{"id":34171,"date":"2026-06-24T17:49:24","date_gmt":"2026-06-24T20:49:24","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=34171"},"modified":"2026-06-24T17:52:40","modified_gmt":"2026-06-24T20:52:40","slug":"nas-dobras-da-rotina-jose-carlos-freire","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=34171","title":{"rendered":"Nas dobras da rotina &#8211; Jos\u00e9 Carlos Freire"},"content":{"rendered":"\n<p>H\u00e1 dois momentos m\u00e1gicos de um per\u00edodo de f\u00e9rias: o primeiro dia, que \u00e9 uma liberta\u00e7\u00e3o das regras de hor\u00e1rio e compromissos; e o \u00faltimo dia, quando se retoma a rotina. Duas faces da vida: a perman\u00eancia e a mudan\u00e7a, velho tema da filosofia desde os antigos gregos.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o serei hip\u00f3crita: adoro o domingo, o feriado, as f\u00e9rias! A pausa \u00e9 o que d\u00e1 \u00e0 vida, tal como \u00e0 m\u00fasica, a cad\u00eancia e a harmonia. Mas preciso tamb\u00e9m confessar: amo a rotina! A regularidade, um m\u00ednimo de c\u00e1lculo, o dia da feira de supermercado, a hora certa de acordar, de comprar p\u00e3o, de varrer a cal\u00e7ada etc.&nbsp; Essa colet\u00e2nea de atividades, intercalada com a maior delas \u2013 o trabalho formal \u2013 constituem o dia, a semana, o m\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>Admiro muito quem se organiza de modo din\u00e2mico, sem previs\u00f5es fixas, a cada dia de um modo espont\u00e2neo. De verdade, mas n\u00e3o consigo. Apenas nas pausas. Ainda assim, pelo tra\u00e7o de personalidade, tenho reca\u00eddas de querer exportar para as f\u00e9rias os padr\u00f5es de planejamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Devo meu apre\u00e7o \u00e0 rotina a duas fontes. Primeira, a raiz ro\u00e7aliana. A vida de ro\u00e7a \u2013 ao menos aquela da minha inf\u00e2ncia, sem celular e internet \u2013 se regia pela const\u00e2ncia, devido \u00e0 proximidade com a natureza. Gente de ro\u00e7a dorme com as galinhas e acorda com os galos, s\u00e1bio ditado popular. Sol, lua, dia e noite s\u00e3o atores protagonistas da vida, diferente da cidade em que estes s\u00e3o meros figurantes. A cidade \u00e9, por defini\u00e7\u00e3o, a luta contra a natureza \u2013 ilumina noite, muda o curso do rio, impede o sil\u00eancio, espanta os bichos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 curioso. Tantas vezes, na adolesc\u00eancia, ficava admirado com o fato de meu pai, mesmo quando n\u00e3o era preciso, acordar cinco horas da manh\u00e3. At\u00e9 no inverno! Hoje, na cidade e j\u00e1 no segundo tempo do meu jogo da vida, vejo-me fazendo a mesma coisa \u2013 enquanto os filhos dormem at\u00e9 tarde. Seria uma forma simb\u00f3lica de retorno \u00e0 raiz, mesmo tendo sa\u00eddo da ro\u00e7a a quase quatro d\u00e9cadas? Talvez.<\/p>\n\n\n\n<p>A segunda fonte vem dos tempos de semin\u00e1rio. O conv\u00edvio com os frades franciscanos me ensinou a import\u00e2ncia da ritual\u00edstica. Ela j\u00e1 estava l\u00e1, na minha viv\u00eancia rural, mas agora se formulava melhor a no\u00e7\u00e3o de ritual: arrumar os pratos para o caf\u00e9 do dia seguinte, lavar a lou\u00e7a, fazer a comida, arrumar a cama, seguir os hor\u00e1rios de trabalho, estudo e ora\u00e7\u00f5es. Foi uma boa escola. Esses momentos, por triviais que fossem, passaram a ser carregados de valor para mim. D\u00e3o sentido ao cotidiano.<\/p>\n\n\n\n<p>Das duas fontes vem meu gosto por estar em casa. Se para muitos \u00e9 lugar do enfado, para mim \u00e9 a vereda onde me refa\u00e7o. Um boi para n\u00e3o sair, uma boiada para ficar! Por vezes, chego a beliscar um pedacinho daquilo que se chama paz.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas nada \u00e9 perfeito, muito menos a rotina. Ela tem seu lado trai\u00e7oeiro e ilus\u00f3rio: apenas nos d\u00e1 a sensa\u00e7\u00e3o de controle, facilmente desmontada quando desdobramos o seu tecido e encontramos buracos, linhas soltas, um fecho que n\u00e3o funciona.<\/p>\n\n\n\n<p>O vidro da porta da sala trincado denuncia a urg\u00eancia de reparo, assim como o da janela do quarto. Na garagem, o quadro do joguinho de basquete que se soltou aguarda h\u00e1 meses um conserto; perto do tanque, a grade da cama que implora por ajuste. Na cozinha eu nem passo, porque j\u00e1 sei que tem o piso, a mesa, o ventilador para limpar. E o a\u00e7\u00facar que acabou.<\/p>\n\n\n\n<p>As manchas na pintura anunciam despesa grande num futuro pr\u00f3ximo. O filtro de \u00e1gua para trocar, o rejunte do banheiro, a revis\u00e3o do carro. Minha mesa de trabalho \u00e9 um conjunto de pend\u00eancias. A viola empoeirada indica que algo est\u00e1 faltando \u2013 ou em excesso.<\/p>\n\n\n\n<p>Entrego os pontos. Nada est\u00e1, de fato, sobre controle. No fundo, por tr\u00e1s da rotina, oculta-se a verdade inescap\u00e1vel: vamos fazendo o que \u00e9 poss\u00edvel, dentro das condi\u00e7\u00f5es, deixando um monte de coisas para depois \u2013 numa palavra, vamos apagando um inc\u00eandio ap\u00f3s o outro. Sob a maquiagem do planejado, est\u00e1 o caos. Pai do universo e mola da exist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Vem-me \u00e0 mem\u00f3ria a motoquinha irritante do desenho Carangos e Motocas, sensa\u00e7\u00e3o dos anos 80. Quando alguma coisa n\u00e3o saia como o planejado pelos grand\u00f5es, ela repetia: \u201cEu te disse! Eu te disse!\u201d. Era a voz da sensatez, em todo epis\u00f3dio. Assim como a verdade que nos sacode da fantasia: voc\u00ea pode at\u00e9 estabelecer uma rotina, mas ela n\u00e3o funcionar\u00e1 como um rel\u00f3gio, nem garantir\u00e1 que tudo esteja em ordem. Ela somente lhe dar\u00e1 a sensa\u00e7\u00e3o de que dirige o carro.<\/p>\n\n\n\n<p>Pensando bem, talvez o domingo, o feriado, as f\u00e9rias n\u00e3o sejam a pausa, mas os momentos em que escapamos da ilus\u00e3o. A rotina seria a exce\u00e7\u00e3o, a m\u00e1scara que o caos aceita usar para nos convencer de que o domamos \u2013 at\u00e9 que ele ressurja com toda for\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>A ideia me assusta. O que seria de mim sem a regularidade? Cuidemos da vida. Melhor recolher o lixo e colocar l\u00e1 fora. J\u00e1 est\u00e1 quase na hora do caminh\u00e3o passar!<\/p>\n\n\n\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>(*) Professor na UFVJM, Campus de Te\u00f3filo Otoni\/MG. Contato: <a href=\"mailto:freire.jose@hotmail.com\">freire.jose@hotmail.com<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 dois momentos m\u00e1gicos de um per\u00edodo de f\u00e9rias: o primeiro dia, que \u00e9 uma liberta\u00e7\u00e3o das regras de hor\u00e1rio e compromissos; e o \u00faltimo dia, quando se retoma a rotina. Duas faces da vida: a perman\u00eancia e a mudan\u00e7a, velho tema da filosofia desde os antigos gregos. 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