{"id":34664,"date":"2026-08-09T09:27:56","date_gmt":"2026-08-09T12:27:56","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=34664"},"modified":"2026-08-09T09:27:56","modified_gmt":"2026-08-09T12:27:56","slug":"o-candidato-em-quem-o-proprio-partido-diz-nao-confiar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=34664","title":{"rendered":"O candidato em quem o pr\u00f3prio partido diz n\u00e3o confiar\u00a0"},"content":{"rendered":"<h6><em>Cleitinho | FOTO: Ton Molina\/Ag\u00eancia Senado<\/em><\/h6>\n<p>Existe um velho princ\u00edpio da pol\u00edtica que nunca envelhece: ningu\u00e9m conhece melhor um candidato do que o partido que convive com ele.<\/p>\n<p>Por isso, a frase dita pelo presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira, talvez seja o epis\u00f3dio mais devastador da pr\u00e9-campanha em Minas Gerais.<\/p>\n<p>Ao justificar toda a crise envolvendo Cleitinho, Pereira afirmou que o partido n\u00e3o poderia \u201centregar Minas\u201d a algu\u00e9m que muda de posi\u00e7\u00e3o constantemente. Em outra manifesta\u00e7\u00e3o p\u00fablica, foi ainda mais duro: disse que seria irrespons\u00e1vel colocar o Estado nas m\u00e3os de algu\u00e9m que \u201cora pensa uma coisa e, cinco minutos depois, pensa outra\u201d. Acrescentou ainda que o senador \u201cnunca assumiu o papel de lideran\u00e7a de uma candidatura\u201d.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Uma pergunta que n\u00e3o quer se calar<\/strong><\/p>\n<p>Se o pr\u00f3prio presidente nacional do partido afirma isso sobre seu candidato, por que ele continua sendo o candidato?<\/p>\n<p>\u00c9 uma contradi\u00e7\u00e3o dif\u00edcil de explicar.<\/p>\n<p>Durante semanas, os mineiros assistiram a um espet\u00e1culo de improvisa\u00e7\u00e3o. Cleitinho era candidato. Depois n\u00e3o era. Voltava a ser. Chorava. Desistia. Pedia nova chance. Fazia discursos dizendo que iria at\u00e9 o fim. Horas depois, mudava novamente de posi\u00e7\u00e3o. Enquanto isso, partidos aguardavam defini\u00e7\u00f5es, alian\u00e7as eram congeladas, chapas permaneciam incompletas e toda a constru\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da direita mineira ficou paralisada.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi a imprensa que descreveu esse comportamento. Foi o presidente nacional do Republicanos.<\/p>\n<p>Quando Marcos Pereira afirma que um partido s\u00e9rio n\u00e3o pode conviver com tamanha instabilidade, ele faz uma avalia\u00e7\u00e3o pol\u00edtica devastadora. N\u00e3o \u00e9 um advers\u00e1rio tentando desgastar um concorrente. \u00c9 o dirigente m\u00e1ximo da legenda expondo, diante do pa\u00eds, a raz\u00e3o pela qual deixou de confiar na condu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do pr\u00f3prio senador.<\/p>\n<p>Agora, se depois de dizer tudo isso, o partido confirma a candidatura, sobra uma pergunta ainda mais desconfort\u00e1vel.<\/p>\n<p>O que mudou?<\/p>\n<p>Cleitinho deixou de ser inconstante de um dia para o outro?<\/p>\n<p>Ou o Republicanos resolveu aceitar exatamente aquilo que dizia ser incompat\u00edvel com a responsabilidade de governar Minas?<\/p>\n<p>As duas hip\u00f3teses produzem um problema.<\/p>\n<p>Se nada mudou, o partido abriu m\u00e3o do argumento que utilizou para justificar toda a crise.<\/p>\n<p>Se tudo mudou em poucas horas, ent\u00e3o a conclus\u00e3o anterior era precipitada.<\/p>\n<p>Nenhuma das respostas fortalece a imagem da candidatura.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica exige confian\u00e7a. N\u00e3o apenas do eleitor, mas tamb\u00e9m dos aliados.<\/p>\n<p>Um governador negocia diariamente com prefeitos, Assembleia Legislativa, Congresso Nacional, empres\u00e1rios, Poder Judici\u00e1rio e governo federal. Quem ocupa o Pal\u00e1cio Tiradentes precisa transmitir previsibilidade. N\u00e3o porque isso seja uma virtude est\u00e9tica, mas porque \u00e9 um requisito para governar.<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio recente fez exatamente o contr\u00e1rio. Transformou a principal caracter\u00edstica da candidatura numa d\u00favida.<\/p>\n<p>O dano talvez seja maior porque foi autoinfligido.<\/p>\n<p>N\u00e3o veio de um programa de televis\u00e3o. N\u00e3o nasceu de uma investiga\u00e7\u00e3o. N\u00e3o surgiu de um advers\u00e1rio.<\/p>\n<p>Foi produzido pelo pr\u00f3prio Republicanos.<\/p>\n<p>Quando a principal cr\u00edtica contra um candidato parte da boca do presidente nacional do seu partido, a oposi\u00e7\u00e3o sequer precisa construir discurso.<\/p>\n<p>Ele j\u00e1 veio pronto.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que Cleitinho continua sendo um pol\u00edtico popular. Ningu\u00e9m chega ao Senado por acaso. Seu estilo direto, sua comunica\u00e7\u00e3o simples e sua forte presen\u00e7a nas redes sociais explicam boa parte dessa trajet\u00f3ria.<\/p>\n<p>Mas popularidade nunca substituiu estabilidade. Carisma nunca dispensou capacidade de decis\u00e3o. E espontaneidade jamais foi sin\u00f4nimo de lideran\u00e7a administrativa.<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio exp\u00f4s um problema que provavelmente acompanhar\u00e1 toda a campanha.<\/p>\n<p>Sempre que Cleitinho anunciar uma posi\u00e7\u00e3o importante, haver\u00e1 quem pergunte se ela continua valendo amanh\u00e3.<\/p>\n<p>Esse talvez seja o maior preju\u00edzo pol\u00edtico de toda essa crise.<\/p>\n<p>A candidatura foi confirmada.<\/p>\n<p>A credibilidade, por\u00e9m, n\u00e3o acompanha automaticamente uma homologa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ela precisa ser reconstru\u00edda.<\/p>\n<p>E isso costuma levar muito mais tempo do que uma conven\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria.<\/p>\n<p>No fim das contas, fica a imagem mais desconfort\u00e1vel de toda essa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>O Republicanos apresentou aos mineiros um candidato depois de dizer, em p\u00fablico, que tinha d\u00favidas sobre sua firmeza para conduzir o Estado.<\/p>\n<p>Quando um partido precisa primeiro desqualificar seu candidato para depois confirm\u00e1-lo, quem entra em crise n\u00e3o \u00e9 apenas a candidatura.<\/p>\n<p>\u00c9 a credibilidade de quem a escolheu.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cleitinho | FOTO: Ton Molina\/Ag\u00eancia Senado Existe um velho princ\u00edpio da pol\u00edtica que nunca envelhece: ningu\u00e9m conhece melhor um candidato do que o partido que convive com ele. 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