{"id":3634,"date":"2020-09-03T10:42:04","date_gmt":"2020-09-03T13:42:04","guid":{"rendered":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=3634"},"modified":"2020-09-03T10:42:05","modified_gmt":"2020-09-03T13:42:05","slug":"a-saudade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diariotribuna.com.br\/?p=3634","title":{"rendered":"A saudade"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Jos\u00e9-Carlos.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3635\" width=\"321\" height=\"236\" srcset=\"https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Jos\u00e9-Carlos.jpg 700w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Jos\u00e9-Carlos-300x221.jpg 300w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Jos\u00e9-Carlos-80x60.jpg 80w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Jos\u00e9-Carlos-696x512.jpg 696w, https:\/\/diariotribuna.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/Jos\u00e9-Carlos-571x420.jpg 571w\" sizes=\"(max-width: 321px) 100vw, 321px\" \/><figcaption><strong>Jos\u00e9 Carlos Freire &#8211; Mestre em Filosofia pela Faculdade S\u00e3o Bento\/ SP. Professor na UFVJM, campus de Te\u00f3filo Otoni<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>No final do segundo semestre de 2018 a turma do Servi\u00e7o Social da UFVJM, como de costume ao t\u00e9rmino do curso, realizou a \u201cAula da saudade\u201d, para a qual tive o prazer de ser convidado junto a outros(as) colegas professores(as). J\u00e1 se tornara corriqueiro ver alunos e alunas completarem o ciclo que vai do ingresso no primeiro per\u00edodo \u00e0 formatura, naquele e em outros cursos da Universidade. Mas aquela \u201caula\u201d foi especial, porque seu conte\u00fado era um sentimento compartilhado. Foi um momento de reflex\u00e3o importante para mim. Contei aos alunos(as) e colegas que quando termina um semestre letivo eu me despe\u00e7o da sala vazia. Naquele breve instante ap\u00f3s o encerramento da \u00faltima avalia\u00e7\u00e3o e antes que a equipe da limpeza venha organizar a sala eu me silencio e contemplo as cadeiras, na tentativa de gravar os momentos vividos.<\/p>\n\n\n\n<p>Fa\u00e7o a mesma coisa quando me mudo de casa. Ap\u00f3s retirar os m\u00f3veis, fica tudo calmo e d\u00e1 at\u00e9 para ouvir o eco dos passos. As paredes parecem se alargar e a casa fica maior. Todas as imagens vividas em cada c\u00f4modo se sobrep\u00f5em como num filme. Por mais simples e corriqueiros que sejam os dias de aula de um semestre ou os acontecimentos triviais do cotidiano familiar, s\u00e3o momentos vividos, convividos, compartilhados. Fizeram parte de minha hist\u00f3ria. Encaro isso como forma de ganhar for\u00e7a para o pr\u00f3ximo passo, a pr\u00f3xima casa, a pr\u00f3xima etapa da vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas isso \u00e9 em tempos normais. Pensar sobre saudade em um contexto t\u00e3o at\u00edpico como o nosso \u00e9 diferente. Talvez voc\u00ea, leitor, compartilhe comigo da sensa\u00e7\u00e3o estranha que esta pandemia vai deixando. Penso que seja mais que falta dos amigos, parentes, pessoas queridas. \u00c9 uma esp\u00e9cie de vazio. Uma certeza inc\u00f4moda de incompletude do encontro, de impossibilidade de afeto.<\/p>\n\n\n\n<p>Carregamos todos n\u00f3s, uns menos, outros mais, uma raiz ib\u00e9rica, de onde costumam dizer que vem esse sentimento complexo que \u00e9 a saudade. Ele \u00e9 uma esp\u00e9cie de \u201csentimento-im\u00e3\u201d, que agrega outros como a nostalgia, o pesar, a dor da perda, a vontade de voltar etc. Complicado explicar, na verdade, o que seja saudade. Prova disso \u00e9 a dificuldade de se traduzir, segundo os linguistas, esse termo do portugu\u00eas para outras l\u00ednguas.<\/p>\n\n\n\n<p>Para mim, esse sentimento lusitano se mistura com outras manifesta\u00e7\u00f5es que nos comp\u00f5em a identidade. A perda da terra de origem dos africanos para c\u00e1 trazidos como escravos nos legou um buraco na alma, uma chaga que n\u00e3o se cura. Da mesma maneira os povos origin\u00e1rios da Am\u00e9rica Latina, desterrados em sua pr\u00f3pria terra, perderam sua raiz, sua simbiose com a natureza. Herdamos da coloniza\u00e7\u00e3o um apagamento, uma desmem\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, entre os muitos lados do termo saudade, existe esse, mais sociol\u00f3gico. Mas h\u00e1 outros lados. O mais comum \u00e9 o que remete \u00e0s rela\u00e7\u00f5es com pessoas queridas que vamos conhecendo pelo tortuoso caminho da vida. Esse aspecto da saudade \u00e9 o que fez \u00c1lvaro de Campos assim se expressar em \u201cAnivers\u00e1rio\u201d, um poema cheio de lembran\u00e7as: \u201cNo tempo em que festejavam o dia dos meus anos, eu era feliz e ningu\u00e9m estava morto [&#8230;]\u201d. E encerra o poema dizendo: \u201cRaiva de n\u00e3o ter trazido o passado roubado na algibeira!\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse caso, a saudade est\u00e1 quase sempre associada em nosso imagin\u00e1rio, \u00e0 solid\u00e3o, \u00e0quela situa\u00e7\u00e3o de fragilidade e abandono de um professor com a sala vazia ao final do semestre, da m\u00e3e que arruma o quarto do filho que partiu, do pai na plataforma que acena para a filha no \u00f4nibus. \u00c9 assim que o grande compositor cubano, Pablo Milan\u00e9s a define: \u201cA solid\u00e3o \u00e9 um p\u00e1ssaro grande e multicolorido que j\u00e1 n\u00e3o tem asas para voar e a cada nova tentativa sente mais dor\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Penso que a insensibilidade n\u00e3o seja novidade de nossos tempos. Sempre houve figuras p\u00fablicas que propagaram absurdos, n\u00e3o se importando com o que causariam em quem os ouve. No contexto de hoje, ao inv\u00e9s de menosprezar ou ridicularizar a situa\u00e7\u00e3o de pandemia, deveriam tais figuras se calar em respeito a todos que sofrem e se angustiam com a pr\u00f3pria doen\u00e7a, o desemprego, a falta de grana, a perda de horizontes, a interrup\u00e7\u00e3o de sonhos. Se n\u00e3o isso, ao menos a dignidade de respeitar a mem\u00f3ria dos que morreram em raz\u00e3o da pandemia e a dor dos seus parentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Tenhamos outra r\u00e9gua de medida. Aquela que compreende o sofrimento de uma pessoa como sofrimento da humanidade toda. Nesse caso, a saudade imensa que sentimos de parentes e de amigos nesta pandemia intermin\u00e1vel pode ganhar outra dimens\u00e3o: ela passa a ser assimilada com mais leveza. Olhando para quem perdeu pessoas da fam\u00edlia ou amigos pr\u00f3ximos, aqueles entre n\u00f3s que fomos poupados dessa situa\u00e7\u00e3o podemos dizer: \u201cN\u00e3o sei o quanto \u00e9 sua dor, mas por sentir um pedacinho dela no meu dia a dia sou solid\u00e1rio a voc\u00ea\u201d. Contra a insensibilidade, a empatia. Contra a imbecilidade, a compaix\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Chico Buarque na antol\u00f3gica can\u00e7\u00e3o \u201cPeda\u00e7o de mim\u201d diz que a saudade \u00e9 \u201ccomo um barco<br>que aos poucos descreve um arco e evita atracar no cais\u201d. Gosto dessa imagem. Mas acho tamb\u00e9m que a saudade \u00e9 o vento que sopra as velas de nosso barquinho para frente, para outras \u00e1guas, outros rios e outros mares.<\/p>\n\n\n\n<p>Aos que ainda veremos, demore o quanto demorar, poderemos dizer o quanto fizeram falta. E ser\u00e1 belo o encontro. Os que morreram e n\u00e3o podem mais compartilhar com seus entes a mesa e a conversa estar\u00e3o juntos de outro modo: pela mem\u00f3ria. A saudade, no fundo, indica mais a presen\u00e7a do que a aus\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No final do segundo semestre de 2018 a turma do Servi\u00e7o Social da UFVJM, como de costume ao t\u00e9rmino do curso, realizou a \u201cAula da saudade\u201d, para a qual tive o prazer de ser convidado junto a outros(as) colegas professores(as). 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