{"id":32335,"date":"2026-01-01T21:00:26","date_gmt":"2026-01-02T00:00:26","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=32335"},"modified":"2026-01-01T21:01:00","modified_gmt":"2026-01-02T00:01:00","slug":"a-forca-do-simbolo-e-o-seu-limite","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=32335","title":{"rendered":"A for\u00e7a do s\u00edmbolo e o seu limite"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"261\" height=\"350\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/image.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-32336\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/image.png 261w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/image-224x300.png 224w\" sizes=\"(max-width: 261px) 100vw, 261px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Jos\u00e9 Carlos Freire<\/p>\n\n\n\n<p><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-cyan-bluish-gray-color\">Professor da UFVJM,<br>Campus de Te\u00f3fi lo Otoni\/MG<\/mark><\/p>\n\n\n\n<p>Lembrei-me outro dia dos tempos em que, fazendo o roteiro costumeiro da popula\u00e7\u00e3o do nordeste mineiro, migrei para S\u00e3o Paulo.<br>Numa segunda-feira gorda de setembro, pego o metr\u00f4 na zona leste. Sigo pensando em minha inf\u00e2ncia na ro\u00e7a, enquanto procuro dois lugares m\u00ednimos, um no ch\u00e3o para p\u00f4r os p\u00e9s e outro na barra de poio para a m\u00e3o. Eu e mais o mundar\u00e9u de gente seguimos pendurados, feito carne no a\u00e7ougue.<br>N\u00e3o tir\u00e1vamos muito leite e t\u00ednhamos apenas algumas vaquinhas. Ainda me lembro de uma que se atolou no brejo e teve de ser sacrifi cada, coitada. O s\u00edtio do meu pai era pequeno, mas na vizinhan\u00e7a havia fazendas, grandes retiros de leite. \u00c0s vezes, eu via caminh\u00f5es levando a boiada para a cidade, para o abate. Aquele sacolejo, os esbarr\u00f5es, a poeira, os olhos dos bois perdidos na paisagem que passava, igual<br>aos diversos, agora, que se perdem nas colunas de cimento do t\u00fanel do metr\u00f4.<br>Chego ao Braz. \u00c9 a vis\u00e3o do inferno. Antes de a porta abrir, cada um j\u00e1 procura se defender como pode. Firma o p\u00e9, vira o ombro, segura com mais for\u00e7a na barra. A porta se abre\u2026 \u00c9 o fi m dos tempos!<\/p>\n\n\n\n<p>Quando o capataz da fazenda abria a porteira que dava acesso ao outro pasto, a boiada entrava se atropelando. Meu pai dizia que a cerca, pra ser boa, tem de ser bem feita. A gente sabe que a for\u00e7a do boi \u00e9 muito maior que a resist\u00eancia da cerca.<br>Mas ele n\u00e3o a pula; acostuma-se; cria o s\u00edmbolo da cerca; internaliza o mandamento \u201cN\u00e3o pular\u00e1s!\u201d. Mas<br>basta que um boi perceba uma passagem na cerca e se arrisque a romp\u00ea-la e pronto!<br><br>Ainda mais se a boiada estiver acuada, sob press\u00e3o ou risco. \u00c9 o estouro. Coisa linda da natureza, a classe bovina se organiza em segundos. <br>Haja capatazes, cavalos e paulada no lombo para faz\u00ea&#8211;la voltar ao curral. Pode at\u00e9 voltar, mas briga at\u00e9 o fim. Esta\u00e7\u00e3o S\u00e9. N\u00e3o saio do metr\u00f4: eu sa\u00ed \u00e0 for\u00e7a.<br>Vou pro Jabaquara, mas ao descer as escadas vejo um mar de gente que me desanima. \u201cImposs\u00edvel viver<br>num lugar desses!\u201d; a velha frase que ronda minha cabe\u00e7a desde o primeiro dia que troquei as serras de Minas pela fuma\u00e7a paulistana.<br>\u00c0 noite, a mesma coisa. Com a agravante do cansa\u00e7o do dia. Voltamos pendurados e cochilando em p\u00e9,<br>quais bois que d\u00e3o trabalho para subir no caminh\u00e3o, e do cansa\u00e7o de lutar, quando s\u00e3o colocados ali, resta-lhes fechar os olhos e deixar o sacolejo embalar um cochilo melanc\u00f3lico.<br>Um pouco abaixo da linha do metr\u00f4, enquanto fantasio uma fuga pela janela de vidro, querendo um pouco de calma e sil\u00eancio, vejo l\u00e1 embaixo na rua uma fila de pessoas esperando para ganhar um prato de sopa e um peda\u00e7o de p\u00e3o. A vida de albergue \u00e9 parecida com a de gado de segunda, que o caminh\u00e3o n\u00e3o leva por n\u00e3o dar peso de venda.<br>Na fila da sopa n\u00e3o s\u00e3o tantos como dentro dos vag\u00f5es; s\u00e3o magros, fracos, como as nossas vaquinhas do s\u00edtio. Quando eu, \u00e0 tardinha, ia colocar ra\u00e7\u00e3o no cocho, elas vinham, lentamente, pasto afora, para receber o trato e ruminar sua vida fadada pelo resto da noite.<br>\u201cAfi nal, o que nos diferencia dos bois?\u201d, pergunto-me, ao conseguir um pouco mais de espa\u00e7o quando, no Braz, metade do p\u00fablico desce, na transfer\u00eancia gratuita a outros caminh\u00f5es.<br>E me assusto por ver que apenas uma coisa nos distingue: o n\u00famero de patas. Somos t\u00e3o semelhantes<br>que, um dia, num descuido dos capatazes, algu\u00e9m de n\u00f3s perceber\u00e1 uma passagem na cerca, e for\u00e7ando-a, descobrir\u00e1 que ela \u00e9 muito menos resistente do que parece: ela \u00e9 um s\u00edmbolo, um mandamento assumido. O primeiro passar\u00e1, o terceiro, e, em segundos \u2013 coisa linda da hist\u00f3ria \u2013 ser\u00e1 o caos!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Carlos Freire Professor da UFVJM,Campus de Te\u00f3fi lo Otoni\/MG Lembrei-me outro dia dos tempos em que, fazendo o roteiro costumeiro da popula\u00e7\u00e3o do nordeste mineiro, migrei para S\u00e3o Paulo.Numa segunda-feira gorda de setembro, pego o metr\u00f4 na zona leste. 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