, uma lata de achocolatado e pacotes de salgadinhos. Na parte de gelados, algumas poucas latas de refrigerante. Por fim, uma plaquinha triste: \u201cVendem-se prateleiras\u201d. Tudo remetendo a lacuna e sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>No balc\u00e3o da frente \u2013 meu elemento preferido em estabelecimentos desse tipo \u2013 a tampa de vidro, servindo como mostru\u00e1rio de tudo que est\u00e1 embaixo. Aquilo sempre me fascinou! As coloridas prateleiras dos atuais shoppings n\u00e3o chegam perto da beleza de um balc\u00e3o de armaz\u00e9m, porque ali tudo \u00e9 colocado cuidadosamente, de modo artesanal, combinando tipo, tamanho e cor. \u00c9 um grande mosaico que revela o esmero dos donos.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste velho balc\u00e3o de agora, o vidro deixa ver pouca coisa que resta: um pacotinho de agulha de costura, dois pentes coloridos, um coador de caf\u00e9, alguns rem\u00e9dios, um pacote de isqueiro j\u00e1 faltando o que eu pedi, um amarelado caderninho de anota\u00e7\u00f5es, algumas canetas, l\u00e1pis, pinc\u00e9is de tinta aleat\u00f3rios e um pacote com apenas um cortador de unha. Sobre o balc\u00e3o, como que esquecido, o velho porta-canudos verde.<\/p>\n\n\n\n<p>Saio do Armaz\u00e9m com um sentimento estranho. Parte de mim se alegra pela boa conversa e por ter conhecido um lugar t\u00e3o simples e t\u00e3o especial; mas tamb\u00e9m me d\u00e1 melancolia. Daqui a algumas semanas n\u00e3o haver\u00e1 mais nada daquilo. Ser\u00e1 apenas uma placa de venda, depois uma cerca de prote\u00e7\u00e3o para um im\u00f3vel demolido; por fim, uma nova e moderna constru\u00e7\u00e3o que n\u00e3o ter\u00e1 nenhum tra\u00e7o do que ali existiu.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 a vida. \u00c9 o ciclo do tempo, cruel e implac\u00e1vel. No entanto, h\u00e1 algo de mais impactante. Como alertavam alguns fil\u00f3sofos alem\u00e3es do in\u00edcio do s\u00e9culo passado, h\u00e1 um componente na chamada sociedade moderna que funciona como faca de dois gumes: o progresso. Ele faz avan\u00e7ar a tecnologia, a agilidade, a efici\u00eancia. Comparem-se um elevador e uma escadaria; um carro de bois e um autom\u00f3vel; um supermercado com um velho armaz\u00e9m. Tudo mais pr\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, ao mesmo tempo, tudo com menos vida, menos hist\u00f3ria, menos experi\u00eancia. Esta \u00e9 a chave: durante cinco d\u00e9cadas, o Armaz\u00e9m do C\u00edcero foi um lugar de experi\u00eancia, muito mais do que um local de venda de produtos. Ali se ia para isto, evidente; mas tamb\u00e9m porque era bom estar ali. Em um supermercado voc\u00ea n\u00e3o ter\u00e1 um tempo correndo lento, pessoas contando hist\u00f3rias na cal\u00e7ada enquanto jogam quirera de milho aos passarinhos nas manh\u00e3s de domingo, um velho r\u00e1dio tocando can\u00e7\u00f5es antigas. Ser\u00e1 tudo brilhante, iluminado e chamativo; por\u00e9m, artificial.<\/p>\n\n\n\n<p>Perde-se muito quando se avan\u00e7a a sociedade. Eis a grande contradi\u00e7\u00e3o. Alternativa? N\u00e3o sei. Talvez seja isso mesmo: mem\u00f3rias v\u00e3o sendo soterradas, hist\u00f3rias v\u00e3o sendo esquecidas, pessoas singulares v\u00e3o ficando para tr\u00e1s. Suspeito que desse modo modernizante de vida, calcado na tecnologia e equipamentos, n\u00e3o vir\u00e1 nada de profundo e intenso: apenas superficialidade. Para um caminho distinto, que conservasse de alguma maneira algo do vivido e experimentado, precisar\u00edamos pensar em outra refer\u00eancia, aprendendo, quem sabe, dos povos da floresta, dos que ainda conservam modos de vida coletiva. Mas tais povos, n\u00e3o sem ironia, s\u00e3o exatamente o empecilho ao progresso. Est\u00e3o sendo exterminados para o bem dos empreendimentos e usinas.<\/p>\n\n\n\n<p>Est\u00e1 certo o Merinho: depois de ter acompanhado o velho pai at\u00e9 sua morte e seguir cuidando do armaz\u00e9m, deve agora tocar o barco: vai com a esposa Aparecida para mais perto da filha que mora longe. Assim como esteve com o pai, agora \u00e9 a vez do casal, j\u00e1 envelhecido, ficar perto de quem continuar\u00e1 sua hist\u00f3ria um dia. O Armaz\u00e9m seguir\u00e1 existindo de outro modo, enquanto houver quem dele se lembre.<\/p>\n\n\n\n<p>Levo o isqueiro para casa. \u00c9 agora um s\u00edmbolo que parece ter cinco d\u00e9cadas. Acendo com ele o fog\u00e3o, coloco \u00e1gua para esquentar. Tomo uma x\u00edcara de caf\u00e9 em mem\u00f3ria de tudo que representou o Armaz\u00e9m do C\u00edcero. Eu, que pouco dele experimentei, sinto-me privilegiado por ali ter estado algumas vezes. Guardarei essa mem\u00f3ria como um amuleto a me proteger do sentimento de vazio que me d\u00e1 ao entrar num grande supermercado.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Contato: <\/strong><a href=\"mailto:freire.jose@hotmail.com\"><strong>freire.jose@hotmail.com<\/strong><\/a><\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entro no recinto \u00e0 procura de um pente daqueles antigos, de marca Flamengo, com a metade mais grossa e a outra mais fina. 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